O caminhão “atropelou” meu avião, e agora? Como se faz a “lanternagem”?

Update: Texto ao final com explicação sobre aviões de material composto

Ontem, mal cheguei de viagem, e já havia virado notícia o incidente com um caminhão de comissaria e uma aeronave da GOL.
As manchetes rolavam no twitter / jornais / TV sobre o inusitado “atropelamento” de um avião por um caminhão.

É uma tristeza informar, mas isto não é tão raro de acontecer. Todos os dias, em algum lugar do mundo, dezenas de aeronaves são atingidas por veículos de solo (Ground Equipment) e há até debates na IATA (International Air Transport Association) sobre quem deveria pagar a conta.

Não vou entrar em detalhes sobre os fatores humanos envolvidos nestes incidentes, mas vamos dar uma pincelada no aspecto técnico: como se faz para consertar um avião que foi “batido” no solo? Como saber se pode voltar a voar com segurança?

Bem, a primeira parte do processo se chama “Inspeção”. A aeronave é levada a um hangar onde é “despida” de seus revestimentos para que os inspetores possam ver claramente a estrutura.

Neste tipo de serviço, entra em campo o principal manual estrutural: o SRM (Structural Repair Manual). Este manual é a bíblia que dita tudo o que pode ser consertado pela manutenção em relação a reparos estruturais.
É um manual que requer um certo tempo de experiência em manutenção para ser compreendido, pois há muitos detalhes intricados e que precisam de atenção redobrada e conhecimento de desenho técnico.

Através do SRM toda e qualquer área da aeronave pode ser identificada e localizada. Quem viu o vídeo na Globo deve ter percebido umas marcações na fuselagem (foto abaixo).

O que seriam estas marcações?

Marcações de inspeção na fuselagem

Zonas e estações de fuselagem

Pelas duas fotos acima (frames do filme da Globo) é possível ver as marcações de estações da aeronave e o que foi identificado de problema pela inspeção inicial. Podemos ler “STA 727J” e “STR Cracked”, significando que logo atrás da Estação 727J foram encontradas rachaduras nos stringers em virtude do choque.

Stringer?? O que é isso?
Abaixo uma foto mostra os stringers (correm longitudinalmente) e cavernas que ficam por trás da chapa da fuselagem e que você nunca vê:

Stringers e cavernas

E onde seria esta estação 727J que aparece no vídeo da globo?

Bem, entra aí novamente o SRM e suas localizações. Na imagem abaixo eu colei várias páginas do SRM para formar uma imagem só da fuselagem de um 737-800 e para que vocês possam ver como a fuselagem é dividida em estações espaçadas por 20 polegadas, e em vermelho está a referida 727J onde houve a colisão:

Estações de uma aeronave – Clique para ampliar

Curiosamente, a colisão ocorreu do lado esquerdo do 737, onde veículos de comissaria não trafegam (o carregamento de alimentos é sempre pelo lado direito da aeronave no caso dos 737).

Uma vez que a inspeção localiza e detecta os danos, estes são medidos em 3 eixos (largura, comprimento e profundidade) e comparados com uma tabela do SRM de identificação de área do dano. Dependendo destes dois fatores, o tamanho e a área (e obviamente o tipo de dano, se é rachadura, torção, amassados, mossas,etc), chega-se a conclusão se o dano observado pode ser reparado de acordo com as instruções do próprio SRM ou se o setor de engenharia da empresa vai entrar no circuito de decisão e reparo.

A figura abaixo mostra um exemplo de identificação de área: percebam que estruturas secundárias são mais fáceis de reparar ou substituir, ao passo que estruturas primárias envolvem um procedimento chamado de “major repair”, muito mais complexo e geralmente com instruções e desenhos de engenheiros.

Após a identificação e plano de reparo (as vezes necessitam de aprovação do próprio fabricante, Boeing ou Airbus), entra em cena um tipo de mecânico muito valioso para as empresas: o “chapeador”.

O chapeador é o cara que tem proficiência em reparos com lâminas de aluminio, furadeiras pneumáticas, grampos cleco, tipos de rebites, selagem, etc.

