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O problema no motor Rolls Royce da Qantas – Alguém deve estar preocupado.

O motor de um avião da companhia aérea australiana Qantas explodiu quando sobrevoava o Oceano Pacífico e teve que retornar e realizar uma aterrissagem de emergência no aeroporto americano de San Francisco, informaram fontes da companhia aérea em Sidney, nesta quarta-feira.

Bem, acho que todos já devem ter visto as reportagens sobre o problema que o Boeing 747-400 da Qantas sofreu ontem após decolar de San Francisco em direção a Sidney.

O que aconteceu foi que após a decolagem houve uma “uncontained failure” (nome correto do incidente, que em português poderia ser falha não contida ou não controlada).
Os pilotos então desligaram o motor afetado (abaixo eu explico sobre as fagulhas), alijaram o combustível para reduzir o peso de pouso (a maioria das aeronaves de grande porte decolam muito mais pesadas do que podem pousar) e retornaram para San Francisco com os três motores restantes e pousaram sem mais problemas. Esta é a minha versão, agora vamos à versão anunciada pelos meios de comunicação.

Aqui embaixo o vídeo da Globo.com – Os meus comentários sobre as abobrinhas faladas virão logo depois.

O motor explodiu de acordo com todos os orgãos de imprensa, nacionais e internacionais. Eu acho o termo meio fora de propósito (assim como falaram do jato que explodiu após ser atingido por um raio).
Ora, se o motor tivesse explodido, como ele ainda estava lá preso embaixo da asa?

Abaixo colo duas definições de explosão de acordo com dicionários de português:

ex.plo.são
sf (lat explosione) 1 Expansão violenta ou arrebentação, acompanhada de estrondo, causada por repentina libertação de energia por uma reação química muito rápida, por uma reação nuclear ou pelo escape de gases ou vapores sob grande pressão

Explosão

s.f. Ação ou efeito de explodir, estourar violentamente: a explosão de uma bomba.
Física. Fenômeno através do qual se solta um gás sob pressão, ou um corpo sólido ou líquido passa ao estado gasoso.

Eu não encaixaria nenhuma das duas definições acima o que aconteceu com o motor do Qantas, mas isso nem é o pior. O pior são os dois jornalistas da globo (e do UOL que escreveram também) que a explosão abriu um buraco na aeronave (ou na fuselagem).

Vocês viram alguém usando máscaras de oxigênio no vídeo?

Não né?

Nem eu!

Logo, senhores jornalistas, não houve furo na fuselagem! Parem de sensacionalizar os incidentes aéreos, tentando inventar mais do que noticiar, isso deve ser bom para a audiência, mas é tão ruim para a educação.

Observando as fotos postadas no Flight Global, eu percebi que houve falha de um dos discos da turbina e algumas partes foram lançadas para fora do “core” (a carcaça que cobre os discos da turbina) e atravessaram a carenagem do motor na parte traseira.

Vou colocar apenas uma foto aqui, as outras estão no site da Flight Global que descreve corretamente o incidente como Uncontained Failure.

Os motores aeronáuticos são projetados para que, mesmo em caso de falha estrutural de algum disco de compressor ou turbina em potência de decolagem, as partes NÃO atravessem a carenagem do próprio (Contained Failure).
Se você pudessem ver de perto a estrutura que “cobre” um motor a reação, teriam idéia do nível de proteção que é construído.

Vejam neste vídeo o teste de uma falha catastrófica ao soltar uma blade do fan e ainda assim a falha fica contida.

No entanto, falhas “não contidas” já aconteceram antes (uma vez em Guarulhos com um 767 da Varig durante a decolagem – motor GE) e também em outro GE num 767 da American Airlines durante check de manutenção (esse que eu lembro de cabeça).

Só que este da Qantas é um motor Rolls Royce. E pra piorar a situação, o último atraso no Boeing 787 foi atribuído a falta de motores Rolls Royce no mercado, falta esta ocasionada justamente por uma falha “não contida” durante os testes de certificação.

Alguém da Rolls Royce deve estar muito preocupado com essas más notícias.

Só pra deixar claro: Os motores Rolls Royce são excelentes (e caríssimos).

Em relação as faíscas que o passageiro filmou (vídeo abaixo), apesar do motor ter sido cortado (desligado) pela tripulação, o avião ainda estava voando e portanto havia o impacto do vento girando os discos (Fan, compressores e o que sobrou da turbina), e como o motor estava completamente destruído, algumas partes estavam atritando internamente, causando desta maneira as fagulhas. Não poderia haver fogo lá, porque quando um motor é cortado através do sistema de emergência (ou pelos meios normais), todo o combustível é isolado da asa até as mangueiras do motor, e como sabemos, para existir fogo é preciso oxigênio, fonte de calor E um combustível.

Se eu não me engano o Durval já perguntou sobre o alijamento de combustível, e ele é vaporizado ao sair da asa, mas óbvio que esse vapor não sai perto dos motores. Farei um post sobre isso mais pra frente, quando explicar porque não dá pra pousar com o mesmo peso que sai do chão.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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