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O que poderia mudar de imediato com as lições aprendidas com o desaparecimento do #MH370 ?

O leitor Evandro fez esta pergunta que também é dúvida para muitos outros leitores:

Pensando pela perspectiva de não encontrar a aeronave, que medidas poderiam vir a ser tomadas para um outro acidente desse tipo não vir a ocorrer, ou se vir a ocorrer qual seria a atitude das autoridades civis e militares para chegar o mais rapido possivel aos destroços ou mesmo a aeronave.
Poderia vir a ser padrão em um primeiro momento aeronaves terem um sistema de GPS informando uma central como as torres de controle em tempo real mesmo que o Transponder seja desligado onde elas estão?.

Vou emitir algumas opiniões pessoais, baseadas na experiência, mas não deixam de ser opiniões – ou seja, podem ser discutidas livremente.

Uma das primeiras questões levantadas por todos após este acidente: por que o Transponder ainda pode ser desligado pelo piloto? Já escrevi o que penso neste link, mas vou acrescentar mais alguns detalhes. Algumas pessoas continuam achando que não deveria ser possível desligar o transponder em voo, que isso deveria ser automatizado pelo avião.
Vou tentar falar isso de uma maneira não agressiva:

  • Os transponders não são desligados em voo pelos pilotos. Se forem desligados, significa que a segurança do cockpit foi comprometida e vários erros anteriores aconteceram. A última vez que transponders foram desligados intencionalmente foi há 13 anos, no ataque terrorista aos Estados Unidos.
  • Se a ocorrência é tão rara, por que a indústria gastaria bilhões de dólares para modificar todos os aviões do mundo que possuem transponder para que ele não pudesse ser desligado em voo?
  • Há também uma impossibilidade técnica: todo equipamento presente no cockpit precisa de um disjuntor de segurança (CB), que desarma em caso de curto-circuito. Se o CB não desarmar automaticamente (raríssimo x 10 elevado a vigésima potência), o piloto pode “puxa-lo” e isolar eletricamente o componente. Isto quer dizer que, mesmo que o transponder fosse automatizado, ainda assim o CB estaria lá, ao alcance do “bad guy” para ser desligado.
  • Os dados transmitidos pelo transponder não garantem que o avião vá ser localizado imediatamente em caso de acidentes, vide Air France Af447
  • Resumindo: Automatizar o transponder não evita seu desligamento. Logo, evitar o acesso ao cockpit é muito mais efetivo e infinitamente mais barato, portanto acredito que não ocorra alterações no funcionamento do transponder por causa deste acidente com o MH370.

Um outro ponto levantado pelas pessoas é que os aviões deveriam possuir um sistema de rastreamento, que indicasse constantemente a posição geográfica do avião. Vamos analisar:

  • A tecnologia ADS-B é uma evolução do transponder e transmite em tempo real a localização dos aviões. Graças a esta tecnologia podemos acompanhar de nossa casa os aviões voando em qualquer parte do mundo em aplicativos como o Flight Radar 24 ou FlightAware (desde que o avião esteja equipado) . Em alguns lugares sensíveis do mundo, os aviões são rastreados com 5 minutos de delay, adivinhem o motivo?
  • Se o ADS-B já sofre críticas dos setores de segurança por indicarem a localização do avião no espaço, imaginem um rastreador emitindo posição por GPS!
  • Você poderia pensar: mas a posição só seria rastreada em caso de acidente, assim como os ELTs. Precisamos pensar que infelizmente o mundo não é tão “belo” quanto pensamos. É chocante o que vou falar agora, mas já aconteceu (inclusive aqui no Brasil) de pessoas saquearem um avião e seus ocupantes após um acidente antes mesmo de pensar em salvar vidas. Este tipo de gente teria interesse em monitorar rastreadores.
  • Para que um rastreador por GPS funcione, é preciso que pelo menos 3 satélites estejam “visíveis” ao mesmo tempo para o equipamento, o que eliminaria a capacidade de rastreio em caso de queda no oceano.

Estas são algumas das minhas considerações para as muitas sugestões de leitores para que um avião não fique sumido por tanto tempo como este da Malaysia. Como podem ver,  cada sugestão possui uma gama de considerações sobre segurança, dinheiro e tecnologia envolvida. A aviação não é video-game em que soluções para o jogo são facilmente encontradas.

Os próprios ELTs, que são projetados para emitirem pulsos sônicos em frequências específicas em casos de acidentes, gastaram anos de pesquisa e desenvolvimento, e ainda assim não são eficientes em águas profundas, e tem gente pesquisando coisa melhor (com a mesma tecnologia).

Se algo poderia mudar em médio prazo, seria a obrigatoriedade do envio de informação de posição por satélite para aeronaves acima de determinado número de passageiros em situações específicas. Este tipo de alteração seria viável e toda a infraestrutura já está disponível, tanto nos aviões quanto nas empresas de comunicação.  De resto, no lado técnico, acho que nada vai mudar. No lado da segurança e de regras ainda mais rígidas para embarque, acredito em mudanças.

 

 

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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