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Preservar é preciso

Uma das decepções que tenho é que o ser humano não transformou “De volta para o futuro” em algo real. Realmente gostaria de entrar num DeLorean e voltar aos anos 70, 80. Existem ações que podem nos levar ao passado, uma delas chama-se: Preservar a HISTÓRIA!

Uma destas ações é a fotografia e foi por meio dela que conheci um cidadão em um terraço de aeroporto que hoje é um dos meus melhores amigos. Este cidadão chamado Rafael tem absurdos números de voos para quem não é piloto (ainda), só de Ponte Rio-SP na TransBrasil o cara tem mais de 100. Outra forma de preservar a história são os artigos, os sites e este é o meu foco no AeM que me levou a conhecer outro amigo e tanto, um cara além da média que é o nosso Lito DJ (50% da minha trilha sonora é assinada por esse rapaz).

Tá e aí, o que isso tem a ver?

Pois bem, por razões que não cabem dissertar aqui, eu precisava encontrar com o passado, precisava de uma injeção de ânimo. Um telefonema para o Rafael e uma viagem marcada, alocamos nossas respectivas digníssimas e botamos o carro na estrada.

F-27

Fokker F-27, foto de Alexandre Alves

Já na estrada a volta ao tempo começa ao ver os saudosos ônibus CMA ex-Cometa nas estradas e claro meu belíssimo O371 (Mercedes né?). Na proa de São Carlos: MUSEU DA TAM, que dispensa apresentações, foi meu primeiro reencontro com o Fokker 100 (apesar de eu ter trabalhado só com o MK28, risos). Fokker 27 que eu nunca tinha visto tão de perto e todo aquele acervo maravilhoso, com direito a um grande “vocalista aeroportuário”: GE CF6-50, o motor do A300 <3. [caption id="attachment_9714" align="alignnone" width="500"]CF-6 Motor GE CF6-50 – foto de Alexandre Alves[/caption]

O museu da TAM é indispensável, é visita com conteúdo garantido. Mas o melhor estava por vir, de QSC para AQA!

Araraquara, imagine dirigir por uma avenida e topar com 2 Boeing 737-200? E o melhor, full colors VASP! Precisava disso! O responsável? Comandante Ediney Capistrano, que abriu a carteira para preservar a memória, e no quintal do seu sítio repousam o PP-SFI e PP-SMW, dois aviões importantes na história da VASP. O SFI foi o último 737-200 incorporado pela VASP em 1998, empresa que tem sua imagem e história mescladas com a história do 737-200 no Brasil e o SMW foi o primeiro 737 CARGO da VASP e cumpriu este papel por 31 anos (1974-2005).

Capistrano

Foto de Alexandre Alves

Apesar de não ser um espaço aberto ainda, o Cmte. Capistrano nos recebeu gentilmente e eu simplesmente parei na frente daquele 737-200 e voltei a 2005, 2004, 2003, 2002, 2001, infância. VASP, 737-200, Aeroporto Dois de Julho, o som do JT8, o cheiro do querosene queimado. Para piorar a situação o Comandante me fala que tentou comprar o A300 PP-SNM, quase desmaiei. Se tivesse um A300 naquele quintal eu iria me mudar para a casa ao lado, só para admirar, apreciar.

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Cockpit 737-200 – Foto de Alexandre Alves

Após muitos anos voando ATR, E-Jet e ido até Sampa em um 737-800, entrar em um 737-200 é um choque visual, é voltar para a aviação que eu gostava e admirava. Quantas vezes eu não fui pra aula no Aeroclube de Ilhéus com 3, 4 horas de antecedência só para ver o VASP 4240 (depois 4190) pousar e decolar? Quantas lembranças me trazem PP-SMA, SMR, SMS, SMP, SNB, meu amigo Carlos Doria fotografando e eu apenas observando, ouvindo a JT8 “startar”, lembranças de vôos que fiz entre BPS-SSA-BPS e IOS-SSA com os 737-200.

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Cabine do 737-200 – Foto de Alexandre Alves

E se não houvesse preservação eu iria relembrar como? Fotos apenas? Ou poucos vídeos no Youtube? Ainda bem que existe a Airport Events para nos promover o retorno ao passado. Detalhe, se for a Araraquara não deixe de passar numa tal de “Coxinhas Douradas” e tampouco se espante se tiver uma fila imensa, mas vale a pena e muito.

No Brasil somos deficientes em preservar a história, não existe interesse coletivo para tal. Engraçado que a parte mais legal de passar pela frente do Aeroporto Dois de Julho nos anos 80 e 90 era ver um Gloster Meteor na entrada do Bambuzal de acesso ao referido aeroporto, aquilo ficou gravado para sempre (hoje ele está em posição diferente ao tempo citado). Com o fim de VASP, TRANSBRASIL, VARIG, perdeu-se a chance de preservar muito mais. A VASP tinha 21 737-200, alguns foram picotados sem dó, poderiam ser preservados, imagine no jardim do estacionamento de Congonhas se tivesse por exemplo o PP-SMG (picotado neste aeroporto), um avião que foi “garoto propaganda” do Banespa.

