“Síndrome da classe econômica”: um novo problema em voos longos

O Lito acaba de colocar um post explicando por que as luzes da cabine são apagadas durante os pousos e decolagens, e nele colocou um link para um post anterior, lembrando da sempre presente possibilidade de ocorrência de turbulência severa sem aviso, razão pela qual se deve sempre ficar sentado e com os cintos de segurança afivelados, a não ser na hora de ir ao banheiro. Isso reduz muito o risco de ferimentos sérios no caso de uma turbulência dessas. Mas em voos longos, isso cria um outro problema: o risco de trombose das veias profundas das pernas, que pode levar a uma embolia pulmonar, que pode ser fatal.

Vai aqui uma breve e superficial explicação destes termos: trombose é quando uma veia (pode ser qualquer uma, mas é mais comum nas pernas, pela dificuldade de o sangue vencer a gravidade) fica obstruída total ou parcialmente por uma maçaroca marrom, nojenta e endurecida de sangue coagulado, células mortas e rompidas, proteínas fibrosas e muito mais. O nome médico apropriado dessa maçaroca é trombo (daí a condição ser chamada de “trombose”). Um trombo pode ser duro como pedra ou pode ser esponjoso ou pastoso; pode estar firmemente preso na parede da veia ou quase solto, e há mil motivos possíveis para um trombo se soltar sem aviso. Por que um trombo se forma? Também mil motivos possíveis, geralmente alguma lesão microscópica que, devido à circulação mais lenta e difícil nas veias, aciona os mecanismos de coagulação do sangue e começa todo um processo a partir daí.

Um trombo preso no lugar, dependendo de em qual veia está e se a obstrui total ou parcialmente, pode passar despercebido ou pode causar inflamações, inchaços e outros incômodos, mas raramente algo mais sério. Ao contrário de obstruções em artérias (que estão levando sangue com oxigênio e nutrientes para os tecidos, e não recolhendo sangue “usado” de volta, como as veias), o organismo geralmente tem como quebrar o galho e desviar o fluxo de obstruções em veias, limitando os danos no máximo a meros incômodos na maioria dos casos – pelo menos enquanto o trombo ficar quietinho no lugar. O problema é quando o trombo se solta e vira um êmbolo. Um êmbolo não é necessariamente um trombo: pode também ser uma bolha de gás (como numa injeção endovenosa mal dada), pode ser uma massa de gordura (comum quando há fraturas violentas, como em acidentes de carro), pode ser uma massa de pus ou parasitas (há umas parasitoses de filme de terror de aliens, especialmente na África e Ásia, mas vou poupar-lhes a descrição) e pode até ser um trombo solto. Mas é muito perigoso, especialmente se não for muito grande nem pequeno demais (um êmbolo grande demais não irá muito longe, e se for microscópico geralmente não terá como causar muito estrago).

Se o êmbolo for do tamanho “certo”, cai pela circulação venosa no lado direito do coração e de lá é levado através da artéria pulmonar até um dos pulmões, onde o sangue é oxigenado. Como toda artéria, a pulmonar começa a se dividir em ramos cada vez menores. Chega um ponto em que o êmbolo fica entalado e a circulação naquele ramo da artéria pulmonar é então interrompida. Dependendo do tamanho da área do pulmão que deveria estar recebendo aquele sangue mas não está, o estrago pode ser feio. Isso é uma condição chamada embolia pulmonar e é muito grave, com risco de vida. O processo pode ser mais rápido ou mais lento, de modo que a hospitalização pode ou não chegar a tempo de salvar a vida do paciente. E se chegar a tempo, a resposta do paciente ao tratamento pode demorar horas, dias ou meses, durante os quais ele ainda estará numa situação delicada e correndo perigo.

Infelizmente, tem havido cada vez mais casos de embolia pulmonar fulminante após voos longos, geralmente na hora do desembarque ou na fase final do voo, assim que o passageiro se levanta após um longo tempo sentado (e um trombo se desprende das veias das suas pernas). Felizmente, embolia nesses casos ainda é uma ocorrência relativamente rara, considerando a quantidade de gente que voa hoje em dia, mas os casos existem e estão aumentando. Isso já recebeu até um nome meio apócrifo, não muito aceito pela comunidade médica: “síndrome da classe econômica”. Afinal, não por acaso, quase todas as ocorrências registradas são em passageiros da “ipsilone”, com suas poltronas cada vez mais apertadas.

Um estudo canadense mostrou que até 10% dos passageiros de voos de mais de quatro horas de duração estão sujeitos a trombose das veias profundas da perna sem nenhum sintoma (foi detetada fazendo exames minuciosos de imagem nos passageiros, voluntários do estudo, logo após o desembarque), e 0,25% estão sujeitos a trombose com sintomas (mesmo que sejam sintomas apenas perceptíveis, não necessariamente graves). Parece pouco, mas pensem em quantos passageiros desembarcam de voos longos em lugares como Tóquio, Sydney ou mesmo Guarulhos. (Aeroportos asiáticos e australianos, por sua maior proporção de voos extralongos, são os campeões de incidência.) 0,25% são 1 em 400 – um caso com algum sintoma perceptível de trombose para cada 747 ou A380 lotado que pousa, quase isso para cada 777 ou A330, e um para cada dois ou três 737-700 ou A320 que chegam aqui do Peru ou do Panamá, por exemplo. Num grande aeroporto internacional, a probabilidade é que todo ano aconteçam vários casos que cheguem ao ponto da embolia pulmonar.

