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O que dizer sobre o acidente com o 747-400 da National Air Cargo?

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Sabe quando você fica com o estômago embrulhado durante o dia inteiro?
Foi assim que me senti desde o início da manhã até esta hora da noite em que escrevo sobre o acidente.
Todos os dias há um 747-400 da British Airways bem atrás do local onde trabalho, pela janela o vejo e admiro. Quem já esteve perto de um Boeing 747 sabe a dimensão exata do monumento que é aquela aeronave, gigante, imponente. E ver em um vídeo toda aquela massa de metal com seres humanos a bordo vindo ao chão não é algo agradável aos olhos e ao espírito.

Pensei muito se deveria escrever algo ou não a respeito, mas depois de ler alguns absurdos por aí, acho que o melhor mesmo é colocar uma opinião sensata.

O que ouvi/li hoje sobre o acidente:
1- Erro de pilotagem.
2- Motores de uma asa falharam
3- Pane hidráulica
4- Mudança de vento
5- Comandos de voo travaram.
6- Carga se soltou e modificou o CG (centro de gravidade) do avião.

Em primeiro lugar, ninguém sabe a causa do acidente ainda, só se saberá a causa quando o relatório final do NTSB for publicado.

Há relatos na imprensa (e até no AVHerald) de que a tripulação emitiu pelo VHF
(rádio de comunicação da aeronave com a torre) que uma parte da carga havia se soltado e que eles estavam “estolando”.

Se a carga se soltou (e eu acho bem provável), o acidente aéreo não está solucionado aí! As pessoas precisam entender que um acidente não acontece por apenas um fator, não dá para simplificar. Se a carga se soltou é preciso saber por que ela se soltou, qual a cadeia de eventos levou a isto, como a carga foi presa, quem a prendeu, com que material, com qual procedimento, os funcionários eram treinados? Enfim, uma torrente de perguntas para chegar à raiz do problema e evitar que jamais ocorra novamente a triste cena do vídeo abaixo.

A imagem mostra claramente um “estol” na decolagem. A atitude do 747 está muito fora do padrão logo nos primeiro momentos em que a aeronave aparece, e o trem de pouso já está recolhido. Aos 10 segundos é possível ver que a asa esquerda inclina, já caracterizando uma perda de sustentação naquele lado. Provavelmente a tripulação tentou corrigir a inclinação, mas logo em seguida a asa direita entra em estol e então o nariz despenca velozmente, o pequeno ganho de velocidade faz a aeronave sair da atitude de faca. Aos 21 segundos é possível ver o trem de pouso sendo estendido e aos 22 o impacto. Estender o trem de pouso naquela situação mostra o quanto a tripulação estava ciente do que ocorria e analisou em frações de segundos as opções que tinham para tentar trazer a aeronave para um pouso forçado. Infelizmente o esforço foi em vão.

Por que não foi erro de pilotagem?
Porque mesmo que um dos tripulantes quisesse se suicidar colocando o manche naquela atitude, o outro tripulante poderia comandar em sentido oposto e teríamos uma reação diferente do avião.

Por que os motores de uma asa não falharam?
Porque é possível ouvir claramente que todos os motores estão “firewalled” (com a potência máxima, acima da potência de decolagem) até o momento do impacto.

Por que não pode ser pane hidráulica?
Porque há redundância tripla de sistemas.

Por que não pode ser uma mudança de vento?
Se tivesse havido algo do gênero, teria havido correção na atitude, e o que se vê no vídeo é que o nariz está o tempo todo apontando em ângulo máximo para cima, até a velocidade cair abaixo da velocidade de estol, quando ocorre a queda do nariz.

Por que não pode ser um travamento dos controles?
Porque há redundância também nos controle, se um lado travar, o outro comanda as superfícies por outro caminho.

Das hipóteses, a única plausível é a mudança do centro de gravidade por movimento de carga a bordo.

Para entender como isso levaria um gigante de 400 toneladas para o chão, é preciso entender um pouco de física e aerodinâmica. A parte da física é que a aeronave em voo é semelhante a uma gangorra. A asa (ou o centro de pressão, que é o local onde todas as forças resultantes possuem momento zero) seria a parte do meio da gangorra. Todos sabemos o que acontece se uma criança de 30kg é colocada numa gangorra com outra de 40kg certo? Para resolver um pouco este problema do equilibrio, as aeronaves possuem aquela asinha na parte de trás, que normalmente “puxa” a cauda para baixo e as vezes alivia o puxão se o nariz estiver mais leve, e assim a gangorra vai se equilibrando. Agora imagine uma criança no meio da gangorra que de repente escorrega para um dos lados. O que acontece? O peso desta segunda criança vai ser somado ao da que já está sentada e aí a gangorra vai descer com tudo pro lado mais pesado. Isto nos leva à parte da aerodinâmica.

Para que as 400 toneladas de um Jumbo se mantenham voando, é necessário que o ar passe por suas asas a uma velocidade mínima. Enquanto esta velocidade não
é atingida, o avião não sai do chão, por isso os aviões correm na pista do aeroporto, para atingir esta velocidade. Além da velocidade, um ângulo de inclinação (chamado de ângulo de ataque na aviação) também é necessário, aumentando incrivelmente a força de sustentação nas asas. Mas este ângulo tem que ser controlado, pois se ele ultrapassar determinado patamar, ocorre um turbilhonamento do ar que passa sobre a asa e esta pára de produzir sustentação imediatamente, o que faz com que ela caia como se fosse uma pedra, exatamente como visto no vídeo do acidente.
Os dois fenômenos agindo juntos, peso deslocado e aerodinâmica, faz com que o acidente fosse inevitável. O peso deslocou, aumentando o ângulo de ataque, que reduziu a velocidade.

É triste de ver que nada poderia ter sido feito para salvar a tripulação.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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