Apesar de termos alguns aviões preservados Brasil à fora, é um número pequeno para o país de Alberto Santos=Dumont. Mas vamos lá, não é só uma questão de sangue-azul da VASP nas veias, é uma questão de gostar e assim fui andar por Contagem, região metropolitana de BH, onde eu sabia que tinha um 737 da VASP, e eis que minha digníssima diz: não é aquele ali? Quem está lá em um estacionamento de um futuro empreendimento? PP-SMC, o terceiro 737-200 do Brasil, completamente judiado – pois assim ficou em Guarulhos – e pior posteriormente foi pichado (a foto de minha autoria é anterior).

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Foto Alexandre Alves

Quando retornei de Araraquara e São Carlos simplesmente fui “varrer” Vespasiano até encontrar ele, o pioneiro, o legítimo, o PRIMEIRO BOEING 737 DO BRASIL: PP-SMA, o 169° 737-200 fabricado, o primeiro do Brasil, reinou sozinho com o -SMB, -SMC, -SMD, -SME até 1974 quando a VARIG recebeu o PP-VME e 1975 quando a CRUZEIRO recebeu o PP-CJN. O primeiro 737-200 da América Latina (os Argentinos só receberiam os seus em 1970) está lá em um terreno, sem a pintura da VASP, sem naceles de motor. O PP-SMA merecia um destino melhor, o mecânico que cuida dele é nosso leitor aqui no AeM e promete que será restaurado, que assim seja!

7373 abandonado

Foto Alexandre Alves

Outros 737 se safaram da faca, vide PP-SPH, PP-SMH, parte do PP-SMZ e PP-SNA e o charuto do PP-SMB. E da idolatrada VARIG? Apenas o PP-VJM, Electra II lá no Musal e um “falso” De Havilland Dragon (não é o exemplar original que voou na RG). Não existe nada de CRUZEIRO, TRANSBRASIL, PANAIR, REAL por aí. Prometem transformar o PT-TAC, 767-200 da TransBrasil em um restaurante, mas não considero isso preservação. A TAM que é uma empresa jovem (nascida como Linha Aérea em 1976) possui um acervo brilhante com aviões originais da frota PT-LAF, PP-SBI, PT-MRL. Sendo o PT-LAF o primeiro Fokker 27 de sua frota. Mas é muito pouco.

Eu faço minha parte, com uma coleção crescente de Safety Cards, time-tables e outras coisas, especialmente das empresas extintas. Conhecendo o passado, se entende o presente e se faz o futuro. Inveja dos Americanos que têm diversos museus com preciosidades, palmas para a Lufthansa que mantém um Junkers JU52/3m em condição de voo. A Holanda possui um dos protótipos do Fokker 27 preservado, e olha que a Fokker fechou há quase 20 anos.

A propósito fica o recado aqui a quem tiver interesse de vender ou doar time-tables, Guia Panrotas ou Guia Aeronáutico ou Safety Cars entrem em contato comigo! No caso dos time-tables de qualquer data, já os safety cards eu estou da década de 90 para trás. Só a memória que guardamos na cabeça não dá efeito, é preciso ver e tocar novamente. Eu ainda lembro do meu inesquecível vôo no jumpseat do PP-SNM, o primeiro A300 a pousar em Teresina, aquele dia não sai da cabeça e ainda consigo escutar os CF6-50 durante o taxi pós pouso em Salvador, no entanto o PP-SNM está se degradando em Guarulhos e duvido que vá ser preservado.

Já os 737-200, graças ao Capistrano eu consigo ver, tocar e até observar pássaros sentadinhos em sua cauda, porém, da baiana Nordeste, não posso ver nada, pois até o acervo de fotos da companhia foi perdido.

Ficam então as recomendações para um passeio histórico: MUSAL no Rio, MUSEU DA TAM em São Carlos e Chácara do Aviador em Araraquara. Volte no tempo e relembre a sua história. Fica aqui a minha torcida para que o PP-SMA seja restaurado, tenha naceles em suas asas novamente, tenha as cores da VASP e que as próximas gerações possam conhecer como se voava antigamente – a GOL perdeu a grande chance de manter o PR-GOL, seu primeiro avião preservado, optou por desmontar – afinal a aviação dos anos 80, 70, 60… ah essa era espetacular!

Artigo dedicado a Rafael, Mônica e Vannessa, as duas últimas pela paciência em adentrarem um mundo ao qual os dois fanáticos são capazes de perder a noção de tempo, de fome, de cansaço…

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Sobre o Autor

Alexandre Conrado, pesquisador de aviação e profissional no segmento desde 2001
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