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O absurdo final do caso da queda do Concorde em Julho de 2000

Hoje o mundo da aviação ficou perplexo com um veredito de um tribunal francês sobre a investigação do acidente com o Concorde em 25 de Julho de 2000.

De acordo com a corte francesa, a Continental Airlines e um mecânico da empresa foram os únicos responsáveis pelo acidente, e por isso o mecânico deve ser suspenso (preso) por 15 meses e a Continental deve pagar 1 milhão de Euros para a Air France e mais 200 mil euros de multa.

Pra quem não conhece a história do acidente, durante as investigações chegou-se a conclusão que um pedaço de metal havia se soltado de um motor de um DC-10 da Continental que decolou minutos antes do Concorde.
Durante a corrida de decolagem, o Concorde passou sobre este pedaço de metal, causando um estouro de um dos pneus. Pedaços do pneu perfuraram o tanque de combustível logo a frente dos motores, causando as labaredas que aparecem na foto. Um dos motores ingeriu também pedaços do pneu, vindo a falhar logo após o rotation e o outro falhou após ingerir os gases da queima junto com querosene.

O Lvcivs que escreve aqui no Blog de vez em quando conhece mais a história do Concorde do que eu, mas antes de comentar a decisão do tribunal, convém lembrar que há inúmeros relatórios sobre falhas do concorde ocasionadas por estouro de pneus, principalmente nos aviões da Air France (os da British aparentavam possuir melhor manutenção). Estas falhas nunca foram corrigidas e todas muito semelhantes ao acidente de 2000.

Em 2008 a imprensa já noticiava a “tendência” francesa de achar culpados para o acidente. Na época, o presidente da Safety Foundation já dizia:

“Assim como outras tentativas recentes de criminalizar acidentes de aviação na França, essas acusações de homicídio culposo parecem duvidosas e míopes. Se não há intenção dolosa ou flagrante de mau conduta, nós questionamos seriamente as bases para colocar empresas aéreas e profissionais da aviação através do calvário de processos penais. Além disso, estamos preocupados que os processos criminais irão desencorajar o livre fluxo de informações entre operadores e agências reguladoras, em detrimento da segurança da aviação”

A Continental, em sua página no Facebook criticou veementemente a corte francesa, informa que vai apelar da decisão e termina o texto assim:

“To find that any crime was committed in this tragic accident is not supported either by the evidence at trial or by aviation authorities and experts around the world.”

Pois bem, se haviam precedentes de vulnerabilidade da área inferior da asa nunca corrigidos, problemas com os pneus (mais de 70 reportes antes do acidente), não houve evidência de que somente o pedaço de metal foi o responsável pelo acidente, então por que esse veredito apontando só um culpado?. Por que caminhar na contramão de tudo que se conseguiu em matéria de segurança de aviação? Por que um País que tem uma história de aviação como a França pode ser tão míope?

Bem, pelos comentários lá no facebook, os americanos apostam na xenofobia: Uma aeronave Francesa (Franco/Inglesa na verdade), operada por uma empresa Francesa, mantida [na época] pelo Governo Francês e cujo órgão investigador [a BEA] é subordinado.

Não vou julgar as intenções da França neste caso, mas condeno a criminalização de acidentes aéreos, assim como quiseram fazer no Brasil no caso do Legacy X Gol e TAM em Congonhas: se todos os acidentes aéreos terminassem com o profissional na cadeia, nada se aprenderia e teríamos hoje 10 acidentes por dia.

Estou realmente surpreso com esse veredito e só diminuiu meu apreço pela aviação francesa.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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