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Quando viajei na “jump seat”

Através de um comentário numa postagem anterior, fiquei conhecendo o site Aerocast, de podcasts de um grupo de jovens aficionados por aviação, e escutei um podcast chamado Jumpseat Hunters (apesar dos nomes, o site é brasileiro e o áudio é em português). Comecei a botar lá um comentário contando da vez em que voei na jump seat de um Boeing 727, mas vocês aqui já conhecem como são meus comentários… No meio do processo de escrevê-lo, achei que daria uma postagem aqui e resolvi fazer isso, deixando lá só o link.

Mas como e por que consegui a jump seat envolve uma história anterior. Eu tinha 15 anos de idade, morava em Belo Horizonte com minha mãe e fomos nas férias de julho para o Sul. Na volta, deveríamos embarcar em Navegantes num Samurai da Varig (shhhh, abafa a idade!) para São Paulo, com escala em Joinville, e fazer conexão em Congonhas para BH. Mas entre a emissão da passagem (em papel, aquela com carbono vermelho, shhhh!) e a viagem, a Varig mudou o horário do voo e não nos avisou. Até saímos do hotel bem cedo, mas vínhamos de Blumenau, e Navegantes é longe. Chegamos ao aeroporto quando o voo da manhã tinha acabado de sair, e naquela época só havia dois voos diários em Navegantes, ambos no Samurai da Varig, um de manhã e outro no final da tarde.

O jeito foi esperar 8 horas pelo voo da tarde naquele aeroporto acanhado e sem infraestrutura, que ficava praticamente deserto entre seus dois únicos voos diários. O tempo de espera teria sido suficiente para darmos uma volta por Itajaí e/ou Balneário Camboriú para matar o tempo, mas acontece que meu avô tinha morrido logo depois de voltarmos às pressas do Balneário Camboriú para BH numa viagem anterior e mamãe não quis nem ouvir falar de voltar lá, para não ter lembranças tristes. E além da longa e tediosa espera, outro problema era que na época, o último voo de Congonhas para BH era logo no início da noite (ainda não havia Guarulhos – shhhh!) e chegaríamos depois da partida dele. Mas ainda daria para chegar a BH através de uma conexão adicional no Rio de Janeiro, que tentaríamos conseguir.

 

Samurai da Varig/Cruzeiro

O Samurai que fazia a rota Navegantes-Joinville-São Paulo duas vezes por dia na década de 1970. A pintura e o registro ainda eram da Cruzeiro, mas o voo tinha numeração da Varig, tripulação da Varig e tudo a bordo tinha o logotipo da Varig.
© Arquivo Jetsite

 

Chegamos a São Paulo e lá foi minha mãe brigar no balcão da Varig – ela era ÓTIMA para isso e logo conseguiu o endosso para a conexão: Transbrasil até o Galeão e VASP de lá para BH. Só que o voo da Transbrasil atrasou mais de uma hora e chegaria em cima para a outra conexão. Aproveitando uma passagem do comandante pelo corredor do One Eleven (shhhh!), mamãe, despachada e cara de pau como sempre, pediu a ele para se comunicar com o Galeão e pedir para nos esperarem. O comandante, gentilíssimo, disse que faria isso e voltou cinco minutos depois, dizendo que tinha falado pessoalmente pelo rádio com o comandante da VASP, que já estava no cockpit para o outro voo, “conhecia a peça” e era superteimoso e cabeça dura, e tinha dito que não esperaria nem um minuto. Mas disse que era para a gente não se preocupar e apenas amarrar BEM os cintos, porque “agora nós vamos fritar os bolinhos desta lata velha!”

De fato, logo se acenderam as luzes de apertar os cintos e o velho BAC-111 chacoalhou um bocado no resto do voo. Deve ter sido o recorde da rota: pousamos no Galeão apenas 29 minutos depois da decolagem de Congonhas! Ao pé da escada (isso foi antes do novo Galeão com suas jet bridges – shhhh de novo!), já estava um jipe da VASP para nos levar diretamente ao outro avião – mas passamos por ele enquanto taxiava para decolar e o comandante ainda fez a “gentileza” de acenar… Grrr!!! O jeito foi irmos para o Terminal Doméstico Provisório do Galeão (shhhh!) para vermos o que podíamos fazer, já que aquele também tinha sido o último voo do Rio para BH naquele dia. Conversando, ficamos sabendo que todo aquele tratamento VIP foi porque aquele comandante da Transbrasil não era pouca coisa: era o comandante Barbosa, o mais experiente, o mais respeitado e presidente da associação de pilotos da companhia. Ele tinha o maior prestígio e a maior moral, tanto na Transbrasil quanto nas outras empresas, e todo mundo do meio o conhecia. Poderoso o homem!

 

BAC-111 da Transbrasil

Não anotei o registro, mas é provável que tenha sido neste One Eleven que aconteceu o caso, porque a Transbrasil tinha um avião de cada cor e eu me lembro que era azul.
© Vito Cedrini, Airliners.net

 

Àquela altura, o pessoal da VASP no Galeão (simpaticíssimo) já estava todo mobilizado a nosso favor e dali a pouco saiu um funcionário de trás do guichê gritando “Iupiiii!” (juro que foi assim mesmo – só mesmo no Brasil e no Rio!). Não havia mais voos regulares para BH naquele dia, mas haveria um voo extra: o Cruzeiro Esporte Clube tinha acabado de ganhar a Taça Libertadores da América num jogo em Santiago do Chile, estava chegando de lá e por causa disso, um voo do Rio para Brasília que normalmente era sem escalas pararia excepcionalmente em BH para levar os jogadores, técnicos e dirigentes. E nos encaixaram nesse voo.

