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Senta que lá vem história

Hoje vou dar inicio a uma serie de estórias (todas verídicas, por mais escabrosas que pareçam) que tomei conhecimento (ou participei) nestes mais de 20 anos de profissão, várias com bom humor, outras trágicas se não fossem cômicas. Um outro dia, eu conversava com um amigo numa noite de frio, aguardando a hora do avião sair, comentando qual seria a razão de acontecerem tantas coisas ”estrambóticas” (na falta de um adjetivo melhor) no ambiente da aviação, e acabamos chegando a conclusão de que a mistura de todos os setores da sociedade num mesmo local de trabalho é que leva a isso. Num ambiente de escritório, você irá encontrar pessoas compartilhando o mesmo nível cultural, ou seja, tirando o boy que aparece de vez em quando, todas as outras pessoas têm o mesmo background, e quando a tia da limpeza chega, o escritório já terminou o expediente, não há contato direto. O mesmo acontece em um banco, repartição pública, hospitais, etc. Agora no aeroporto, você tem ao mesmo tempo comandantes de aeronaves internacionais, gerente de base, despachantes operacionais, comissárias de vôo, mecânicos, bagageiros, limpadores, auxiliares, seguranças, etc., todos trabalhando ao mesmo tempo. Inevitável que essa mistura crie situações bem inusitadas..rs.
Mentira? Não…
Havia um instrutor na Varig (com certeza já aposentou) que era muito engraçado, não só pela maneira de falar com um sotaque nordestino (apesar de morador do Rio de Janeiro), mas pelas estórias que contava e jurava serem verdade. Seu nome era Marvel. Assim como ele, havia também um mecânico que trabalhava em Congonhas no turno da meia-noite, que gostava de contar as suas façanhas, seu nome era Dito Macumba. Vou contar uma estória de cada um, e fica a critério dos leitores desse humilde espaço julgar a veracidade ou não delas…rs.
Marvel nos contou a estória da cidade em que ele passou a infância, cidadezinha do interior. Contou que um dia ganhou um relógio de presente e tinha muito zelo com este relógio. Um belo dia, foi jogar futebol com a molecada num campinho e como foi o escolhido para jogar no gol, tirou cuidadosamente o relógio e o deixou escondido numa moitinha logo atrás. O jogo transcorreu normalmente, muito tempo jogando, muitas vitórias e acabou anoitecendo e Marvel seguiu para casa sem se dar conta de que esquecera o relógio. Muito tempo se passou, até que um dia, já um senhor de idade, Marvel volta a sua terra natal para visitar as origens, e quando foi até o terreno em que se encontrava o antigo campinho, lembrou-se num estalo que havia deixado o precioso relógio atrás da moita durante aquele jogo infantil. Olhou em volta e localizou a posição da moita, mas no lugar da moita havia agora apenas uma árvore alta. Com certeza alguém havia achado o valioso relógio… Marvel ficou em silencio entregue aos pensamentos nostálgicos, quando percebeu um ruído característico…

tic..tac…tic…tac…tic…tac…

Olhando para cima, Marvel reconheceu o seu relógio pendurado em um dos galhos da árvore, que um dia havia sido uma moita.

_Um minuto Marvel! (levantou um aluno para argumentar). Quando você era criança, os relógios eram a corda, e não automáticos. Como você pode ter ouvido o tic tac depois de tantos anos??

_Meu querido, o relógio ficou de tal maneira no galho, que percebi que com uma leve brisa, o galho logo acima se mexia fazendo um movimento longitudinal que encostava ao botãozinho de dar corda no relógio e o girava a cada vai e vem, por isso o mesmo se manteve funcionado, e não atrasou nenhum minuto se você quer saber!

Amanha eu conto a estória do Dito Macumba.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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