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PP-VJN – O Electra mal assombrado e a história de um sequestro – Parte 1

O ano era 1987, e eu, “novinho” na Varig e sem poder escolher muita coisa ainda em relação a horários, trabalhava de madrugada na manutenção dos Electras da ponte aérea.

O horário da madrugada era chamado de “Corujão”, apelido perfeito para o horário, já que entrávamos à meia noite e saíamos as 6 da manhã (se não rolasse hora extra).

Todos os funcionários da manutenção se apresentavam no Hangar 2 (ver figura), onde eram feitos os checks B e C dos Electras. O Hangar 2 era o local em que ficavam a “moita“, o cartão de ponto, a sala da chefia e a sala da inspeção (que eu viria a ocupar após 2 anos como técnico).

As manutenções de linha eram feitas no lado de fora e raras vezes no Hangar 3, a menos que houvesse uma troca de motor ou hélice. Esta foto abaixo foi tirada no Hangar 3 durante uma troca de hélice na madrugada. Eu adorava trocar hélice do Electra.

Electra da Varig Trocando Hélice

Em noites de Sexta-feira, os aviões ficavam espalhados por todos os lugares, já que apenas uns 4 Electras pernoitavam em Santos Dumont e os outros 9 ou 10 ficavam em Congonhas (a base principal). Com tanto avião assim no chão, era comum que um deles ficasse lá perto da rosa dos ventos em frente ao Hangar 4, que na época era usado como armazém de cargas e obviamente ficava fechado e abandonado a noite. Na figura 1 acima, eu tentei desenhar mais ou menos os locais em que os Electras ficavam. Dentro do Hangar 2 dava para colocar dois aviões, ficando a cauda de um deles para fora, procedimento comum no hangar 3 também.

Trabalhar DENTRO do Hangar 2 era um privilégio para os mecânicos de linha, pois além de estar protegido das intempéries (frio, calor, chuva) era um lugar silencioso, pois as usinas elétricas que eram necessárias para alimentar as aeronaves vinham de um gerador localizado na parte de trás do hangar.

Já do lado de fora, cada aeronave possuia sua própria usina (GPU), que era um veículo com motor a diesel que fazia um barulho dos infernos, sempre em velocidade acelerada para que seu gerador fornecesse energia elétrica para o Electra. Repetindo, as GPUs antigas faziam um barulho INFERNAL.

Olhem a Usina (GPU) ao lado do Electra. Há uma grande chance de ser eu dentro do cockpit nesta foto de Riosnervoso

E aí começavam as histórias….se você fosse “peixe” do chefe ou “antigão”, era escalado para trabalhar nos Electras que ficavam mais próximo do Hangar 2. Se você fosse novinho, ia pegar o avião que estivesse mais longe, principalmente em noites de chuva. Deu para ter uma idéia do clima nas madrugadas de Congonhas né?

Mas além disso tudo, haviam também “estórias de terror” *sons de cripta se abrindo*

O “Vê Jota Nair” era mal assombrado, diziam. Dava para ouvir barulhos estranhos dentro daquele avião, diziam. As vezes, se ouvia a voz de uma pessoa gemendo, diziam. Uma vez um mecânico saiu correndo depois de ouvir vozes e nunca mais entrou naquele avião, diziam. *sons de cemitério com névoa gelada*

Agora vou contar uma coisa pra vocês… quando era o VJN que ficava parado lá em frente ao hangar 4 e depois de ouvir todas as estórias, duvido que alguém não tivesse medo de ir até lá. Todo o movimento da noite (mecânicos, inspetores, chefes) ficava nas imediações do Hangar 2 e um pouco no 3. Se você fosse andando até o Hangar 4, o barulho dos aviões, usinas e outros mecânicos ia ficando para trás, a iluminação também ia diminuindo até que só ficava você, o Vê Jota Nair te olhando e a usina solitária e barulhenta o suficiente para encobrir qualquer grito de socorro.

Juntem ao barulho o fato das velhas usinas da Varig não serem confiáveis, era comum elas desligarem sozinhas por vários motivos como aquecimento, alta/baixa voltagem, etc. O termo que usávamos (e usamos até hoje) é: “a usina caiu”.

