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Um delírio nordestino na aviação

“Mente vazia, oficina do diabo”. Já ouviu esse ditado? Pois bem, em dezembro de 2012, fiz uma aposta naquela mega-sena da virada. Se não me falha a memória, daria uns 200 milhões e aí na falta do que fazer, de folga em casa, comecei a devanear em como gastaria o dinheiro. Na época, a TRIP tinha feito o phaseout de seus ATR42-300 que estavam à venda por uma média de 3 a 4 milhões de USD. Então, iniciei a brincadeira!

Lá por volta de 2002/2003, a Virtual Airline que eu tinha, criou uma subsidiária chamada Oceânica, que operaria voos no Nordeste com 737-200 e teria como sócia a “LAPISA – Linhas Aéreas Piauienses S.A”. A brincadeira virtual ficou com esse nome guardado na cabeça e, agora com volante de jogo na mão, era a hora de exercer aquilo que muitos dizem ser uma qualidade minha: CRIATIVIDADE.

Bairrista (risos), optei pelas cores da LAPISA serem as mesmas da Bandeira do Piauí, verde, amarelo e azul. De início, queria bolar algo similar ao que a American Airlines fez na cauda do avião com a bandeira, mas além de ser cópia, ficou feio, então optei por um degradê. Quando se pensa em Piauí, o que vem à mente? Um sol quente da peste, não é mesmo? Não tem garrafa de cajuína gelada que dê jeito na parada! Pois bem, a LAPISA tinha cor, daí peguei um EMB120 Brasília e pintei nas cores da companhia de bandeira do Piauí. A essa altura o pote de maionese já havia perdido metade do seu conteúdo, pois assim como aviões necessitam de AVGAS/JET A1 para voar, eu preciso de maionese. Mentira, eu preciso mesmo é de catchup em uma pizza de mozzarella! O resultado do EMB120? Veja logo abaixo:

e120_lpi

O prefixo foi personalizado como PP-PHB, em referência ao código IATA da cidade de Parnaíba, local onde o avião pernoitaria. Nesta “viagem” toda, eu já havia perdido noção da realidade, era 23 de Dezembro e não tinha o que fazer, então, por que não desenhar uma malha? Primeiro vale lembrar que sou Piauiense e, portanto, conheço o potencial da terra, logo, os valentes EMB120 (seriam dois, pois para uma empresa voar RBAC 121, tem que ter no mínimo dois aviões), voariam a seguinte malha:

EMB120-01

23456S- Parnaíba 06:30 / 07:10 Teresina
23456S- Teresina 07:40 / 08:30 São Luís 09:00 / 10:00 Belém
23456S- Belém 10:30 / 11:30 Imperatriz 12:00 / 13:10 Teresina
23456-D Teresina 17:10 / 18:20 Imperatriz 18:50 / 19:50 Belém
23456-D Belém 20:20 / 21:20 São Luís 21:50 / 22:30 Teresina

EMB120-02

23456S- Teresina 07:30 / 08:40 Fortaleza
23456S- Fortaleza 09:10 / 10:20 Teresina
23456– Teresina 13:20 / 13:50 Floriano 14:10 / 14:30 Picos 14:50 / 15:20 Petrolina 15:50 / 17:00 Teresina
23456-D Teresina 19:00 / 20:10 Fortaleza
23456-D Fortaleza 20:40 / 21:50 Teresina
23456-D Teresina 22:40 / 23:20 Parnaíba

Notem a conexão da malha com paxs vindo de BEL-SLZ-IMP, para o voo no Interior do PI e conectividade com Parnaíba, principal destino turístico. Não satisfeito, fui ver o custo do EMB120, cerca de 3.500 reais a hora de voo na época (incluí reserva de manutenção, combustível, óleo, salário dos tripulantes e staff). A capacidade do EMB120 é de 30 assentos, logo, fariam as tarifas irem ao espaço. Não resisti e fui atrás do meu amorzinho, 25 nós mais lento, porém 15 assentos a mais e uma graninha a mais de custo também, porém, na escala seria mais rentável: o ATR42-300, agora na frota.