Ah, mas isso é coisa de velho, certo? Errado. Pessoas idosas de fato têm risco aumentado de trombose e embolia, mas estão longe de serem o único grupo de risco. Por exemplo, por incrível que pareça, as estatísticas mostram que atletas de resistência (maratonistas, triatletas etc.) também têm um risco muito aumentado da “trombose dos viajantes”, sabe-se lá por quê. Mulheres têm risco maior do que homens, especialmente se estiverem grávidas, tomando anticoncepcionais ou fazendo reposição hormonal. Pessoas que tomam certos medicamentos, como anti-inflamatórios, também. Quem tem história de qualquer parente próximo com problemas cardíacos ou circulatórios (mesmo que sejam simples varizes – o que inclui hemorroidas), também. Fumantes e diabéticos, para variar, também (claro, estes dois grupos sempre estão em risco de tudo, até de mau olhado da sogra e pedido de empréstimo do cunhado!). Mas há casos registrados com pessoas que não pertenciam a nenhum grupo de risco conhecido, como rapazes fortes e saudáveis que simplesmente caíram sem respirar na jet bridge. (Pode também ocorrer horas ou até dias depois.) Há tantos grupos de risco já identificados que quase todo mundo pertence a um deles!

Não se sabe exatamente por que a trombose venosa profunda ocorre mais em viagens aéreas; pela lógica, isso deveria acontecer também com quem faz viagens longas de trem ou ônibus, e até ocorre, mesmo, mas é muito mais raro. Talvez porque a combinação de imobilidade com desidratação (muito comum em viagens aéreas, até sem a pessoa perceber) dificulte ainda mais a circulação venosa e favoreça a formação de trombos. Mas sabe-se, por exemplo, que quem viaja na janela tem o dobro da chance de ter trombose de quem viaja numa poltrona de corredor. E os casos aumentaram vertiginosamente de uns 20 anos para cá, não só pelo próprio crescimento do tráfego aéreo, mas porque o espaço entre as poltronas da classe econômica ficou muito menor. Antigamente também não havia aviões capazes de voar 15, 16, até 18 horas sem escalas. Nem havia voos de cinco ou seis horas num 737-800 ou A320 apertadíssimo como hoje; voos longos em aviões antigos de cabine comparável, como o 707 ou o DC-8, tinham poltronas muito mais espaçosas em sua época.

O que fazer? Em primeiro lugar, aproveitar cada chance que tiver de movimentar as pernas. As veias não podem contar com o coração bombeando, como as artérias, para fazerem o sangue circular, e ao contrário daquelas, também não têm músculos em suas paredes para empurrar o sangue. Há vários mecanismos que as veias das pernas usam para fazer o sangue fluir contra a gravidade, mas são todos passivos. O mais importante deles é usar a contração dos músculos vizinhos para espremer e empurrar o sangue. Então, trate de usar esses músculos. Em voos longos, recomenda-se dar uma voltinha na cabine a cada hora, em média. Isso, é claro, vai contra a recomendação de segurança contra turbulências, o que cria um dilema. Mas não precisa ser coisa demorada, um minutinho ou menos basta. Se você consegue dormir em avião (ainda mais na classe econômica), também não precisa acordar só para isso. (Eu não consigo dormir em avião.)

Se o espaço der, estenda e contraia as pernas o quanto for possível. Se não der, suba e desça a perna na ponta dos pés, balance-a como um pêndulo, faça qualquer coisa, mas mexa-a com frequência – especialmente se tiver o mínimo sintoma que seja nas pernas, como dor, formigamento ou dormência, muito embora muitos casos não deem sintoma nenhum até acontecer uma embolia pulmonar. Evite também pressionar a parte de trás do joelho com a borda do assento. Como o problema também pode aparecer só algum tempo depois do voo, se tiver sintomas nas pernas até alguns dias depois de um voo longo, procure logo um hospital: pode ser uma trombose, que com tratamento pode ser impedida de virar coisa pior.

