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O fim da ervilha – Webjet teve suas operações encerradas

As opiniões a seguir são somente minhas, de maneira alguma refletem a opinião de meu empregador nem de qualquer outra pessoa, física ou jurídica, e por ser opinião pessoal sem o conhecimento total da situação, pode conter erros de avaliação, no entanto caracteriza meu anseio pessoal.

Boeing 737-800 Webjet – Foto © Lito

Tenho muitos amigos na ex-Webjet, profissionais gabaritados e experientes que trabalharam comigo nos anos dourados da Varig, mas não é por eles que estou triste e não é por eles que escrevo esse texto. Tenho muitos amigos na GOL, profissionais gabaritados e experientes que trabalharam comigo nos anos dourados da Transbrasil, mas não é para eles que escrevo esse texto.

O fato de ter amigos dos dois lados mostra que a aviação é feita de (e por) pessoas.

Não estamos mais nos anos 80, estamos em uma era de informação em que se busca o bem estar social e do meio ambiente. Ações sociais, redes sociais, combustíveis ecológicos, distribuição de lucros: as empresas que olham para o futuro, olham para o seu funcionário, Google e Microsoft são o melhor exemplo. Neste sentido, o que transpareceu no dia de hoje no encerramento da Webjet após aquisição pela GOL foi um total desastre administrativo.

Não foram apenas os funcionários da ex-Webjet que se sentiram atingidos com a demissão em massa, foram também os próprios funcionários da GOL que receberam uma mensagem bem clara de insegurança em seu próprio futuro – “a próxima pode ser comigo”. É bem provável que os cortes anunciados hoje fossem realmente imprescindíveis para o futuro da GOL, mas que futuro? O futuro projetado por uma administração aos moldes dos anos 80? Eu não sou administrador, mas com certeza há sempre uma outra maneira de atingir os objetivos. Quem leu o livro A Hora Da Verdade de Jan Carlzon, sabe como ele tirou a SAS de uma situação falimentar no início dos anos 80 e a levou a ser a melhor empresa aérea do mundo, investindo somente em uma coisa: no funcionário e nas suas idéias. Ele horizontalizou a maneira de resolver os problemas de uma empresa aérea.

Um painel solto, com ponta aguda e saliente, na cabine de passageiros de um avião, rasga as meias de uma passageira que reclama com a aeromoça. Como esta não pode resolver o problema, preenche um relatório que envia ao escritório, delegando o problema ao superior da companhia e ficando consciente de que cumpriu com seu dever. O escritório, porém, só tem um telefone e nenhuma ferramenta. O relatório é enviado ao departamento técnico, que anota o conserto a ser feito quando possível, pois o avião está voando. Até lá, muitas meias serão rasgadas.

A solução de Jan Carlzon para isto foi se livrar das barreiras horizontais à comunicação. Afastar os gerentes de nível médio, contratados para fazer com que as instruções sejam seguidas, do papel de administradores e transformá-los em líderes e auxiliares do pessoal da linha de frente, que atende diretamente ao cliente e ao mercado.

Eu não sou ingênuo a respeito de fusões e aquisições: elas geram sim demissões. Nos países desenvolvidos, uma fusão permite que você possa crescer em relação ao seu concorrente e competir melhor com ele, sobreviver. No Brasil, a fusão acontece para eliminar o concorrente menor que o incomoda, é como se não houvesse o interesse em servir a comunidade. O cliente que procure seus direitos. O mercado que se exploda. Isto está totalmente errado.

Um dia (espero que não seja tarde demais) os administradores de empresas aéreas no Brasil vão perceber que o que há de mais valioso em suas mãos não é o avião ou o dinheiro em caixa, são as pessoas que mantém o avião voando, é o passageiro contente.
Para transportar pessoas como gado, cobre preço de passagem de gado como a Ryanair faz, e o gado vai gostar. Mas não enlate passageiros em seus assentos cobrando preço de passagem premium e depois demita o seu pessoal por que seu modelo de negócios não está dando certo.

Estamos em um mundo conectado, social (vejam o que aconteceu com quem tentou se dar bem na Black Friday, esse modelo de brasileiro esperto vai ter fim).

Valorize as pessoas.

Isto não poderia ter acontecido hoje, foi um erro gravíssimo que pode custar caro no futuro:

Valorize o seu profissional e ele valorizará o seu negócio. Com esse passo que a GOL tomou hoje, o Gigante do Keep Walking Brazil voltou a adormecer, foi um atraso sob todos os aspectos. Perdem todos. Os funcionários da Webjet. Os funcionários da GOL. Os passageiros. As cidades atendidas. O País. Eu e você perdemos.

Eu não escrevo esse texto para meus amigos, escrevo esse texto para mim, para que eu continue acreditando que um dia esse País vai mudar, para que eu não acredite nestes que dizem que “esse papo” de valorizar pessoas é “só balela”.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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