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Sobre o acidente com um Antonov 148 da Saratov Airlines na Rússia

Foto do An-148 acidentado

No último dia 11 de Fevereiro de 2018, um Antonov AN-148-100 da Saratov Airlines, com matrícula RA-61704 que faria o voo 6W-703 de Moscou para Orsk sofreu um acidente com 65 passageiros a bordo e mais 6 tripulantes, infelizmente não houve sobreviventes. A aeronave decolou da pista 14R e ao atingir 1800 metros, desceu rapidamente e foi perdido contato radar. Os destroços foram encontrados a 26 km de distância do aeroporto.

Já foi aberta uma investigação criminal verificando se a empresa cumpre a legislação aeronáutica, com ênfase no setor de manutenção e no setor de despacho operacional. Ao mesmo tempo, o órgão investigador de acidentes aéreos russos (MAK) já iniciou os trabalhos e revelou informações preliminares após recuperar as duas caixas pretas do avião.

Informações iniciais dos dados de voo indicam que o aquecimento dos 3 tubos de pitot da aeronave estavam desligados (em OFF), enquanto nos 15 voos anteriores o aquecimento estava ligado. De acordo com os relatórios liberadas pelo MAK, ao atingir 1300 metros e com uma velocidade de 250 nós (465 km/h), houve uma diferença de indicação de velocidade entre os pitots 1 e 3, sem registro do pitot 2. Não houve registro também de diferença de altitude entre eles (altitude é medida através de pressão estática do ar, enquanto a velocidade é a mistura das medidas de pressão estática e dinâmica). Ao atingir 1800 metros, a velocidade indicada pelo pitot 1 aumentou consideravelmente enquanto a do pitot 2 diminuiu e uma mensagem de falha foi emitida para o painel dos pilotos. Este tipo de discrepância é condizente com formação de gelo no orifício calibrado do tubos de pitot. O piloto automático foi desconectado e uma descida com 35 graus de nariz para baixo foi iniciada, o ângulo permaneceu por volta de 30 graus abaixo do horizonte até o impacto com o solo.

Estes foram os fatos liberados até o momento. É claro que com a liberação dessas informações, aumentaram muito as especulações sobre as causas do acidente, então vou mostrar-lhes o quanto é importante aguardar um relatório final.

Parece meio inacreditável (e improvável) que um avião decole com o aquecimento dos tubos de pitot desligados, principalmente na Rússia, que opera sob condições adversas de gelo e neve a maior parte do tempo. Embora eu não conheça o AN-148 (o único manual técnico que encontrei na net era pago e estava escrito em russo, o que não ajudaria muito), encontrei fotos do cockpit que revelam um avião com design moderno (MSG-3) e com sistema de controle de voo Fly-By-wire. Não encontrei a informação se os tubos de pitot são aquecidos automaticamente ou se precisam de intervenção manual. Mas o que chama atenção na foto a seguir é o EICAS/ECAM (não sei que nome os russos dão para tela central de aviso de panes para os pilotos).

Cockpit AN-148

Percebam que no painel central, logo abaixo da linha vermelha há 3 linhas de texto em amarelo escrito:
PITOT 1 NO HEAT, PITOT 2 NO HEAT, PITOT 3 NO HEAT

_Quais seriam as chances de um piloto (dois pilotos na verdade não é?) decolar com mensagens de falhas graves assim no painel de instrumentos?
_Será que eles ignoraram as indicações?
_Será que as indicações falharam ou foram inibidas [lembrando que cada tubo de pitot é alimentado por uma fonte de energia diferente].
_Será que o projeto da aeronave permite que a aeronave decole sem emitir um avisou aural de falta de configuração?
_Que tipo de treinamento os pilotos da Saratov Airlines recebem para “unreliable airspeed”?
_Se Houve indicação discrepante, houve alarme de stall?
_Por que os pilotos iniciaram uma descida tão “agressiva” para recuperar um stall que não estava ocorrendo?

Estas são apenas algumas perguntinhas sobre o tão pouco que foi divulgado, por isso as pessoas não podem tirar conclusões de que “a falta de aquecimento dos pitots causou o acidente”.