e120_lpi2

O PT-THE, que seria batizado de Rio Poty ou Cabeça de Cuia (risos) – elementos da cultura local – teve o nome da companhia expandido na fuselagem, como também a bandeira dos estados em que voaríamos e, aí eu pirei de vez, a LAPISA virou plano de negócio, com apoio da ATR. Com planilha de custos e valor de leasing, fiz um headcount a sério, seguindo a CLT, era como se eu tivesse fazendo uma monografia de faculdade, seguindo passos do SEBRAE quanto ao plano de negócio, consultas a Secretaria de Turismo do Estado etc. Afinal, o sol na cauda do avião tinha um significado além do calor exuberante do Piauí, o sol nasce para todos… A essa altura, a mega-sena já tinha saído e eu, como sempre, feito ZERO PONTO.

Em Julho de 2013 estive pessoalmente no Piauí, fui ver o “mercado” de perto, analisar estatísticas de passageiros, me debrucei no passado da aviação local, conversei com pessoas, fui à rodoviária ver a demanda de passageiros, conheci a economia, PIB e estrutura de cada cidade, adicionei São Raimundo Nonato ao mapa de rotas (não aparece na imagem) e já que estava levando a sério, fui fazer o levantamento de cada aeroporto, caso eu “solicitasse HOTRAN na ANAC” e, então, meus amigos, esse artigo nasceu. Achamos caro passagens regionais, não é mesmo? Pois bem, da malha da LAPISA, logo de cara eu perderia 3 destinos no interior do PI, por falta de Corpo de Bombeiros no Aeroporto, além de Raio-X, reabastecimento etc. Para servir a Picos, cuja economia é pujante, eu teria que retirar passageiros do ATR e fazer o mesmo entrar no envelope de voo para decolar da diminuta pista local. Floriano (FLB), que era outro destino, também travava nos Bombeiros e Raio-X, e São Raimundo Nonato nem sequer estava com o aeroporto pronto (até hoje não está). Resultado: tive que cortar destinos, pois apesar da ligação THE – PNZ ter demanda, era o interior que ajudaria a lotar o avião. Sobraria o mercado de eixos THE-FOR / THE-SLZ-BEL e servir a PHB – Parnaíba. Meu excel mostrava uma receita linda, até eu entrar com a folha de pagamento, custos administrativos e, claro, nossa gloriosa carga tributária, os números eram claros: a LAPISA deveria voar com 100% de ocupação sempre (o que é impossível) ou, caso contrário, experimentaria resultados negativos. Enxuguei a folha salarial e a malha encolheu o suficiente para rodar com um só ATR, mas quem iria pagar o leasing dos outros?

O produto LAPISA então foi redesenhado, com uma malha assim:

ATR42-01 – PHB-THE / THE-FOR-THE / THE-PHB-FOR-PHB-THE / THE-FOR-THE / THE-PHB

ATR42-02 – THE-SLZ-BEL / BEL-IMP-THE-IMP-BEL / BEL-SLZ-THE

E120_LPI4

O público corporativo de cidades extremamente ligadas à Teresina seria atendido em horários muito bons, podendo ir e voltar no mesmo dia, sem gastar com hotel. O serviço de bordo seria não perecível, com kits de biscoitinhos e refrigerantes (além de cajuína, claro…). A LAPISA gastaria só de leasing, 200 mil dólares mensais. O ATR42 apresentava ponto de equilíbrio de 37 passageiros, adoráveis 11 seriam o lucro caso voasse lotado. Tomei gosto pelo estudo do negócio, o que rendeu um outro projeto maior, mais embasado, me levando a buscar a MBA em Gestão Aeronáutica, para que um dia, quem sabe, saia do papel. Antes de ir para a MBA, eu escrevi um artigo chamado “A rua principal da cidade”, publicado no dia 4 de Novembro de 2013, no Jornal O DIA da capital Piauiense. Focado exclusivamente no mercado local, “implorei” a redução de impostos para viabilizar aviação no PI. Uma versão diferente foi publicada aqui, no AeM. Coincidência ou não, no dia 4 de Dezembro de 2013, o Governo do Piauí baixou o ICMS do JET A1 no estado, e a Azul ocupou o meu mercado iniciou voos para Parnaíba e Teresina.