Bons profissionais nesta área são difíceis de formar e altamente disputados entre as empresas (fica a dica: se você é bom em ferramentas de precisão (paquímetros, filler gages, etc) e tem mão boa para furadeiras e rebitadeiras, especialize-se em chapemaento e o futuro está garantido..rs).

Esta é uma função de manutenção que requer especialização, você nunca vai ver um chapeador mexendo num motor de avião.

Com os reparos feitos, o acréscimo de peso é incorporado nos documentos operacionais da aeronave (aviões engordam quando envelhecem), novo cálculo de peso e balanceamento é publicado e a aeronave está pronta para singrar os ares com segurança até o próximo dano.

Update: Alguns comentários questionando se o incidente tivesse ocorrido com o 787, como seria?

Para quem não sabe o Boeing 787 é o primeiro avião comercial de passageiros a empregar materiais compostos até na fuselagem. Em caso de abalroamento por veículos de solo, o 787 suporta choques muito mais violentos SEM que sua estrutura seja abalada. A maneira com que as camadas de material composto são unidas criam uma resistência para o material até 5 vezes maior que o aço, que como sabemos é muito mais resistente que o alumínio.

Mas se o choque abalar a estrutura do “composite”, a maneira de se fazer o reparo é totalmente diferente, bem como o ferramental. A Boeing desenvolveu “patchs” (remendos) de aplicação rápida que em alguns casos dispensará até o uso de forno para curar as resinas. E quem será capaz de fazer estes reparos? Oras, os memos técnicos que já fazem reparos estruturais hoje, só que treinados em outra especialidade. Ainda não estudei todos os detalhes dos reparos no 787, mas vi que ele possui “fasteners” também (uma espécie de rebite), a diferença é que os limites para os materiais compostos são muito mais restritos.

Sobre o Autor

LitoUm técnico com bom senso :)Veja todos os posts de Lito →

  • Eduardobayler

    Lito Boa tarde..
    Uma pergunta pra um auxiliar de manutenção que esta pra entrar agora no mercado, e possui as 3 ccts. quando questionado em qual area quer atuar qual vc  destacaria que o futuro é mais certo?

    • http://www.avioesemusicas.com Lito

      Hoje em dia todas as áreas têm o mesmo valor.  Boa sorte neste início de carreira.

      • Lluiz

        Olá a todos.
        O que fiquei sabendo era que o caminhão havia abastecido outro aviao ao que estava do lado deste ..o motorista saiu..e o caminhão estava sem os calços. 

        • Euclides

          poooxa

  • Luis Carlos Mari

    Lito, se o incidente fosse com um 787-8/9 Dreamliner o conserto seria mais fácil na estrutura de composite ?

  • MicaelRocha

    Ok, então o chapeador é um profissional especializado e com grande procura pelas empresas. 

    Mas e agora, que a era do “avião de plástico” chegou? O chapeador terá também que lidar com esses tipos de novos materiais?

  • Williams Head

    Lito, mudando um pouco de assunto, mas aproveitando o gancho de que ‘o carregamento de alimentos e sempre pelo lado direito da aeronave’, mas gostaria de saber se existe algum motivo para a entrada e saida de passageiros se dar pelo lado esquerdo da aeronave. 

    • http://www.avioesemusicas.com Lito

      Não existe motivo que eu saiba, mas isto foi convencionado há muito tempo. Todos os aeroportos são projetados e construídos com as pontes de embarque do lado esquerdo do avião, e as portas dos porões de carga e de alimentos ficam do lado direito (menos nos aviões cargueiros, que ficam do lado esquerdo). Obviamente, em caso de emergência, todas as portas são usadas por passageiros. 

  • Williams Head

    Lito, existe algum motivo especifico para o embarque e desembarque de passageiros se dar pelo lado esquerdo da aeronave?

  • Felipe

    Lito, nesse post aqui: http://www.avioesemusicas.com/novidades-que-vem-por-ai-foto-do-767-tutubarao.html você diz que não pode comentar sobre um acidente ocorrido em guarulhos. Óbviamente, nesse caso do cqaminhão, você pode comentar, visto que saiu inclusive na televisão. Enfim, minha dúvida é a seguinte: como funciona essa “proibição” de comentar sobre incidentes? Quem o fizer pode ser punido? Já pode falar sobre o incidente citado no link?

