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O segredo do centro eletrônico do 777

A rede de relacionamento pessoal azul e branca e o microblog que não é a rede de fotos (a Globo é criativa para não dar nome ao Facebook e ao Twitter não é mesmo?) está em polvorosa após a descoberta de uma “incrível falha de segurança” nos Boeing 777, demonstrada neste vídeo “super novo” da época em que a VARIG ainda voava internacionalmente.

Um dos pilotos mostra como é fácil abrir uma escotilha no piso e acessar o compartimento eletrônico (E&E) da aeronave, onde ficam instalados a grande maioria dos computadores e o cérebro eletrônico do avião, que se chama AIMS (Airplane Information and Management System).

Abstraindo um pouco a inocência da época do vídeo, acredito que faltou ética da parte dos envolvidos na filmagem, há certas coisas que não precisam ser mostradas, pois como são específicas a quem trabalha na área, gera dúvidas nos leigos e o compartilhamento de opiniões e chutes sem fundamento que infestam o Facebook, Twitter e até sites especializados.

Após este vídeo, ressurgiu com força a hipótese de que alguém poderia ter tido acesso ao centro eletrônico do 777 da Malaysia e desligado o transponder e toda a comunicação dos pilotos, poderia até ter invadido o sistema e controlado a aeronave. Seria possível?

NÃO!

Vamos por partes.

P: É possível acessar o E&E em voo como o filme mostra?

Sim e não. Depende de qual empresa aérea você esteja voando. Algumas empresas fecharam o acesso completamente após os ataques terroristas de 11 de Setembro. Outras instalaram um parafuso especial que trava a alavanca de abertura. Outras ainda removeram a abertura no carpete.

P: Por que existe o acesso então?

Não vou falar.

P: Certo, mas e se não tiver nenhuma proteção eu consigo acessar?

Se não tiver proteção você terá que dominar alguns comissários para ter acesso a escotilha, ou você acha que é só pedir licença e ir entrando que ninguém vai se incomodar? Uma vez dominados os tripulantes, você finalmente poderia descer ao E&E.

P: Agora sim, já estou aqui dentro, como desligo tudo e derrubo esse avião?

Então né? Vamos seguir o raciocínio de que alguém, com muito conhecimento técnico (muito mesmo ok, estou falando de anos) e maldade na cabeça quisesse fazer o que estão supondo em relação ao Malaysia MH370. Uma vez lá dentro você teria que localizar rapidamente e puxar os Circuit Breakers (CB) que desligassem o Transponder / ATC e todos os rádios de comunicação (os 3 VHF, os 2 HF e o SATCOM). Mas filho, você tem apenas duas mãos e 6 painéis diferentes forrados de CBs, do lado esquerdo, do lado direito e a frente. Qualquer um que você “puxasse”, haveria uma indicação no cockpit e advinha? O piloto teria todo o tempo do mundo para informar via qualquer um dos rádios restantes que alguma coisa séria estava ocorrendo até que ele perdesse toda a comunicação.

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P: Mas eu só quero derrubar o avião, aqui e agora! Consiguirei isso?

Pelo jeito não conseguiu não é? Afinal o MH370 voou por pelo menos mais 5 horas após a misteriosa curva a esquerda depois de encerrar as comunicações e desligar o transponder. O fato amigo, é que mesmo que você começasse a arrancar todos os computadores que aparecem na foto acima, você criaria um CAOS inimaginável de problemas no cockpit, mas ainda assim não derrubaria o 777. Lembra quando eu falei que os engenheiros não colocam todos os ovos em uma cesta só? A destruição de todos os equipamentos aí dentro não eliminaria por exemplo o sistema FBW (Flight By Wire) em Direct Law (a aeronave perderia apenas as proteções de envelope de voo) e também não eliminaria um dos rádios de comunicação navegação.
Devo mencionar também que há várias maneiras diferentes de prender os computadores no “rack”, dependendo do sistema a que o componente pertence. Novamente você teria que ter algum conhecimento para saber como é que destrava cada uma delas. E por último, o AIMS é composto por dois “gabinetes” quase idênticos e separados (redundância filho, redundância), um fica acessível e o outro nem tanto, precisaria de uma ferramentinha.

P: Posso conectar meu Android Cyanogen “rooteado” com um cabo USB no Flight Control Computer e fazer o avião seguir meus comandos via api do Google Earth?

Só na cabeça de algumas pessoas. Definitivamente não.

P: Como eu faço então pra derrubar?

Senta e chora nenê. É preciso entender que não é por sorte ou acaso que a aviação é o meio de transporte mais seguro depois do elevador. Poucas pessoas no mundo conseguiriam, em voo, derrubar um 777 intencionalmente com interferência ilícita a bordo ao mesmo tempo em que cortasse a comunicação. Esses aviões que atravessam oceanos dia e noite sem parar foram projetadas para voar e não para cair, pense nisso antes de ir atrás de teorias mirabolantes de sites “especializados”.

Continuam falando em incêndio a bordo do Malaysia desaparecido, que deixou a comunicação inoperante e pessoas inconscientes. Se assim fosse, pergunto-vos:

Como poderia então o sistema de satélite receber pings durante tanto tempo se é necessário o barramento de força elétrica AC para que isto aconteça? Se o SAT funcionava amigos, muitos outros sistemas pendurados no mesmo barramento também, o que descarta o fogo (ou pelo menos o fogo no sistema elétrico). A lógica é a mesma que utilizei quando começaram a falar de perda elétrica total no Air France 447 logo após o acidente.

Eu não tenho a resposta para o que causou o desaparecimento do MH370, ninguém tem até que se encontre o avião e o segredo escondido em seus destroços. Mas eu tenho como argumentar as teorias usando apenas o conhecimento técnico e a lógica, esta desconhecida do jornalismo de clicks.

Para encerrar: O B767 voa a pelo menos 32 anos com a mesma escotilha. O Electra, vejam só, possuía escotilha de acesso ao centro elétrico. A diferença deles para o 777 é que não tinha rede social cheia de experts compartilhando tantos “fatos” :)

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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