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Piloto puxou manete errada. Gol raspa no ATR. Acidente na Indonésia

Semana agitada na aviação não? Para quem tem medo de voar então, é como se o mundo tivesse acabando. Será que está?

Vamos por partes então, e por cronologia.

Na quarta feira, dia primeiro, recebi vários links e emails com o acidente de um C-130 na Indonésia. Todo acidente aéreo me deixa consternado, mas por mais que eu sinta pelas vítimas, o lado lógico prevalece. Se aviões são seguros como eu prego, então como acontecem acidentes?

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É preciso por as coisas em perspectiva. Primeiro vamos falar da imprensa: ela possui um balde para cada notícia, e no balde com rótulo “acidente de avião” ela coloca todos os acontecimentos que chegam, desde o avião particular abusando da decolagem americana em Pampulha até o Boeing 777 derrubado por míssil na Rússia. Para a mídia em geral, o que importa é o número de vítimas, e para quem lê vira um caldo de informações desencontradas. Enquanto toda perda de vida humana é lamentável, um acidente com um avião militar na Indonésia não tem absolutamente nada a ver com um acidente com um Carajá que viaja o Luciano Huck, mas em uma página de portal tudo estará relacionado naquele quadrado “veja os 10 maiores acidentes de todos os tempos”.

Estou iniciando um negócio de coaching, e em minhas sessões explico detalhadamente as diferenças entre cada setor homologado da aviação, e para o passageiro que tem medo de voar, ele precisa ser informado que vai usar em toda a sua vida apenas uma fatia do grande bolo – a aviação comercial. Ele não vai embarcar em um avião militar ou em um particular, e as coisas são diferentes, não em relação à segurança do projeto em si, mas em relação aos procedimentos e controle regulador que fiscalizam essa segurança.

Em segundo lugar, a segurança engloba vários fatores. Um avião nasce seguro, mas ele precisa ser operado e mantido com os mesmos padrões. Infelizmente a Indonésia possui problemas estruturais graves em relação à gestão de sua aviação e para ser sincero, é tão mal gerida que só atesta o quanto a margem de segurança é boa em um avião, pois do jeito que as coisas são lá, deveria acontecer um acidente todo dia. Aconselho assistirem a série “Worst Place To Be A Pilot” para entenderem os desafios daquele país.

E se a aviação civil lá é assim, conseguem imaginar como é a militar? Por esse motivo, quando ocorreu o acidente, não me motivei a fazer um post dedicado, porque a notícia importante seria na verdade não ter acontecido acidente na Indonésia durante um ano.

Lito, você não vai falar nada sobre o GOL que passou raspando no ATR da Azul?

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Não deveria, mas para pararem de me encher o saco, vão minhas palavras: Não se sabe o que aconteceu pessoal. Esta notícia surgiu através de um fórum em que apareceu uma gravação do ATC com o Gol. A única informação oficial é da GOL, afirmando que não houve conflito nem alarme no cockpit. Se não houve alarme de TCAS (sistema que protege os aviões contra colisões), não houve intrusão, MUITO MENOS ROTA DE COLISÃO!

_Ah, mas o controlador foi afastado!

Claro que sim, esse é o procedimento quando se inicia uma investigação, até desvendar tudo que ocorreu. Ao contrário dos políticos sob suspeita que continuam em seus cargos, na aviação a coisa é muito mais regrada e profissional. Afastar do cargo não é atestar culpa, é proteger tanto o profissional quanto o sistema até que tudo seja esclarecido.

Eu vou escrever sobre o quê se o que temos é apenas uma gravação de ATC e muitos comentários em fóruns e notícias de portais que não acredito?

E como o piloto puxou a manete pro lado errado?

A última que saiu ontem é sobre o piloto do acidente com o TransAsia ter puxado o acelerador para o lado errado.

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Bem, você deve estar imaginando como isso seria possível não é? Na verdade há um desentendimento na notícia (ô novidade…), não houve uma puxada pro lado errado, houve um comando no motor errado.

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A foto do cockpit do ATR mostra bem que há duas manetes de aceleração, uma para cada motor, claramente marcadas 1 e 2 aí no centro da imagem abaixo dos indicadores. Na decolagem, o motor direito (2) falhou e inadvertidamente o piloto desligou (ou reduziu) a manete do motor esquerdo (1).

Lembra que eu escrevi ali em cima que um avião nasce seguro, mas ele precisa ser operado e mantido com os mesmos padrões?

O treinamento é fator essencial para a segurança de voo. Quando eu fui doutrinado em simulador do Boeing 777 para testes em alta potência, o meu instrutor martelou minha cabeça com um mantra quando algo dá errado:

1- Cancel the alarm. [cancele o alarme] 2- Confirm the fault. [confirme a falha – duas pessoas]

Sempre vai ter um alarme soando quando algo dá errado, e por que cancelar o alarme antes de tomar uma atitude? Porque o alarme sonoro desvia sua atenção, ao ser cancelado apenas o alarme visível fica piscando no painel. Em seguida você confirma o que falhou com a pessoa ao seu lado direito, para não tomar ação corretiva em algo que está bom, que foi o que ocorreu neste voo. Infelizmente vidas foram perdidas neste lamentável acidente, mas o resultado disto será a reformulação de vários processos em empresas aéreas de Taiwan, pois ao que consta este piloto já havia falhado em seção de simulador e mesmo assim permaneceu operando. A falha humana é só a ponta do iceberg do processo inteiro, e no fim, as vidas perdidas não foram em vão, elas ajudarão a eliminar os erros encontrados para que não mais ocorram.

O relatório final do acidente da TransAsia deve sair até o final deste ano.

Fontes citadas: G1, Terra, R7

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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