E para os que perguntam porque o sistema de aquecimento dos tubos de pitot não é automático, na verdade ele é na maioria dos aviões mais modernos (família Airbus, Boeings 747 em diante). No 737 é necessário ligar o aquecimento, e se não for ligado, diversas luzes anunciadoras ficam acesas (além da Master Caution), então as chances de não ligar são quase nulas.

Painel superior de um Boeing 737

Espero que estas informações ajudem a entender a complexidade envolvida em um acidente aéreo, e que o fato de somente o aquecimento dos pitots estarem desligados não levaria uma aeronave ao chão. E aqui tem um velho, bem velho vídeo em que mostro um tubo de pitot de pertinho.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
  • Gabriel Cavalcante

    A alguma chance dos tubos de pitot terem sido obstruídos por alguma outra coisa que não fosse gelo? Ou que o aquecimento não tivesse funcionado?

    • Karlos Edw

      Como Lito citou no texto, a obstrução ou congelamento dos tubos de pitot não justificam a queda do avião.

      • Gabriel Cavalcante

        Ciente amigo, apenas gostaria de saber se alguma outra coisa poderia ter obstruído os tubos e causado uma interpretação de velocidade errada, o que levaria os pilotos a pensarem que estavam estolando por exemplo.

        • Karlos Edw

          Então, como o aquecimento deles estava desativado e o acidente ocorreu em lugar muito frio a hipótese de que houve formação de gelo nos tubos é muito forte, mas a certeza só no final das investigações.

    • Rodrigo Godinho

      Marimbondo adora fazer casa neles, por isso em solo por longo período, geralmente colocam proteções para evitar esse problema.

  • Não sei quem mais teve esta impressão, mas eu achei esse avião muito parecido com o avião da Chape.

    • R Costa Cordeiro

      é parecido, mas não é o da chape, aquele lá era um BAE RJ 146, de 4 motores, e era de fabricação inglesa, esse aí é de fabricação ulcraniana.

      • Verdadeiro

        Ucraniana*

    • Karlos Edw

      Parece mesmo, mas o da Chapecoense não era russo.

  • R Costa Cordeiro

    só um lembrete:

    o manual q você encontrou do AN-148 não esta escrito em russo, esta escrito em ucraniano mesmo.
    são dois idiomas diferentes.

    • Luiz Cardoso

      Isso nao eh um lembrete. Eh uma correcao. Patria Educadora

    • Luiz Cardoso

      The Ukrainian language is very similar to the Russian, and is understandable for the average Russian native speaker,

    • Nicolas777

      Correto. Estive na ucrânia algumas vezes, e tenho amigos russos e ucranianos. São línguas que, mesmo sendo “parecidas” uma com a outra, são diferentes. Na escrita, na fala e nas letras do alfabeto cirílico.

  • GMNM1

    O que acha daquela foto vergonhosa do Windersson Nunes e o Ttirulipa. Você ainda continua achando ele um exemplo para as crianças?

  • Alexandre clemente de Freitas

    Desculpem a observação de um leigo, mas parece que na aviação comercial com aviões de grande porte, os pilotos perdem toda aquela essência de quando eles começam nos aviões pequenos, onde se voa também por aquele feeling de saber qual a velocidade, altura sem precisar tanto dos instrumentos. Parece que esses pilotos de aviões de grande porte quando perdem essas referências dos instrumentos ficam que nem cego em tiroteio, não sabem pra onde vão, onde estão, completamente perdidos. É assim mesmo que funciona ? Claro que no acidente do voo Rio/Paris era noite no meio de uma tempestade, e ai não tem como ter referência nenhuma mesmo….porém acho que aqueles pilotos de garimpo são mais pilotos que os almofadinhas de companhia aérea.

    • Verdadeiro

      Amigo, também sou leigo no assunto, achei bastante interessante seu comentário e acho que essa é a visão na verdade de quase todo mundo, mas vale lembrar que o piloto de aviões comerciais grandes e totalmente adaptado a instrumentos já foram em algum momento da sua carreira pilotos de “teco-teco” e aprendem todos os princípios básicos da aviação na prática, muitas vezes (creio eu) sem os instrumentos sofisticados dos aviões ultra modernos de companhias aéreas renomadas que investem milhões na compra do que há de mais novo no mercado. Um abraço.

  • Jhonnathan Kunz de Souza

    Eu já gostava do canal do Youtube agora serei assíduo aqui no blog.

    Brilhante esclarecimento sobre o Tubo.

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