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Turbulência de céu claro fere 27 pessoas, que estavam sem cinto.

Um voo de rotina da Aeroflot de Moscou para Bankgok não terminou bem para 27 pessoas que estavam a bordo quando a aeronave enfrentou uma forte turbulência de céu claro. A aeronave VP-BGD, um Boeing 777-300ER transportava 313 passageiros quando durante a descida para o destino encontrou CAT (Clear Air Turbulence / Turbulência de Céu Claro). A aeronave pousou normalmente na pista 19R de Bangkok, mas os passageiros que estavam sem cinto não pousaram muito bem.

Turbulência é o tema que mais causa medo nas pessoas que têm medo de voar e que fazem coaching comigo. Entendendo o que ocorre e porquê ocorre gera uma sensação de conforto muito maior nos voos (para saber detalhes sobre o coaching para quem tem medo de voar, envie um email para comercial @ avioesemusicas.com).

Eu já disse aqui, aqui e aqui que todos devem manter o cinto de segurança afivelado o tempo todo caso estejam sentados. Esse caso da Aeroflot ilustra bem: a aeronave já estava em procedimento de descida, então não era hora de ir ao banheiro ou estar sentado sem o cinto. Enquanto houver passageiros relutantes em seguir as normas de segurança, teremos notícias de pessoas feridas dentro de um avião.

Se você acha que é brincadeira o que pode acontecer, vejam este vídeo simulado de um evento que aconteceu em um avião da Air Canadá e foi investigado pelo TSB, órgão de investigação e prevenção de acidentes daquele país.

Eu disse no twitter que um avião não se machuca na turbulência e que os pilotos sempre estão com os cintos afivelados. Em relação à primeira afirmação, é claro que existem exceções: entrar em um CB carregado de granizo vai causar alguns machucados em um avião, mas o fato é que o avião continuará voando e pousará normalmente. Já a segunda afirmação foi “combatida” por vários seguidores dizendo que diversos vídeos no YouTube mostram os pilotos soltando o cinto após a decolagem.

Ah meus jovens, isso que vocês veem eles soltando não é o cinto de segurança, é o “shoulder harness”. Os cintos dos pilotos são de 5 pontos, que devem estar obrigatoriamente afivelados durante pousos e decolagens. Após determinada altitude ser atingida, eles podem soltar apenas os pontos dos ombros, e é isso que os jovens viram nos vídeos. Acharam que eu estava mentindo ou acharam que é sempre “sorte” nenhum piloto se machucar durante turbulências severas? Vejam neste desenho, eles soltam apenas a parte verde.

Assento de um observador – similar ao dos pilotos.

E como você pode garantir que não acontece nada com o avião?

No início deste ano um avião a jato executivo entrou em uma esteira de turbulência de um Airbus A380 e pousou em emergência. Todos os 5 passageiros se machucaram e o avião deu perda total. Então pode acontecer algo grave?
Bem, em primeiro lugar é preciso entender que uma esteira de turbulência é um evento causado por outra aeronave, não é um fenômeno meteorológico “natural”, por isso muito mais grave e que já causou diversos acidentes no passado. Em segundo lugar, o avião pousou, ou seja, permaneceu voando apesar da violência do encontro (Davi x Golias). O fato de ter dado perda total se deve ao fato do modelo ter ultrapassado os limites de Força G para o qual foi projetado.

Quando aeronaves são desenhadas, elas possuem limites estruturais bem definidos, nos quais nós da manutenção baseamos nossas decisões. Por exemplo, quando um avião encontra turbulência severa, a manutenção tem que fazer uma inspeção especial, que é “faseada”. Quando se encontra algo errado em algum lugar, passa-se à próxima fase. Se na fase 1 estiver tudo “ok”, encerra-se o processo e o avião volta para a linha de voo.

Trecho de Manual de Manutenção

Raramente a inspeção passa para a fase 2, o que indica uma resistência estrutural super dimensionada para enfrentar fenômenos atmosféricos. Portanto, ao enfrentar turbulência, relaxe que o seu avião está passando muito bem, mas não esqueça de manter o cinto afivelado.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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