Detesto futebol, acho um tédio e não assisto nem mesmo aos jogos do Brasil na Copa do Mundo. Por isto, não me dizia nada viajar ao lado de tamanhas celebridades (ou ser testemunha ocular de um momento que imagino ter sido histórico no futebol brasileiro). Eu só estava preocupado em chegar em casa e contente de que iria conseguir isso. Dali a pouco chegaram os jogadores no saguão com o enorme troféu. Eu só conhecia os mais famosos, mais falados e que apareciam mais nos noticiários da TV, a ponto de nem mesmo eu deixar de reconhecê-los: o goleiro Raul, hoje comentarista esportivo (que, sendo bonitão, causou uma revolução social em Minas quando chegou lá, pois as mulheres começaram a ir ao estádio, antes reduto exclusivamente masculino, só para ver seu sex symbol), o Piazza, o Palhinha e o Jairzinho, com seu inconfundível cabelo afro. Já ouvi dizerem que a conquista daquele troféu não foi por acaso, pois o Cruzeiro daquela época teria sido um dos melhores times de futebol que o Brasil já teve. Não posso confirmar nem desmentir isso, muito menos vou discutir. Só o que posso dizer é que os jogadores eram muito simpáticos, muito simples e sem estrelismos. E um detalhe que seria impensável hoje: a maioria fumava. Muito, e sem nenhuma vergonha ou pudor!

Viajei no 737-200 (acho que era o único tipo operado pela VASP na época) ao lado do Eduardo, de quem, desligado de futebol como eu era, eu nunca tinha ouvido falar (se me pedirem para falar o nome de um jogador atual do Corinthians, do Flamengo ou de qualquer outro time, eu não faço a menor ideia!). Extremamente simpático, foi o tempo todo conversando com a minha mãe. Só tínhamos nos esquecido de um detalhe: a chegada ao Aeroporto da Pampulha. Quem já passou por lá sabe que o terminal da Pampulha é minúsculo. Imaginem então tomado por centenas, talvez milhares de torcedores cruzeirenses que foram receber seu time vitorioso! E em BH, o fanatismo dos torcedores é inversamente proporcional ao tamanho da torcida (os atleticanos são a maior torcida, mas os cruzeirenses são mais fanáticos e a torcida do América é a mais fanática de todas!). Nossa sorte foi que um velhinho que trabalhava lá como carregador, sempre carregava nossas malas e nos conhecia era cruzeirense doente. Naquela noite, ele não estava de serviço, mas foi lá para prestigiar seu time e não só carregou nossas malas como, com seu conhecimento do lugar e das pessoas, furou nosso caminho até um táxi. Lógico que levou uma generosa gorjeta.

 

NVT-JOI-CGH-GIG-PLU

A rota que acabei fazendo naquele dia, maior que a esperada e precedida de uma espera imprevista de 8 horas no aeroporto de Navegantes (anunciado na época como “Itajaí” – ITJ)

 

Mas onde entra a jump seat? Entra num voo um ano depois, do Rio para BH num 727 da Transbrasil. No speech antes da decolagem, a comissária anunciou que “o comandante Barbosa dá as boas-vindas a bordo…” Na mesma hora nos agitamos e ficamos esperando que o comandante desse sua voltinha pela cabine de passageiros, o que parecia ser seu hábito. Não deu outra: assim que o avião pegou a altitude de cruzeiro, lá veio ele pelo corredor e minha mãe o abordou. “Comandante Barbosa?” Foi impressionante, porque na mesma hora o comandante perguntou, sem mais delongas e sem nem nos cumprimentar: “E aí, conseguiram pegar sua conexão?” Ele se lembrava perfeitamente de nós e do episódio, um ano depois! Foi uma festa e ele aí me convidou a ir à cabine de comando assistir ao pouso na jump seat.

Eu era supertímido e fiquei meio sem graça, mas pouco depois ele anunciou pelo alto-falante que estava iniciando os procedimentos de descida e me chamou pelo nome à cabine! Aí fui (eu devia estar vermelho como um pimentão!), ele me recebeu com um sorriso largo e apontou para a jump seat. Não recebi instruções, mas desconfiei que deveria ficar quietinho. E foi lindo o pouso, passando rasante sobre a Serra do Curral, sobrevoando a Baleia, o Horto e os bairros da região leste de BH até o Bairro Planalto, para então iniciar uma curva precisa a oeste e depois sudeste, via Venda Nova e Céu Azul, para se aproximar e tocar a pista da Pampulha como uma pluma logo após a barragem. Durante a taxiagem, ele me pediu para voltar ao meu assento – não por ele, mas para me juntar à minha mãe antes de começar a confusão do desembarque (que homem sensível e antenado até para as necessidades de um adolescente – não foi à toa que chegou aonde chegou!). E lá fui eu, feliz da vida e agradecendo muito a ele.

Nunca mais soube do comandante Barbosa. Ele tinha cara de estar na casa dos 50 anos e já deve ter morrido, ou senão está muito idoso agora. Mas só posso guardar a maior gratidão e admiração por ele, digno representante de um tempo em que o profissionalismo e o amor pela aviação imperavam na área.

 

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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