E sabe qual era o maior dos medos? Você estar dentro do VJN, sozinho, fazendo um check na galley lá na traseira do avião e a usina cair e o avião virar um breu……rapaz, garanto que quem quer que seja que estivesse lá dentro faria 0 a 100 km/h em 2 segundos para sair pela porta dianteira descendo a escada como um foguete! E nessa corrida alucinada ainda ia ouvir vozes e barulhos estranhos dentro do avião..rs

É difícil explicar, mas não dava pra ficar dentro daquele avião sozinho sem ficar toda hora olhando pra trás, como se “alguém” estivesse o tempo todo te observando… seria isso só invenção mental?…rs

Vamos a alguns fatos:

O PP-VJN, incorretamente chamado de Nair (o correto seria Victor Juliet November) tinha sua própria história, de onde surgiram as “estórias” que nos amedrontavam.

Um sequestrador havia sido morto em seu interior, diziam os mais velhos, e por isso se ouviam vozes e gemidos em seu interior. Mas qual seria a verdade sobre esta história de sequestro? Seria verdade que um Electra havia sido sequestrado e o autor do sequestro teria sido morto em seu interior?

Continua na parte 2. mas só amanhã… ou quando der tempo!!

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
  • Rui

    Olha a PTN usava o hangar 4 da Varig quando trabalhei la’ de 2000 ate’ 2001, realmente o patio em frente e’ escuro e o proprio lugar que era usado pra guardar um monte de coisas alem de avioes tb fazia uns barulhos nas madrugas rs. Nos chamavamos essas usinas da RG de “carro de palhaco” pelo formato rs. E ate’ eu sair de CGH em 2004 estava abandonado  perto da via de servico entre o hangar 3 e o patio um equipamento que levantava o trem de nariz do Electra pra ele entrar naquele hangar, tinha um apelido lembra?

  • Márcio

    Boa história Lito!

    Já no aguardo da 2ª parte!

  • Não tinha nenhum novinho com problemas cardíacos por lá né? Senão já tinha virado notícia. 
    Agora umas dúvidas: 
    A troca de hélice era muito comum nos electras?
    A hélice era substituída mesmo ou apenas removida para fazer algum reparo?
    Quais as causas que levam a fazer a troca da hélice?

    • Goytá

       E era a hélice toda ou só uma ou mais pás?

      • Trocava-se a hélice inteira colocava-se uma revisada. Entre os motivos da troca: vazamentos pela reguladora, aquecimento inoperante, delaminação do scuff, tempo limite, etc.

        Enviado pelo meu Android Gnex
        Em 15/02/2012 12:19, “Disqus”
        escreveu:

  • Rodrigo Portam

    Lito, porquê ele é chamado de “Nair” ?

    • VJN, N de Nair….era mais fácil de falar do que Juliet November.

      Enviado pelo meu Android Gnex
      Em 15/02/2012 11:15, “Disqus”
      escreveu:

      • Rodrigo Portam

        Valeu….

      • Luiz

        Esse Nair aí tá com cara de ter sido inspirado no antigo programa Roletrando do Silvio Santos. “Temos letra N de Nair?”

  • Goytá

    Aguardo para saber se o PP-VJN também tinha casos de “assombramento” em voo… Foi um dos que foram para o então Zaire com você ou teve outro fim?

    Houve aquele caso do TriStar da Eastern Airlines que caiu na Flórida matando todo mundo e depois houve vários relatos de aparições da tripulação em outros voos da empresa. Fizeram até filme disso. Mas depois que a Eastern faliu e fechou, parece que eles finalmente “seguiram a luz”, pois nunca mais foram vistos.

    Em 2008 vim de Brasília para Congonhas num Fokker 100 da então OceanAir (ainda não era Avianca) e o avião estacionou bem em frente desses hangares onde você trabalhava. Era um lugar bem lúgubre, mesmo… Fiquei aliviado quando o ônibus me levou embora dali para o terminal.

    E uma pergunta: no canto inferior esquerdo da foto do Google, são os 737 da VASP? Parecem estar sem motores e a foto pode ser anterior à demolição (o Google não costuma renovar as fotos com muita frequência).

    • Márcio

      Só pra complementar, se alguém quiser ler o relato das “aparições” de tripulantes mortos no acidente com o Tristar da Eastern citado pelo Goytá, é só acessar o link:

      http://www.jetsite.com.br/2008_v35/AcidenteBlackbox.aspx

      Procure no menu do lado direito pelo item “Fantasmas do pântano – a impressionante saga do Eastern 401”.

    • Foi comigo para o Zaire e caiu alguns anos depois em 1999.

      Enviado pelo meu Android Gnex
      Em 15/02/2012 12:29, “Disqus”
      escreveu:

    • Eduardo Pinheiro85

       Esse acidente com o TriStar da Eastern Airlines (N310EA), apesar de ter morrido todos, muitas peças foram aproveitadas em uma outra aeronave, e essa dita cuja ficou mal assombrada com dezenas de relatos de passageiros e principalmente da tripulação. A diretoria da empresa ordenou que todos os equipamentos fossem retirados dessa aeronave que pertenceram ao N310EA. E os causos sumiram.