Durante o voo, sempre tome muito líquido, encha a paciência das aeromoças com sua insaciável sede, mas beba. Água ou sucos, porém: álcool aumenta o risco. Cafeína também é ruim (café, chá preto, mate, guaraná e colas). Não precisa se privar da sua flûte de Bollinger Grande Année 1997 na “ipsilone” do 737-800 da Gol para Caracas (hahaha, é bem capaz…), apenas não fique tonto nem tome litros de café ou Coca-Cola. Meias compressivas, daquele tipo usado por quem tem varizes, ajudam a evitar o problema, mas causam outro: aumentam ligeiramente a possibilidade de trombose das veias superficiais da perna, que é bem menos perigosa mas pode ser muito incômoda. Mas se faz voos longos com frequência, experimente as meias e tente pegar sempre o corredor, para facilitar. Ou ganhe na Mega-Sena e viaje só de primeira classe Premium em sleeper seats

Dicas de exercícios para fazer durante o voo via ourairline:

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
  • http://www.facebook.com/people/Gabriel-Paes/1296544857 Gabriel Paes

    Nossa essa não sabia Goyta, também consigo dormir quase o voo todo, mas não perco a visão da decolagem e pouso…não perdia, agora vou menos na “janelinha” kkkk 

    • Goytá

      Por um lado, a janelinha é melhor para quem dorme, porque a pessoa não é incomodada pelo passageiro vizinho querendo ir ao banheiro, mas por outro, não deixa de ser um desperdício (a não ser em voos noturnos), porque a pessoa vai privar outra da vista sem utilizá-la… Eu não durmo de jeito nenhum (só consigo dormir na horizontal) e também adoro olhar a vista, nem que seja só a decolagem e o pouso em voos noturnos, mas em voos longos, sempre peço uma poltrona de corredor, senão minhas pernas não aguentam. Pelo menos, essa é talvez a única hora em que dou graças por ser baixinho (tenho 1,67 m), senão as coisas seriam ainda piores.

      • http://www.facebook.com/luctimm Lucas Timm

        1.65m lol :)

  • Carlostmotta

    O 773 da tam é o mais espremido.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000929405345 Luis G Fernandes Neto

    Dia 19/03 farei juntamente com minha esposa  uma longa viagem (FOR-GRU-JFK-YVR) e já estava preocupado com isso. Como ressaltado no texto, as meias compressivas ajudam a prevenir a forma mais grave da trombose e por recomendação médica já realizei a compra dessas para utilizar na jornada que levará 20 horas somente dentro dos aviões, não contando o intervalo de tempo de troca entre as aeronaves. Excelente post. Um grande abraço!

    • Rodrigo Portam

      Luis G Fernando Neto, uso essas meias de média compressão tanto para voos ou no dia dia do trabalho, aliando a elas 15 minutos de exercício físicos(segunda, quarta e sexta) tenho como resultado: Nada de dor nas pernas….rs

    • Goytá

      Que maratona! Eu já quase morri quando fiz DFW-MIA-FOR-SSA-GRU (757 da AA no primeiro trecho e MD-11 da VASP no resto), umas 15 horas dentro de aviões e 4 horas de conexão em Miami. Nem aguentei passar pela free shop e quando cheguei em casa dormi uma semana! Tente pegar uma poltrona de corredor e mais a vizinha e vá revezando com sua esposa. Boa viagem!

  • Goytá

    Obrigado ao Lito por acrescentar o ótimo diagrama com os exercícios sugeridos pelo site ourairline.

  • Luiz Rocha

    Excelente post! Pelo visto você vai enriquecer muito o blog! 

    • Goytá

      Muito obrigado, Luiz, pelo menos vou tentar! :-)

  • Mariel Fonseca

    Excelente post, muito detalhado, do jeito que gosto. Informação nunca é demais. Parabéns, escreve muito bem!

  • Rodrigo Domingues

    Ótimo post Goytá! Extremamente informativo e útil não só aos passageiros mas também aos tripulantes técnicos tanto de voos curtos como longos que apesar de terem mais espaço e se movimentarem durante escalas ainda passam longos períodos de tempo sentados…
    Essas recomendações deveriam ser passadas junto às intruções de segurança. Quem sabe dessa forma as estatísticas melhorassem.
    Parabéns pelo post!

  • http://www.facebook.com/luctimm Lucas Timm
    • Goytá

      Por algum motivo, o TViG nunca funciona aqui em casa, em navegador nenhum (acho que meu firewall deve bloquear, mas não sei por que só bloqueia vídeos de lá). Mas localizei a matéria em outros sites. Pode ou não ter sido um caso de embolia, mas o que me chamou a atenção foi que a Infraero foi avisada da emergência, mas o socorro não estava à espera da passageira no desembarque. Chamados de novo quando a passageira desmaiou na “jet bridge” ao desembarcar amparada pela tripulação, ainda demoraram mais de 20 minutos para darem o ar de sua graça. Se eu fosse da família dessa passageira, processaria a Infraero por uma fortuna e ainda iria ao Ministério Público oferecer denúncia criminal contra quem quer que estivesse de plantão no aeroporto naquela hora. Isso é inadmissível!

  • http://www.facebook.com/vanessafrehley Vanessa Frehley

    Eu fui no vascular para fazer um exame só para ver se estava tudo bem, como viajo para Miami e NY em Outubro, perguntei sobre as meias e ele me deu realmente essa recomendação. Além das meias, os exercícios (simples) que você passou. E nada de calça apertada! Infelizmente com essas poltronas mega desconfortáveis fica complicado.

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