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O Flightradar24 e a política internacional

Como para muitos de vocês colegas de infecção pelo Aerococcus, um dos meus passatempos é acompanhar o Flightradar24.com. Mas vou um pouco além do simples acompanhamento do tráfego, ver as rotas de aproximação (as quatro áreas de holding pattern na aproximação de Heathrow são muito interessantes, por exemplo), essas coisas que todo aficionado faz lá. O Flightradar24 também é um termômetro sensível do andamento da política internacional.

Por exemplo, andei observando as consequências da guerra civil na Síria. Ver um avião sobrevoando território sírio virou raridade agora. A maioria das companhias aéreas suspendeu todos os voos para lá e apesar de o espaço aéreo sírio ser conveniente para muitas rotas, está sendo amplamente evitado. Em abril passado, um A320 da empresa russa Nordwind, com 159 pessoas a bordo, voando do balneário egípcio de Sharm el-Sheikh para Kazan, na Rússia, por pouco não foi abatido por dois mísseis terra-ar quando sobrevoava o território sírio. Não se sabe se foram as tropas do governo sírio ou as rebeldes, porque ambas negaram ter disparado os mísseis. Felizmente, o piloto tinha treinamento militar, tomou ação evasiva e conseguiu escapar dos mísseis, mas eles explodiram a pouquíssima distância do avião. Depois disso, a Rússia proibiu todos os aviões de suas empresas aéreas de sobrevoarem a Síria. E olhem que a Rússia é um dos poucos países que apoiam o regime de Bashar al-Assad (e ironicamente, provavelmente foi quem forneceu os mísseis a eles)…

Quase todas as empresas aéreas estão fazendo o mesmo. Só a própria Syrian Arab Airlines – que está com operações muito limitadas e a maioria dos voos cancelados – e a Middle East Airlines (MEA), do vizinho Líbano, ainda usam o espaço aéreo da Síria. A MEA tem o apelido de “Miracle Airlines” porque nunca suspendeu suas operações, nem mesmo no auge da guerra civil libanesa, apesar de ter tido parte de sua frota destruída por bombardeios israelenses ao aeroporto de Beirute. Mas sobrevoar o território sírio nas atuais condições, quando isso pode ser evitado, não é heroísmo – é imprudência, mesmo. É verdade que para evitar isso, em suas rotas para a Jordânia, Arábia Saudita e os países do Golfo, ela teria que contornar Israel pelo sul ou desviar pela Turquia ao norte, e isso seria uma volta imensa. Mas é exatamente o que as companhias do Golfo estão fazendo.

MEA A320 - BEY-AMM

A MEA continua acreditando em milagres, e continua sobrevoando a Síria, como foi o caso deste A320 de Beirute para Amã.

Ou melhor, não exatamente: fiquei surpreso, mas vi voos da Emirates, Etihad, FlyDubai e Qatar Airways para Beirute sobrevoando o território israelense! Eu pensava que isso era totalmente banido – e sei que até pouco tempo atrás, era, mesmo. Não era permitido nem pelos israelenses, nem pelos seus próprios governos. Mas parece que isso foi relaxado, porque foi bem mais de um voo e todos eles fizeram a mesma rota, virando para noroeste num mesmo ponto da Arábia Saudita e cruzando o deserto de Negev, no sul de Israel, sempre pelo mesmo corredor, para depois pegarem um trecho da península do Sinai (Egito) e darem a volta pelo Mediterrâneo antes de pousarem em Beirute. Até onde sei, Israel proibia até mesmo o sobrevoo de empresas europeias e americanas em voos destinados a países árabes (com exceção da Jordânia, que juntamente com o Egito é um dos dois únicos países árabes que têm relações diplomáticas com Israel). Também havia uma razão prática: como os ATC de países árabes não conversavam com o de Israel e vice-versa, não havia como transferir o controle de um para outro.

Já este A340-500 da Emirates, voando de Dubai para Beirute, preferiu evitar a Síria. Para isso, até sobrevoou Israel!

Já este A340-500 da Emirates, voando de Dubai para Beirute, preferiu evitar a Síria.
Para isso, até sobrevoou Israel!