      • Rodrigo Portam

        Já assistir um documentário na Discovery sobre esse caso.

    • Rui

      Oi Goyta’, os 2 primeiros sao os A300, um esta’ totalmente em cavaletes e sem pintura e o outro esta mais completo, logo apos comeca (comecava pois comecou a chacina) a fila dos 737 e um 727. 

      • Goytá

        Obrigado, Rui! Agora que você falou, realmente eu não tinha me ligado nas proporções. Eles são bem maiores do que os A320 e 737 que estão parados nas “jet bridges” e para ser daquele tamanho, só podiam mesmo ser os velhos A300 da VASP, porque os da Varig/Cruzeiro foram vendidos ou devolvidos bem antes da falência e os 767 da Transbrasil estão em Brasília (ou pelo menos ainda estavam da última vez que estive lá).

    • Bem lembrado Goytá, e o pior de tudo meu brother que depois de assistir este episódio do Tristar da Eastem Airlines eu fiquei num cagaço danado cara, você nem imagina, vai vendo só: eu moro sozinho, e para sair de um cômodo do apê onde montei meu escritório, para  chegar até meu quarto preciso atravessar  a casa toda e passar por um corredor que deve ter uns 8 metros e que com certeza estava com as luzes todas apagadas, pois só deixo as luzes do apartamento todas ligadas quando vou assistir filme de terror, e nem imaginava que o mayday mayday do 
      Eastem Airlines fosse mais que o relato de um fim trágico. Resumindo: Joguei uma colchonete velha que já deixo de prontidão no escritório quando pretendo quebrar alguma dona por ali mesmo, tranquei a porta, e por ali mesmo pernoitei, sem escovar os dentes e apertado com a bexiga cheia,  só saindo no dia seguinte com a claridade dando alvorada para mim. 

      Já tô ficando  meio bolado com este post do Litão, tô sentindo que a colchonete vai entrar novamente em ação. ai ai ai ai ai !

      • Goytá

        Por isso é que eu tenho o aplicativo “Brightest Lanterna” no meu fone Android, e logo na primeira página da área de trabalho, hehehe… :-)  Agora, “quebrar alguma dona por ali mesmo”? Pô, isso é jeito de falar? Eu, hein?

        • rs rs rs rs rs verdade camarada. Desculpa. Concordo plenamente contigo. Preciso tomar jeito. Reconheço que as vezes sou espontâneo demais. A família diz que não vou envelhecer nunca. “Mas quando em exercício de atividade aérea, seja com uma ferramenta à mão, ou a bordo de um saudoso Paulistinha (adoro, principalmente com um ventinho de través na final pra pouso rs rs rs ) faço uma curva 180 e mudo radicalmente minha personalidade. Pois quase 100 % do  que acontece lá em cima começou com uma pedra do dominó que foi derrubada aqui em baixo”. 

          “SEGURANÇA DE VOO ACIMA DE TUDO”. 

  • Se eu ficasse no escuro, em um lugar deserto, no meio do nada e dentro de um avião barulhento, não iria precisar ter ouvido qualquer história para sair corredo de lá!

    • Isso não tem nada haver com o post, mas estou desesperado, o pessoal do grupo de estudos da anac diz que é A, mas eu não consigo por isso na minha cabeça, pra mim é a B, não sei onde achar a resposta se não com alguém aqui, poderia me dar uma ajudinha com essa questão?

      Abração, e desculpe, sei que não é apropriado.

      Para voar no rumo norte, com um vento de NE, qual seria a proa mais adequada, dentre as seguintes? 

      A) 010 graus

      B) 350 grausC) 170 grausD) 190 graus

      • Seu grupo da anac está certo. Vc só estaria certo se o vento fosse noroeste.
        Enviado pelo meu Android Gnex
        Em 15/02/2012 13:17, “Disqus”
        escreveu:

        • Sabe oq mais me intriga lito? Num pouso com vento de través, a deriva é oposta ao vento, por isso optei pala B.

          Abração fica com Deus, e desculpe por postar aqui.

          • kernel

            Bem… Minha área é Análise de Sistemas, mas acredito que a correta é a “A”.

            Se tem um “ventinho” que vem de Nordeste e você está voando para Norte, ele estará empurrando o avião para a esquerda. Logo, para anular o deslocamento para a esquerda, o avião precisa voar para a direita.

