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Por quê eu acho mais importante a descoberta do CVR (gravador de voz) do Air France do que o FDR (gravador de dados)

No dia primeiro de Maio, quando encontraram o FDR do AF447, eu “tuitei” que seria muito importante achar o CVR (gravador de vozes da cabine), pois na minha modesta opinião, ele é mais importante para investigar este acidente.

Tentarei explicar por que eu acho isso.

Geralmente, o FDR é de crucial importância para investigar acidentes, ele guarda inúmeros parâmetros de inúmeros sistemas e qualquer falha mecânica ficará armazenada, bem como ângulos, acelerações, etc. Ele é crucial para se desenhar uma linha do tempo dos momentos que antecederam o acidente.

Porém, no caso deste acidente com o AF447, as mensagens enviadas pelo ACARS e a análise dos destroços localizados pelo BEA traçam uma imagem bem nítida da mecânica do acidente. Sabe-se por exemplo que a aeronave estava com pouca inclinação de asa no momento do choque com o oceano, sabe-se que nao houve descompressão explosiva, sabe-se que o leme de direção sofreu forças de até 36 Gs em relação ao estabilizador vertical e sabe-se muitas outras coisas, então, a imagem do acidente não é tão turva para a importância do FDR.

O que é turvo é: Por que este acidente ocorreu quando outros voos passaram pelo mesmo local antes e depois do AF447, desviando suas rotas?

E isto só Voice Recorder pode esclarecer.

Há um ponto na investigação que me chama a atenção desde 2009 e está nesta frase do segundo relatório preliminar do BEA:

Parágrafo 1.12.4

Summary
The cabin crew’s seatbelts that were found (three out of eleven) were not in
use at the moment of impact.

Este parágrafo informa que os 3 cintos de segurança dos comissários encontrados (de um total de 11) não estavam em uso no momento do impacto.

Hummmm… Se a tripulação estava completa E o piloto em comando tivesse uma imagem de uma turbulência tão forte à frente, com certeza teria emitido o aviso para que os comissários tomassem seus assentos, e os comissários quando são informados para voltar aos assentos, com certeza afivelam os cintos.

Se esta ordem nunca veio (baseando-se no fato de que todos os cintos encontrados não estavam em uso), isto explica o porquê do AF447 não ter desviado sua rota como outras aeronaves fizeram.

Mas não explica por que os pilotos não viram a tempestade à frente. E este mistério, somente o Voice Recorder pode desvendar.

O voice pode até desvendar se os 2 pilotos cochilaram ou não no cockpit (e isto é plausível). O último contato por voz do AF447 aconteceu as 01:33 GMT com o Brasil. A última mensagem de ACARS foi enviada as 02:14 GMT, temos um período de mais de 40 minutos entre os eventos, tempo suficiente para que tenha ocorrido um cochilo.

Por outro lado, também pode ter havido conversas na cabine entre os pilotos sobre duvidas em relação ao que o radar mostrava.

Com certeza vai estar gravado no Voice as reações ao primeiro impacto com a turbulência e avisos de stall ou overspeed (que também estarão gravados no FDR).

Somente o Voice Recorder responderá estas questões da falta de aviso (ou consciência) de turbulência ou tempestade à frente.

E eu espero de coração que ele esteja em condições de ser lido e que a BEA libere informações preliminares tão logo as tenha.

#oremos

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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