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Tristeza com o acidente de hoje – Helicóptero da Record

Não tem como não comentar sobre o acidente de hoje com o helicóptero da rede Record.
Se eu pudesse falar apenas uma coisa para quem trabalha em manutenção, eu diria:

Os pilotos não têm nenhuma chance.

Só isso.

Só isso seria necessário para que você, mecânico, nunca esquecesse durante todos os dias da sua vida profissional o quanto é importante TUDO o que fazemos quando colocamos nossas mãos em um sistema significante de uma aeronave.

Não estou dizendo que houve uma falha de manutenção, pois não é possível ainda definir o que causou o acidente, mas houve uma falha mecânica. O que causou esta falha mecânica é que vai ser descoberto nas investigações do Cenipa.

Mas ao ver as cenas do acidente não tem como ficar com um nó na garganta.

Nas causas de acidente na nossa época, o fator humano está relacionado a quase 90% das ocorrências.
Na nossa profissão, não podemos aceitar pressão. E tem sempre pressão de todos os lados: Tem horário pro voo sair, tem a chuva que tá chegando, tem o aeroporto que está pra fechar, tem a matéria que tem que ir pro ar, tem um voo lotado indo para as férias nos Estados Unidos, tem pouco tempo pra trocar aquela peça complicada, tem passageiro reclamando que vai perder conexão, tem Infraero cobrando a posição no gate pra outro voo, tem tudo de todos os lados.
Aprenda a esquecer tudo isso e foque no seu trabalho, lembre-se sempre de uma coisa: é muito mais fácil responder um relatório de atraso ou cancelamento e tomar uma “enrabada” do chefe, do que ter que responder uma investigação sobre um acidente.

Nós temos a chance de se recusar a usar um o’ring fora do padrão. Nós temos a chance de não esconder aquele vazamento. Nós temos a chance de dar o torque correto, usando o torquímetro correto. Nós temos a chance de não fazer coisas erradas se não tiver recursos. Nós temos chance de conseguir outro emprego.

Os pilotos nunca têm chance.

:(

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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