Procurei, mas não encontrei uma explicação. Sei, porém, que as relações de Israel com os emirados do Golfo Pérsico são um pouco menos tensas que com os demais países árabes. Por exemplo, ninguém entra nos Emirados Árabes Unidos com um passaporte israelense, mas ao contrário de muitos outros países da região, não há problemas para entrar no país com um passaporte de outra nacionalidade que tenha um visto ou carimbo de visita a Israel. Também sei que o emir do Catar já visitou Israel algumas vezes para diálogos com o governo israelense, e a Al-Jazeera tem até correspondente em Tel Aviv. Talvez isso explique por que os aviões desses países podem usar esse corredor do Negev – mas nunca vi nenhum deles no corredor mais importante, mais ao norte, passando por Jerusalém e Tel Aviv. Nessa área, de companhias árabes, só mesmo a Air Sinai (subsidiária da Egyptair só para voos para Israel) e a Royal Jordanian.

Mas parece que o corredor do Negev só está mesmo aberto para os EAU e Catar: vi um voo da Saudia de Riad para Beirute cruzando o Golfo de Ácaba e o Sinai, e dando um longo desvio pelo Cairo, sem usar o espaço aéreo israelense (os sauditas, governados por uma dinastia wahabita – os xiitas levam a fama, mas os fundamentalistas mais radicais mesmo são os wahabitas – e com a bola toda porque os lugares santos de Meca e Medina ficam em seu território, são extremamente hostis a Israel e vice-versa). E os israelenses não perdoam: em 1973, derrubaram um Boeing 727 da Libyan Arab Airlines voando de Benghazi para o Cairo quando, por um erro de navegação, o avião entrou no espaço aéreo da península do Sinai, na época ocupada por Israel. Morreram 108 pessoas.

SV A320 RUH-BEY

Este A320 da Saudia, voando de Riad para Beirute, evitou tanto a Síria quanto Israel, chegando a sobrevoar o Cairo (a cor do traço indica que o avião não pousou lá). A rota mais curta teria sido sobrevoando a Síria.

Falando em Israel, hoje é sábado e desde ontem até algumas horas atrás, não era possível ver nenhum avião da El Al voando. A companhia observa o Shabat judaico e não voa do pôr-do-sol de sexta-feira até o de sábado. Há pouco vi um 767-300 da El Al saindo de Mumbai, onde pelo fuso horário já era a noite de sábado, depois do Shabat. O voo logo saiu dos radares, mas estava rumando para sudoeste, como eu previa: ele teria que rumar para noroeste para ir direto, mas a El Al não pode sobrevoar o Paquistão, o Irã, Oman, o Iêmen ou a Arábia Saudita. Nessa rota, tem que passar por um estreito corredor de águas internacionais no estreito de Bab el-Mandeb (que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico) e ir pelo Mar Vermelho até Eilat, no sul de Israel, evitando o espaço aéreo de todos os países vizinhos. Os israelenses que viajam para o Oriente preferem embarcar em Amã na Royal Jordanian, porque o voo demora muito menos sem os desvios que a El Al é obrigada a fazer. Singapura tem ótimas relações com Israel e a El Al adoraria voar para lá, mas não pode, porque é impossível chegar a Singapura sem sobrevoar a Malásia ou a Indonésia, e ambos os países proíbem aviões israelenses em seu espaço aéreo. Foram esses mesmos desvios que inviabilizaram a rota para o Brasil: o gasto de combustível e o tempo de voo eram tamanhos que não dava para competir com as conexões das companhias aéreas europeias na mesma rota.

Também nunca vi um voo sobrevoando a Coreia do Norte, nem mesmo os de companhias chinesas (a Air China é a única empresa aérea do mundo que tem voos para as duas Coreias, servindo tanto Seul quanto Pyongyang). Desconfio que a China deve cobrar taxas de sobrevoo exorbitantes, porque nunca vi um avião de empresa aérea estrangeira sobrevoando a Manchúria, exceto quando o voo se destinava ou tinha origem na China. Essa seria a rota mais curta para muitos voos da Europa para o Japão, mas eles sempre passam por Khabarovsk, cidade russa na fronteira com a China, exatamente onde a fronteira faz uma curva, e depois viram para sudeste para chegar ao Japão, evitando o espaço aéreo chinês. Neste momento, há um voo da Air Canada de Pequim para Vancouver sobrevoando a Manchúria, mas vários voos para o Japão (da Nippon Cargo, Alitalia, Austrian, Swiss, Air France, Lufthansa e KLM) estão fazendo a rota de Khabarovsk.