    • http://www.avioesemusicas.com Lito

      É um procedimento da empresa que trabalho. Vc já deve ter visto vídeos de comandantes mostrando o procedimento operacional na TAM, na Avianca, etc, algumas empresas permitem (ou ainda não criaram o procedimento para inibir). EM relação ao acidente que me refiro naquele post, além de não ter saído na imprensa o problema da Infraero, ainda ocorreu na minha empresa. Abs.

  • Anônimo

    Excelente post, Lito. Tenho uma pergunta e um comentário a fazer. A pergunta é: Quanto vai custar essa brincadeira?
    E segue o comentário: Quanto a questão de quem deve pagar a conta, posso apresentar um pequeno parecer jurídico (é pequeno mesmo, não sou o Goytá :p)
    Sob a ótica do Direito Civil, todo aquele que comete ato ilícito é obrigado a indenizar.
    Nesse caso, se o caminhão for operado pela empresa que fornece os alimentos, foi ela – a empresa – quem praticou o ilícito, por ato de seu preposto, mesmo que esse tenha agido por descúido, que juridicamente pode ser chamado de negligência, imprudência ou imperícia, dependendo de sua modalidade.
    Lado outro, se o caminhão for operado pela Infraero, ela, que é Empresa Pública Federal, tem responsabilidade objetiva, ou seja, a GOL não precisaria nem comprovar o atuar culposo (descuidado) do seu condutor, sendo ela que deve ser acionada para pagar a conta.
    Agora, se a despesa for paga pela seguradora, essa, certamente, exercerá seu direito de regresso e buscará essa grana junto ao responsável, seja a empresa de alimentação, seja a Infraero, já que a seguradora, quando paga o sinistro, se sub-roga (substitui) nos direitos de pleitear indenização do causador do acidente.
    Enfim, meu “pitaco” é nesse sentido.
    Mas vamos voltar à aviação, que é muito mais interessante que esses papos jurídicos. 

  • Márcio

    Legal Lito!

  • http://www.facebook.com/people/Victor-Medici-De-Felice/100000470188460 Victor Medici De Felice

    Excelente post Lito ! Gostei muito da explicação ainda mais porque estou trabalhando na equipe de Estruturas lá na TAM MRO e estou recebendo treinamento em Materiais Compostos – e o SRM é bem complexo mesmo!rs

    Já pude verificar um pouco a resistência que o material composto suporta para não danificar a estrutura da aeronave;em casos de albaroamento/lightning strike…

    Abraços!!

  • Antonio Fernando G. da Costa M

    Poxa Lito…cada dia vc me surpreende mais…Abraço

  • Kleber CWB

    Lito…e mais um boeing da Gol se envolveu em um acidente, só que em Ezeiza.Foi atingido por um avião da LAN.

  • Anônimo
  • http://www.facebook.com/rndomingues Rodrigo Domingues

    Um avião novinho e fazem uma barbairagem dessas! Um colega meu da Universidade e que trabalha na Gol disse que o avião ainda tinha cheiro de novo!
    Uma outra propriedade interessante da fibra de carbono que meu professor falou na aula de materiais aeronáuticos, é que apesar da grande capacidade de resistir a choques e colisões, a fibra de carbono tem um ductilidade baixa, ou seja, não tem boa resistência a deformações plásticas.

  • Rids

    No menor aeroporto do Brasil, isso se resolve com Araldite e precisão:
    http://sobreixos.blogspot.com/2012/02/avionicos-9-o-menor-aeroporto-do-brasil.html

  • Italo Castanhetti

    Ola Lito, Estou me formando em Eng Mecanica e estou fazendo meu estagio na Shuttle Aerospace em Wichita-KS uma empresa que faz pecas para HBC, queria parabenila-lo pelo seu Blog, com certeza irei ler sempre seus tutoriais.
    Voce teria alguma indicacao de algum livro que aborda os funcinamentos dos componentes de avioes?

    Obrigado