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Um avião para chamar de seu

Já sonhou em ter seu próprio avião, mas desistiu da ideia pensando que isso é coisa de milionário?

Se a resposta para a pergunta formulada for sim, a possibilidade de a segunda premissa mudar e de o seu sonho se realizar aumentará em progressão geométrica ao final deste post.

Meu sonho em ser piloto de avião e como eu o realizei já foi objeto de postagem por aqui, quando falei sobre meu primeiro voo solo. Mas hoje o papo é sobre outro sonho, que muitos pensam ser inatingível: ter um avião para chamar de seu.

Ser proprietário de uma aeronave importa em muitos custos, que normalmente não são baixos. Há despesas com hangar, manutenção, limpeza, combustível, etc. Obviamente o objetivo desta postagem não é elaborar um estudo minucioso a esse respeito, mas sim demonstrar que é possível a uma pessoa de classe média possuir um avião para se divertir, inclusive realizando pequenas viagens.

Bem, primeiro você vai precisar de um avião. Há diversos modelos no mercado, com características, tecnologia e preços tão diferentes quanto os que separam um Fiat 147 de um Toyota Prius. Abaixo alguns exemplos:

Um Fox V2, ultraleve básico – carinhosamente apelidado por mim de “cadeira de praia com asas” – com motor Rotax dois tempos de 50hp, velocidade de cruzeiro de 55mph (assombrosos 90 km/h rs), que é encontrado no mercado de usados custando entre R$ 15.000,00 e R$ 25.000,00. Foto do meu arquivo pessoal.

Um Fox V2, ultraleve básico – carinhosamente apelidado por mim de “cadeira de praia com asas” – com motor Rotax dois tempos de 50hp, velocidade de cruzeiro de 55mph (assombrosos 90 km/h rs), que é encontrado no mercado de usados custando entre R$ 15.000,00 e R$ 25.000,00. Foto do meu arquivo pessoal.

Um Bravo 700, ultraleve avançado com motor Rotax quatro tempos de 100hp, velocidade de cruzeiro de 100mph (160 km/h), que usado custa cerca de R$ 100.000,00. Foto do meu arquivo pessoal.

Um Bravo 700, ultraleve avançado com motor Rotax quatro tempos de 100hp, velocidade de cruzeiro de 100mph (160 km/h), que usado custa cerca de R$ 100.000,00. Foto do meu arquivo pessoal.

Um RV-9A, ultraleve avançado com motor Lycoming de 160hp, velocidade de cruzeiro de 190mph (306 km/h!), que chega a custar R$ 300.000,00. Foto retirada do site do fabricante.

Um RV-9A, ultraleve avançado com motor Lycoming de 160hp, velocidade de cruzeiro de 190mph (306 km/h!), que chega a custar R$ 300.000,00. Foto retirada do site do fabricante.

Pois bem, já escolheu o seu? Sendo a resposta positiva, você vai precisar de um hangar para guardá-lo, cuja vaga é chamada no meio aeronáutico de “hangaragem”. Esse custo pode variar de forma absurda, do mesmo jeito que o aluguel de um apartamento varia de uma cidade para outra ou mesmo de um bairro para outro. Varia também em razão do tipo do avião, se é um ultraleve básico ou um ultraleve avançado, por exemplo. Vejam alguns preços de que tenho conhecimento:

– Em Pindamonhangaba/SP, um ultraleve básico é “hangarado” por R$ 220,00;

– Em Campo Belo/MG, há vagas de hangar para todos os tipos de aeronave por R$ 350,00;

– Em Belo Horizonte, no Aeroporto Carlos Prates, uma vaga para um ultraleve avançado ser guardado no pátio aberto do aeroclube, submetido a todas as intempéries, custa R$ 800,00;

– Na Barra da Tijuca/RJ, no Clube da Aeronáutica, a hangaragem de um básico sai por R$ 350,00 e a de um avançado por R$ 450,00, mas é só para sócios e conseguir uma vaga é uma tarefa hercúlea.