KZ 74F AMS-NRT

Este 747-400F da Nippon Cargo Airlines, voando de Amsterdam para Tóquio, era apenas um dos aviões na fila da rota de Khabarovsk, evitando o espaço aéreo chinês. Khabarovsk não está marcada no mapa, mas fica logo na curva da fronteira chinesa, perto dos voos da Swiss (LX160) e Air France (AF276) na imagem. O único voo sobrevoando a Manchúria que se vê no mapa é um (sem rótulo) da Air Canada de Pequim para Vancouver.

Em outras partes do mundo, a política não interfere tanto. Por exemplo, aviões americanos sobrevoam Cuba regularmente. Já consegui saber que as taxas de sobrevoo são pagas através de uma empresa-fantasma no México, por causa do embargo; claro que o governo americano sabe disso, mas fecha os olhos, porque custaria uma fortuna em combustível e perda de competitividade por causa do maior tempo de voo se as empresas americanas evitassem o espaço aéreo cubano em suas rotas para a Jamaica, Panamá, Colômbia e Peru, dentre outras. A Cubana de Aviación também sobrevoa normalmente o território americano em suas rotas para o Canadá (acredito que os americanos não cobrem – seria embaraçoso e complicado demais). Apesar de a Turquia não reconhecer o governo da República de Chipre, a Turkish Airlines sobrevoa as duas partes da ilha sem neuras em suas rotas para Israel, Líbano e Egito. Por sua vez, a Cyprus Airways também sobrevoa sem problemas o lado da ilha controlado pela Turquia (a “República Turca do Norte de Chipre”, reconhecida apenas pela Turquia e tida internacionalmente como um regime-fantoche desta).

FL 73G BWI-MBJ

Boeing 737-700 da americana AirTran sobrevoando Cuba no caminho de Baltimore para Montego Bay (Jamaica)

Já flagrei aviões da Air India e Jet Airways sobrevoando o Paquistão, e aviões da PIA sobrevoando a Índia. A Armavia sobrevoa a Turquia e a Turkish sobrevoa a Armênia (mas ainda não vi um avião armênio no Azerbaijão ou vice-versa; os voos de Baku para o exclave de Nakhchivan desviam pelo Irã). Argélia e Marrocos vivem se estranhando e a fronteira entre os dois está fechada há décadas, mas a Air Algérie e a Royal Air Maroc sobrevoam o território dos respectivos inimigos sem problemas. Aviões de Taiwan sobrevoando a China e vice-versa agora são vistos o tempo todo, desde que um acordo estabeleceu o tráfego aéreo regular entre os dois governos inimigos, mas unidos pelo poder do dinheiro e dos negócios (a famigerada Foxconn é o maior exemplo: a empresa é de Taiwan, mas suas fábricas – as maiores do mundo – ficam todas na China). E eu mesmo, corajoso, uma vez viajei de Santiago para Buenos Aires num Boeing 707 da então LAN Chile, justamente na época em que as tensões entre o Chile e a Argentina por causa das ilhas do Canal de Beagle estavam no auge e os dois países estavam muito perto de entrar em guerra, o que felizmente não aconteceu – foi uma viagem muito tranquila.

Boeing 787 da Air India, de Délhi para Frankfurt, depois de ter sobrevoado o território do arqui-inimigo Paquistão.

Boeing 787 Dreamliner da Air India, voando de Délhi para Frankfurt, depois de ter sobrevoado o território do arqui-inimigo Paquistão.

Pois é, gente, com o Flightradar24 a gente não vê só o tráfego aéreo em tempo real: vê também a História acontecendo em tempo real!

Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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