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Um “causo” entre tantos – Salvando um voo do cancelamento

Este “causo” aconteceu com um colega, que também trabalha em empresa estrangeira, só que baseado em algum lugar do Nordeste. Ele me escreveu contando uns detalhes e eu adaptei só um pouquinho pra poder publicar.

A diferença de se trabalhar “”baseado” (fora de uma base de manutenção principal) é que a infraestrutura é bem menor e o apoio, tanto de materiais quanto de ferramental e pessoal é bem escasso.

Este colega trabalhou comigo na UA, e um dia me chamou para conversar sobre a possibilidade nova que se abria para ele naquela época, eu disse: acredito que você não vá se arrepender, trabalhando em baseamento você vai aprender muitas coisas nova, e experiências que a UA nunca vai te proporcionar, porque quando estiver sozinho, tudo vai depender de você.

Segue o relato dele de um dia em baseamento.

Certo dia, após o walkaround do Co-piloto (lembram que falei da inspeção de pré-voo neste tópico aqui?) fui informado de que um misero rebite com cabeça de 1/8″ estava faltando no Lower Pan do Pylon ( área quente ).

Até que o Technical Services (uma espécie de autoridade e apoio de manutenção via telefone) me mandasse alguma coisa palpável com autorização para instalar um rebite similar no local, fiquei correndo por todo o Aeroporto procurando uma Cherrymax (ferramenta pneumática para cravar rebites do tipo Cherry)… não encontrei nem rebites cherry nem a Cherrymax… a solução então seria a instalação de um reparo temporário autorizado no ultimo minuto pelo Technical Services para aplicar Hight Temp Selant ( Selante de alta temperatura) no lugar do rebite….

Nota do Blog: os mecânicos trabalham sempre baseados no manual de manutenção. Quando algum reparo sai fora do escopo do manual, uma autorização precisa ser recebida de um nível superior para efetuar reparos provisórios, geralmente limitados por tempo (horas de voo).

Por#**!!! Sai correndo de novo e depois de muito vagar descobri também que não tem nenhuma empresa com este tipo de selante neste maldito aeroporto!?!… mais um pouco de correria e achei um tubo de selante quase seco na .

Ufa…..!! O voo agora vai sair…com atraso mas vai sair, penso eu….

Não vai… vai cancelar, me informam…

Mas por que? Eu corri feito um cachorro pro voo sair!

O problema é que faltavam minutos para a tripulação regulamentar pois o voo saindo daqui faz uma escala em REC, portanto, caso um atraso aqui seja superior a 1 hora, ele cancela por regulamentação (regulamentação é o numero de horas possíveis que um piloto ou comissários podem ficar em serviço, se a hora for ultrapassada o voo é cancelado)

Lembrei do seu blog quando você disse uma vez para colocar “mais um pouquinho de pressão pra ficar melhor… o ombro é largo.. ri muito…. e os olhares dos passageiros para o mecânico… ri mais ainda….

Continuando… Não cancela o voo não… dei um grito, “me coloca como deadhead ” que eu fecho a porta, afinal so faltava assinar o logbook e fazer a parte burocratica… e com a porta fechada não é possível regulamentar pois já se considera em voo. Pior é que eu nem sabia como ia retornar, já que não havia voo de retorno neste dia, mas ia dar um jeito.

“Caro comandante, tudo certo e em tempo …só que preciso acrescentar algumas coisas no livro das referencias usadas para este problema….por isso vou a bordo ate REC. ”

Sem perguntas, acreditou no brother aqui e levantou voo.”

O problema é que não tinha papel nenhum de referencia comigo… a impressora falhou na hora H… o livro de bordo estava em branco… o Co-piloto de cara feia… ( alias eu e ele … o santo não bate.. ele ja tentou me aprontar mais umas duas depois dessa… sempre com algum achado especial para manutenção…….) e eu com o livro em baixo do braço ate REC.

Ao chegar em REC, o livro de bordo estava lindo.. preenchido “as per FAA requirements”.

O Voo foi salvo… depois tive que explicar para o Chefe que precisava voltar de uma viagem que não deveria ter acontecido, mas quando expliquei a ameaça de cancelamento, não houve muita saia justa com ele.

Quis contar essa historia porque gostei muito das suas historias antigas….. as do acompanhamento de voo, estavam demais. Parabéns pela linguagem usada… fica gostoso de ler…

Acredite, mais de 10 anos se passaram e ainda as coisas não mudaram em alguns lugares de nosso pais em relação a aviação.

Mas agora estou 10 vezes mais apaixonado pelo que faço. Aqui to estudando pra caramba todos os dias… e to vivendo a frase que disse sobre quando perguntam se gostaria de ser piloto.. estou feliz por manter os aviões voando seguros e só !! Sem material e ferramenta, depende muito mais da gente. Outro dia, eu estava com o avião no solo.. com um wiring manual referente ao parking brake…a cabeça queimava ..

Nunca pensei em guardar algumas fotos… mas to gostando da ideia… Quem sabe meu filho goste no futuro dessas historias…

Fica com Deus., sinto muita saudade de todos e de tudo. Isso porque não fui para a África como você… hehe … Gosto de olhar o blog e saber que te conheço.

Você se lembra da pior coisa que tínhamos trabalhando na UA??
To com saudade disso também !!! Mas to feliz aqui…

Um abraço.

A.

Boa sorte ai A., tenho certeza que hoje em dia você está mais feliz sim, apesar da pressão e de toda a carga de trabalhar sozinho em uma base sem recursos.

Experiência e saber não ocupam espaço, dizia um antigo chefe meu na Varig :)

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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