Aprendi o seguinte com esse devaneio, que quase atingiu a outra mega-sena da virada (risos):

1. Mercado para aviação regional, o Brasil tem de sobra, o que falta é INFRAESTRUTURA.

2. Aviação é algo extremamente caro. Já dizia o ditado: “Avião e mulher loira, tem quem pode!”, pois desde os salários até os tributos, para uma empresa com 2 ou 20 aviões, a estrutura é a “mesma”.

3. Combustível no Nordeste é muito caro! 7 reais o litro do Querosene, é o que me cobrariam em Teresina, pois bem, só para efetuar o THE-FOR-THE eu precisaria de 2.000 Kilos, ou simplesmente 2.800 litros (densidade 0,7 padrão). Quanto custaria o abastecimento? 19.600 reais, 435 reais por assento! Claro que uma empresa aérea conseguiria desconto na compra em larga escala, mas mesmo que coloque aí metade do valor, teríamos 10.000 reais só de combustível.

4. Se você voa pouco, não ganha dinheiro. Isto é, avião tem que voar o máximo possível.

5. Aviação não é transporte rodoviário. A escala de funcionários não tinha como ser maximizada, eu teria um staff grande, no entanto subutilizada. A LAPISA empregaria 113 pessoas de forma direta, entre administrativo, tripulantes, manutenção, aeroportos, comercial, etc. Mas, com 2 aviões?

6. Não ache que obter estatística junto ao governo é fácil, penei bonito! Ainda assim, a Prefeitura de Parnaíba me atendeu e enviou dados preciosos, depois a SETUR-PI me deu uma mão.

7. O empresário com calibre para “comprar minha ideia” é visto quase todo santo dia no seu shopping center, acha que o encontrei nos dias que fui lá?

8. Existem amigos que compram suas ideias e te ajudam. Por exemplo, não fiz as análises de pista sozinho… Tive comandante de ATR me dando uma mão. :)

9. Você sabia que só uma GPU elétrica para um ATR custa mais de vinte mil reais?

10. Você sabia que todo GSE (Equipamento de Suporte de Solo) tem que ter seguro de 1 milhão?

Se a LAPISA existisse, teria uma receita de 2,5 milhões de reais, com 60% de ocupação. Sua folha salarial responderia por 1/3 da receita. Nem vou contar quanto daria de impostos (ISS, ICMS, PIS, COFINS, IRPJ…). A partir daí, como tinha tomado gosto pela situação, desenhei outro projeto, agora voando em outros estados com um trio de ATR42-500, focado no agronegócio, que ainda está em desenvolvimento e, no momento, se voar com 85% de ocupação, gera lucro de 45 mil reais por mês. Empresas aéreas excelentes tem margem de lucro de 5%, só para constar.

Enfim, compartilho com vocês esse delírio nordestino, regado a muita cajuína (vale experimentar quem não conhece), rapadura de caju, pizza com catchup, suco de caju, uma dose de cara de pau e fé em um sonho. Hoje, a LAPISA voa firme no tráfego virtual do meu FSX, e quando estou voando no FSX e escuto um LAPISA chamar o Centro Recife, fico imaginando quantos empregos poderiam ter sido gerados, quantas pessoas unidas, regiões desenvolvidas… Vou ali jogar na mega-sena de novo, vai que eu dou azar de tirar uns milhões…

Dedico esse artigo a todos os loucos e loucas que embarcaram nessa ideia comigo e fizeram nascer um excel e powerpoint bem bonitos e profissionais, só não davam lucro…

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Sobre o Autor

Alexandre Conrado, pesquisador de aviação e profissional no segmento desde 2001
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