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O baixo número de vítimas no acidente com o Boeing 777 da Asiana é um tributo à engenharia

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307 pessoas a bordo. Até o momento em que escrevo este post (00:40hs), duas mortes foram confirmadas e 10 feridos estão em estado grave.
O acidente da Asiana é o primeiro com vítimas fatais a bordo do gigantesco Boeing 777, que entrou em serviço em 1995. O único acidente anterior [em voo] com o modelo ocorreu durante o pouso em Londres, cuja investigação descobriu que a formação de cristais de gelo no combustível poderiam causar o problema com o aquecedor de combustível naquele motor específico (Rols Royce). Após a conclusão da investigação, todos os trocadores de calor dos motores RR foram substituídos por um novo modelo que não apresenta o problema. A propósito, o avião acidentado da Asiana possui motores Pratt & Withney, imunes ao problema de cristais de gelo no trocador de calor do óleo/combustível.

O post não é para especular sobre a possível causa do acidente, pois há que se aguardar as investigações para saber que motivos levaram a aeronave a sofrer o tremendo impacto capaz de arrancar sua cauda, ou em outras palavras, qual a razão da atitude do avião estar tão errada (baixo e com alto ângulo de ataque) no momento do pouso.

O post na verdade é para prestar um tributo à engenharia aeronáutica, ou melhor dizendo, o baixíssimo número de vítimas em um acidente desta magnitude mostra o quanto os engenheiros aprenderam com o passado e incorporaram em seus designs aviões cada vez mais seguros, tanto do ponto de vista estrutural quanto do ponto de vista dos sistemas. A cabine de passageiros hoje em dia possui materiais que retardam a propagação de fogo, de tal maneira que quando este avião começou a pegar fogo, já estava praticamente evacuado.

O que mais me impressionou foi que o charuto ficou quase intacto. Os buracos vistos no teto ocorreram após o incêndio, provavelmente causado pela proximidade do motor 2 que foi parar ao lado da fuselagem. Este desenho abaixo mostra, com extrema simplicidade, a construção da estrutura de uma aeronave deste tamanho. Nem mesmo as asas e as juntas das seções se separaram na pancada (exceto a seção 48, que foi arrancada no impacto inicial).

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Fuselagem do Boeing 777

 

A fuselagem é do tipo semi-monocoque, com stringers (costelas horizontais) e frames (os anéis circulares) proporcionando a rigidez estrutural, e uma gigantesca keel beam (viga do casco) que suporta e transfere todos os esforços causados pela aterrisagem e seu gigantesco trem de pouso de 3 eixos, além de ser o ponto de distribuição de forças das asas. As vigas do solo, onde se prendem os assentos são de material compósito (fibra de carbono e outras misturas).

O peso médio de um 777-200 no pouso é da ordem de 200 toneladas (200 mil quilos), a uma velocidade aproximada de 295 km/h. Esta foto do New York Times mostra a devastação que ocorreu no acidente, desde antes da cabeceira da pista até o ponto de parada do avião, a apenas 700 metros à frente. Percebam que a única peça que poderia manter o nariz levantado (os estabilizadores horizontais) foram arrancados no primeiro impacto, ainda antes de chegar na cabeceira, então o nariz e o restante da fuselagem deve ter atingido o solo com uma força descomunal. O trem de pouso e seus eixos são de aço, e é possível ver em uma das fotos que apenas um eixo das rodas sobreviveu. Também é possível ver que a viga foi “rasgada” do avião e permaneceu acoplada ao trem.

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200 toneladas a 295 km/h. 307 pessoas. 2 mortos. Para que todos possam entender porque eu digo que devemos prestar um tributo aos engenheiros, dada dimensão do que foi este acidente, vamos comparar com um outro que ocorreu semana passada com um ônibus no Rio Grande do Sul.

Um ônibus pesa por volta de 20 toneladas, e tem uma velocidade média de 100 km/h. Transporta algo em torno de 45 passageiros.

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Avião: 200 toneladas, 295 km/h, 307 pessoas, 2 mortos.
Ônibus: 20 toneladas, 100 km/h, 45 pessoas, 6 mortos.

Por isso eu critiquei quando o Fantástico retransmitiu o ótimo documentário da Discovery, que derrubou uma aeronave para pesquisar a melhoria de sobrevivência em caso de acidentes, e os apresentadores da Globo focaram apenas no fato de que “os passageiros sentados na parte de trás têm mas chance de sobreviver”. Infelizmente, é provável que as vítimas do acidente de hoje estivessem justamente na parte de trás.
Aviação é muito mais que sensacionalismo. É uma busca constante por eficiência e segurança. Exatamente por isso que quando ocorre um acidente como o de hoje, se torna notícia mundo afora, preenchendo todo o tempo de noticiário de uma empresa como a CNN.

 

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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