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Por que o senhor não desceu o trem de pouso?

Um breve comentário sobre o acidente com a família Huck em um bimotor Embraer 821 Carajá (*ver nota) (incorretamente apresentado no programa de revista dominical da RGTV como um Embraer 820C Navajo), citando a aeronáutica como fonte.

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A aeronave acidentada foi um Carajá. A diferença é grande entre eles, mesmo para quem é leigo (um usa motor convencional e o outro é turboélice), e em caso de dúvida, bastaria ter lido o nome na lateral do motor, com imagens da própria RGTV.

Vejam:

PT-ENM, o Carajá acidentado

PT-ENM, EMB 821 acidentado, Carajá pintado na lateral do turboélice – foto AIRFLN

E filmagem no local:

Imagens RGTV

Imagens RGTV

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Imagem da RGTV usando foto so site da Embraer

Imagem da RGTV usando foto so site da Embraer – Olhem o spinner do motor e a falta de escapamento de um turboélice

 

Só um detalhe, eu sei, coisa mínima ;)

Não posso deixar de comentar também a pergunta da repórter:

Por que o senhor não baixou o trem de pouso?”… ora ora ora… eu sei que algumas coisas em aviação são complexas de entender, mas outras coisas dependem apenas de lógica, e essa é uma dessas coisas. Para você perguntar por que um trem não foi baixado, primeiro precisa perguntar a si mesmo por que ele é recolhido. Se encontrar uma resposta boa, não precisa perguntar a um piloto em emergência por que ele não baixou o trem.

Aliás, se você está com problemas nos motores a ponto de ter que fazer um pouso de emergência, a última coisa que você vai querer é adicionar coisas que vão atrapalhar a sua sustentação. Além do mais, o pouso não ia ser em uma pista, pra que trem? Pra deixar o acidente muito mais grave com uma pilonagem? E não sei vocês, mas achei a pergunta quase como uma inquisição.

No Twitter, muitas pessoas falando do excesso de cobertura. Claro que havia pessoas famosas a bordo, na verdade funcionários da própria RGTV, então senhores, nada mais natural do que uma cobertura muito maior do que se fosse algum fazendeiro desconhecido. A vida é assim, deal with it, mas não faça como alguns “haters” que falam besteira no twitter desejando que seres humanos tivessem morrido. Isso nem de brincadeira se fala ok?

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E aproveitando, vamos já dirimir umas dúvidas entre CENIPA e SERIPA (SEPIPA não existe tá?). Acidentes de grande proporção, ou de operadores comerciais sob as normas de transporte aéreo comercial sempre são investigados pelo CENIPA, que é o órgão NACIONAL de investigação. Acidentes de aeronaves particulares e taxis aéreos são investigados pelo SERIPA, que é o órgão regional.

O CENIPA pode delegar o início das investigações para o SERIPA até que a equipe nacional possa logisticamente chegar ao local do acidente, assim como pode também assumir uma investigação originalmente de responsabilidade do SERIPA em casos especiais, cito o exemplo do acidente com o candidato à presidência da república Eduardo Campos, que foi assumido pelo CENIPA.

Causa do acidente de hoje

Rá, não me conhece né?

Jamais vão saber a causa de um acidente aqui até que ocorram as investigações. Aliás, nem se preocupem com isso, o SERIPA vai analisar tudo – se as bombas realmente falharam, se os filtros entupiram, se havia água no combustível, se o armazenamento de QAV lá da fazenda de onde saiu o avião estava bem acondicionado, enfim, eles chegarão à raiz do problema que ocasionou o pouso forçado, e são bons nisso.

Todo o resto que se falar até lá será pura especulação, e se é para especular faça em grande estilo, dizendo que viu o raio alienígena atingindo em cheio o avião.

Felizmente ninguém se machucou gravemente, o que significa que as contingências funcionaram e a família pôde embarcar em outro avião para São Paulo.

*Nota: Alguns leitores nos comentários têm enfatizado que este é um modelo 820C Navajo com motores Turboélice. O site da ANAC (link) informa que a designação comercial para o 820C Navajo com turboélice é NE-821 Carajá. A RGTV está “desculpada” neste “descuido” de nomenclatura já que parece haver uma discrepância, embora eu não tenha recebido ainda um link confirmando as afirmações dos comentários. A se confirmar, atualizo o post sem problema algum. Mas as fotos mostradas em todas as reportagens não têm nada a ver com o Carajá acidentado.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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