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Piloto desvia a rota para evitar acidente e vira herói

Ontem lemos diversas notícias sobre o desvio salvador, miraculoso, de cinema, do comandante da Air Seychelles, que evitou “o maior desastre da história”(de novo), e cuja fonte principal de informação foi o Daily Mail, aquele jornal tipo tabloide londrino, que tem paparazzi e faz fofocas, manja?
Daí eu fiquei pensando: Se um motorista de ônibus desvia de outro que invadiu sua faixa, vai ser tratado como herói? Ou de outra maneira: Será que um motorista de ônibus vê outro vindo em sentido contrário e NÃO faz o óbvio que é DESVIAR e acaba virando notícia?

Vamos entender isto.

Um Airbus A380-800 da Emirates que fazia o voo EK-703 de Dubai para ilhas Maurício estava a 40 mil pés (FL400) e quando estavam próximos do ponto de descida para o aeroporto, foram informados pelo ATC (Controle de Tráfego Aéreo) que havia um tráfego em sentido contrário subindo para 37.000 pés. Este tráfego contrário era um A330-200 da Air Seychelles. Logo em seguida, o ATC pediu para o A380 descer para 38.000 pés (FL380). O protocolo de comunicação efetiva na aviação requer que o avião que recebeu a instrução repita para o controlador essas mesmas instruções. Isto possuiu duas finalidades básicas: O ATC ouve novamente o que disse (pra saber se a informação passada foi certa) e ao mesmo tempo captura o erro caso a mensagem original não tenha sido entendida. Neste evento, os pilotos do A380 repetiram que estavam liberados para o FL360 (e não FL380 como haviam sido instruídos) e o ATC não corrigiu a informação.

Quando isto acontece, dizemos que uma das camadas de segurança foi quebrada (a primeira, de comunicação efetiva).

O Airbus A330-200 da Air Seycheles que vinha em sentido oposto fazendo o voo HM-54 de Maurício para Mahe Island havia sido liberado para subir para o FL 370 (300 metros abaixo da altitude que o Emirates deveria ter parado de descer). Ambos pilotos estavam “no visual” um do outro quando receberam um aviso de TCAS (Traffic Collision Avoidance System – Sistema de Anticolisão de Tráfego). O TCAS é a segunda (e mais parruda) camada de segurança, pois uma aeronave conversa com a outra e ambas recebem avisos sonoros do que o piloto deve fazer para resolver o conflito: um exemplo apenas para ilustrar: o Emirates poderia ter recebido um aviso de REDUCE DESCENT (diminua a descida) enquanto o Air Seychelles poderia ter recebido um REDUCE CLIMB (diminua a razão de subida). Somente estes avisos e a tomada de ação dos pilotos já teria evitado a colisão, mas o piloto da Air Seychelles, além de ter efetuado a ação que o TCAS pediu, também resolveu fazer um desvio lateral (curva para a direita). Quando os aviões se cruzaram, estavam a quase 14 km de distância horizontal um do outro.

Quase 14 km de distância horizontal não parece uma quase colisão, mas lembrem-se: quem noticiou primeiro foi o Daily Mail! Aí o resto foi atrás noticiando a mesma coisa, com o mesmo tom catastrófico e claro, tem que ter um herói senão a história não atrai cliques – e se puder dizer que foi uma forte guinada para evitar a “fina”, melhor ainda!

Manchete do Daily Mail: Piloto homenageado por ter evitado POR POUCO uma colisão no ar.

Sim, temos um herói.

Muito bem, o AvHerald plotou as posições de radar com carimbo de tempo, então vejamos abaixo:

Mapa mostra a posição dos aviões

Percebam que aos 13:05:49Z, o ponto onde eles se cruzariam MESMO SE NENHUMA AÇÃO tivesse sido tomada seria de pelo menos 100 metros de diferença vertical (isso é um estimado, provavelmente seria mais já que no tempo marcado acima a diferença de altitude já é de 300 metros (1000 pés) 30 metros (100 pés) entre os dois.

Aviso do TCAS

O que o TCAS faz é criar uma bolha de segurança em volta das aeronaves, e se um intruso invadir a bolha, ele emite um aviso de tráfego (TA) com uma boa margem de tempo de manobra. Se o intruso continuar invadindo, então é emitido o aviso de RA.

Bolhas de segurança do TCAS

_E se o TCAS de um dos aviões estivesse com problema?

Ainda assim o avião com o TCAS operando seria informado do intruso e um aviso sonoro e visual indicaria o que o avião teria que fazer.

Uma faixa vermelha no centro do Instrumento Primário de Voo indica que o piloto não pode subir.

_ Mas no caso do acidente da GOL com o Legacy, por que o avião da GOL não recebeu a informação de colisão já que o Legacy estava com o TCAS desligado?

No caso do acidente da GOL não foi somente o TCAS que estava desligado e sim o Transponder, que é o equipamento essencial para o TCAS funcionar.

Enfim, é óbvio que o evento entre o Emirates e o Air Seychelles foi grave do ponto de vista operacional, houve uma falha de comunicação que não poderia ter acontecido, e que levou a um Resolution Advisory (Aviso de Resolução) do TCAS, mas vocês sabem que na aviação comercial este tipo de incidente é investigado a fundo até se descobrir porque a primeira camada de segurança falhou (assim como estão investigando a fundo o caso do avião da Air Canadá que alinhou com a pista de táxi para pousar).

Quem tiver interesse em saber como funciona o TCAS, segue o link (em inglês, língua universal da aviação).

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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