Decidido onde seu avião será guardado, é necessário contratar o serviço de limpeza mensal da aeronave (em torno de R$ 100,00) e também o serviço de manutenção, que vai cuidar para que você decole e pouse como e onde planejado (não é à toa que chamamos nossos mecânicos de anjos da guarda!). Em um ultraleve básico, com motor dois tempos, as revisões são feitas a cada 25 horas e custam em média R$ 500,00 cada uma, podendo variar para mais (e apenas para mais! rs). Como os aviões com apenas um proprietário voam em média 50 horas por ano, podemos dizer que você terá no mínimo um custo de R$ 1.000,00 por ano somente com a manutenção.

Há também custos com o RIAM (Relatório de Inspeção Anual de Manutenção) e dos seguros RETA (como se fosse os DPVAT dos aviões), mas não vou entrar em detalhes, pois não é a finalidade do post.

Se você quer começar com o mais simples e o mais barato, optará por um ultraleve básico, que já é capaz de garantir muita diversão e possibilita até mesmo pequenas viagens, desde que seu piloto tenha paciência (55mph, lembra-se?). Nesse quadro, você terá investido cerca de R$ 20.000,00 na aquisição do equipamento e terá um custo fixo mensal de aproximadamente R$ 500,00 (aí já incluída a manutenção, diluída mês a mês). Mas é claro que você vai querer usar o seu aviãozinho, não é?

Então vamos acrescentar a esse valor o custo do combustível: o consumo fica em torno de 15 a 20 litros/hora tanto para o básico quanto para o avançado (o RV9-A, porém, consome cerca de 30 litros/hora, somente de AvGas). Considerando que a AvGas custa cerca de R$ 4,70/litro, mas também há a possibilidade de se voar com gasolina Podium (3,50/litro) ou até mesmo gasolina comum (R$ 2,89/litro), sua hora de vôo custará entre R$ 50,00 e R$ 100,00, já levando-se em conta o preço do óleo dois tempos (utilizado na proporção de 50/1). Assim, voando apenas 1 hora por semana, no final do mês você terá gastado de R$ 200,00 a R$ 400,00 só com o combustível.

Computando-se tudo, mesmo com um equipamento básico, fica caro não é? A essa altura você já deve estar pensando que aquele lance de desistir do sonho por se tratar de coisa de gente rica é o mais sensato a se fazer! Imagine se a minha esposa/meu marido descobre que custa isso tudo para ter um mero ultraleve básico! Eu, que sempre sonhei em ter meu próprio avião, quando via os aeroclubes infestados de aeronaves desportivas voando nos finais de semana, concluía que só poderia haver muita gente rica no mundo.

Bem, tirando o fato de que realmente há muita gente rica no mundo, o que eu descobri é que a maioria dos donos desses aviões não é herdeira de Hassanal Bolkiah, sultão de Brunei, mas é composta de pessoas que pertencem à classe média e que compram as aeronaves “em sociedade” com outros colegas aviadores, desonerando tremendamente o seu custo final. É aí que surge a figura da chamada sociedade na compra de um avião, que tecnicamente falando se trata de uma propriedade em condomínio.

No exemplo hipotético do ultraleve básico que eu dei acima, se dividirmos os custos entre quatro amigos pilotos, a aquisição do avião sairá por R$ 5.000,00 e o custo fixo mensal despencará para R$ 125,00 para cada um dos felizes “sócios”. E se o voo for realizado junto com o seu amigo/sócio, o custo do combustível também poderá ser dividido. Soa muito melhor, não é?

Ok, Gabriel, mas e se todo mundo quiser usar o avião na mesma hora? Bem, sociedade é como um casamento, em que a palavra de ordem, acho eu, é tolerância. Pode até ser que no início a empolgação com a nova aquisição gere voos mais frequentes, mas com certeza com o tempo haverá finais de semana em que o avião sequer sairá do chão. E minha experiência diz que os vôos durante o final de semana não costumam ultrapassar 1h de duração. Além disso, as pessoas vão ao aeroclube para encontrar amigos e conversar sobre avião. Se sobrar tempo, voam.

Então, se você possui esse sonho, procure um clube de vôo, matricule-se na escola, e tire sua habilitação. Lá você conhecerá pessoas, que te apresentarão outras pessoas e, com o tempo, você estará enturmado e encontrará alguém para, finalmente, ter um avião para chamar de nosso.

 

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Sobre o Autor

Piloto de aeronaves leves por paixão. Adora voar e bater um bom papo de hangar.
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