          • kleber peters

            Perfeito! Como não deram a intensidade do vento, nem outras proas ligeiramente deslocadas à direita, fica com a A mesmo (10º).

  • Olá Lito,
     
    Trabalhei 7 anos no Corujão da VASP. Nós trabalhávamos no hangar 2 no cheque “B”, e sempre tínhamos que ir *assaltar os aviões desmontados que estavam no hangar 1 (sofrendo cheque “C” e “D”). Acontece que estas revisões eram feitas durante o dia e a noite o hangar ficava todo apagado e sem ninguém. Confesso a todos, que as vezes que tive que ir sozinho até o hangar 1, e entrar num daqueles B737-200 todo desmontado por dentro e escuro, não foram experiências muito agradáveis, já que lá na VASP também existia uma estória de que aquele hangar era assombrado. Não sei se é só comigo, mas só o fato de o avião estar desligado (escuro) já fica estranho, inteiro desmontado por dentro então, causa uma baita má impressão. Só para finalizar, também passei um tempo a noite na Pantanal, e algumas vezes devido ao avião ter que alternar para “GRU”, era necessário que um mecânico fosse para lá para executar a inspeção diária e cuidar do avião até de manhã quando voltávamos para “CGH”. Eu fui lá algumas vezes e o avião ficava na posição remota Julliet (perto do cemitério de aviões) se eu não me engano, então eu fazia a diária,  e depois caia pra dentro do avião, fechava a porta, apagava tudo, e era só esperar até umas 05:30 quando a tripulação chegava e nós voltávamos para CGH. Eu juro por Deus, depois de um tempo após eu apagar as luzes do avião para ficar meditando a respeito do trabalho (acredita nisso?) lá no fundo do ATR42-300 começavam os barulhos, sabe o que parecia? Que havia alguém literalmente estava mexendo na galley, abrindo as portas, mexendo nas pratarias. Poderia ser na empenarem, poderia ser sonho, sei lá, nunca descobri o que era, coisa de doido né?
     
    * O termo atual usado para essa prática é “Cannibalization” 
     
    Agradeço a você e a todos do Blog por permitir que eu compartilhe um pouco das minhas estórias aqui.

    Fiquem com Deus.

    • Valeu por compartilhar Orlando, é bom ouvir outras histórias. Abraço.

  • Lito cade a segunda parte, tô ansioso!

    Abração.

  • Pingback: PP-VJN – O Electra mal assombrado e a história de um sequestro – Parte 2 « Aviões e Músicas()

  • Os mecânicos da escola onde eu estou voando, em Maricá, dizem que o hangar de lá também é meio assombrado… Eles juram de pé junto que já ouviram vozes e gritos e que umas coisas estranhas acontecem quando ficam trabalhando até de madrugada!

  • CELSO PINHEIRO

    EXISTE MUITAS HISTORIAS DOS NOSSOS VELHOS MECS MAS SABEMOS Q ISSO NUNCA FICOU EM MUITA EVIDENCIA SEMPRE HAVERÁ HISTORIAS REFERENTE ACFTS E CIAS.UM GRDE ABRÇO A TDS.

  • Pingback: A Moita – Histórias [verídicas] da Aviação()

  • afonso_tm

    O PP-VJN foi sequestrado em um voo entre Congonhas e Curitiba, em 30/05/1972 por Grenaldo de Jesus da Silva, morto dentro da aeronave ao fim do sequestro. No avião, estavam minha tia, meu tio e a madrasta dele.

  • Rafael Ribeiro

    Eu estou pensando em começar um curso de mecanico de aeronaves e fiquei imaginando agora essas historias que o pessoal conta. deve ser muito engraçado e muito bom trabalhar em manutençao

  • Monica Kofler

    Só não vale sair correndo quando ficar sabendo das histórias e ouvir uns burburinhos. São bem verdadeiras.

  • francisco greche junior

    !!!!!!!! Que legal essa história!!!!

  • Alexandre Vazzolla

    Voei muito nestas aeronaves , a ponto de ser conhecido por algumas tripulações e ser convidado para uma visita ao cockpit.
    As mesmas me contaram inúmeras histórias , dentre as quais a do sequestro da aeronave da Varig que imitaria o caso Dan Cooper ocorrido no dia de ação de graças em 1971 nos EUA.
    Gostei muito do seu artigo.

  • Alexandre Soucha

    Daqui a pouco vai aparecer a tal loira do banheiro,mas com muito estilo dentro de um avião Airbus 380,aguardem!

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