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Um disco como nenhum outro

Todo mundo já fez suas listas de discos, músicas, filmes e livros indispensáveis, os 10 ou 20 mais (com sorte, dedicação e principalmente cultura suficiente, listas até bem mais longas). Pois bem: nas minhas listas de discos, sempre entra um que considero absolutamente mágico, uma experiência artística inigualável que nenhum outro disco que conheço é capaz de proporcionar.

Resolvi falar desse disco por causa de uma conjunção de eventos. Primeiro, fui lanchar perto de casa e na lanchonete resolveram colocar o DVD de um show de pagode no último volume. Quase fui embora, mas a fome era muita, eu já tinha feito o pedido, a preguiça de sair e procurar outro lugar também pesaram, e acabei suportando a tortura, mas pensando o tempo todo que meus ouvidos não mereciam aquele cortejo de horrores.

O pior foi que estavam com as legendas ligadas e pude ver pedacinhos das letras das “músicas”, que normalmente ignoro. Eram invariavelmente celebrações do machismo e uma degradação da mulher, mesmo que disfarçada como declarações de amor. Verdadeiros hinos ao pior da natureza humana, e fiquei perplexo ao ver a quantidade de mulheres na plateia pulando animadamente ao som de “músicas” que incentivavam seus namorados e maridos a tratá-las como propriedade e objetos de uso pessoal. Mil vezes Sidney Magal (“se te agarro com outro, te mato…”), que pelo menos era engraçado e assim, no fim das contas, acabava expondo o ridículo do machismo. Mas como já dizia o Tears for Fears, “well, it’s a world gone crazy, keeps woman in chains”… :-(

Saí de lá deprimido, sem nem me lembrar que, felizmente, também há quem trabalhe para trazer o belo para este mundo. (Não, não estou falando do Belo, o pagodeiro!) Mas felizmente, fui lembrado disso depois, ao conferir as notícias e me deparar com uma matéria de João Marcos Coelho no Estadão On-Line, falando de um novo livro de Peter Elsdon sobre The Köln Concert, de Keith Jarrett, um concerto de piano gravado ao vivo na Ópera de Colônia (Köln), na Alemanha, em 24 de janeiro de 1975.

Koeln_Concert

A matéria logo me chamou a atenção, pois falava de um dos meus discos favoritos. E convenhamos, meus caros: quantos discos vocês conhecem que têm livros inteiros escritos sobre eles? Fora as resmas de papel e bits que já gastaram em artigos e até teses acadêmicas, dissecando não só a estrutura musical e o processo de composição insólitos desse disco, como o verdadeiro fenômeno de vendagem e popularidade que ele é. The Köln Concert é o disco de jazz mais vendido de todos os tempos: já vendeu mais de 3,5 milhões de cópias, uma vendagem que poucos astros pop conseguem. E também é o disco de solos de piano mais vendido de todos os tempos.

Ouvi falar pela primeira vez de The Köln Concert uns 30 anos atrás, quando finalmente lançaram no Brasil boa parte do catálogo da ECM (Editions of Contemporary Music), uma gravadora alemã de jazz contemporâneo, aclamadíssima pela excepcional qualidade do seu catálogo. Fiquei conhecendo alguns discos da ECM através do então namorado de uma amiga minha, um cara cultíssimo e colunista de música num jornal de Belo Horizonte. (A maior glória que vou levar para o túmulo é a de uma vez ter apresentado a ele um disco que ele nunca tinha ouvido: Orfeo Novo [sic], um disco antigo raríssimo do Egberto Gismonti, lançado só na Alemanha, que eu trouxe de lá. Por sinal, embora não seja o caso de Orfeo Novo, boa parte do catálogo do Egberto foi gravada na ECM, incluindo deslumbramentos como o intimista Solo, o premiadíssimo Dança das Cabeças e o estupendo Duas Vozes, com o deus da percussão, Naná Vasconcelos, e que eu considero o melhor disco dos dois — e isso não é pouca coisa!) Esse meu amigo também trabalhava numa das melhores lojas de discos de BH e comprei várias indicações dele e outras que apareceram nas resenhas da época. De pouquíssimas me arrependi, e em alguns casos considerei-me privilegiado por ter acesso àquela música fenomenal. The Köln Concert foi um desses casos.

Na época, como o disco chegou num lote com vários outros dignos de nota (nada gravado na ECM é banal, nem mesmo para os padrões do jazz, podem acreditar), a imprensa especializada brasileira não deu muitos detalhes, embora mencionasse que era um disco antológico, celebradíssimo e de grande impacto. Portanto, não fui preparado para o que me esperava… Mas não posso dizer que tenha ficado achatado logo de cara. Gostei, sim, de cara, mas nas primeiras audições achei apenas um belo disco de solos de piano — aliás, belo não, belíssimo, e não era preciso ser nenhum expert para perceber que o pianista era de primeira grandeza, de dar canseira em qualquer aprendiz que tente acompanhá-lo. Eu ainda sabia pouco sobre Keith Jarrett e não tinha noção de quem era ele… Muitos consideram-no o maior pianista de jazz vivo; outros, de todos os tempos. Mas algumas das suas obras são extremamente herméticas. Não é o caso de The Köln Concert, que é agradável a qualquer ouvido.

Foi preciso eu ouvir o disco umas dez vezes antes de dar o “clique” e eu entender o que eu realmente estava ouvindo. Jazz é, quase por definição (porque todos sabemos que é impossível defini-lo), improvisação. Mas isso não impede que existam os standards, músicas que se tornaram clássicas e são sempre tocadas. Keith Jarrett também já os gravou (ele inclusive tem uma série de discos só deles), mas a especialidade dele é improvisação total, compondo e tocando simultaneamente. E em nenhuma obra dele isso foi levado tão longe, de forma tão extrema, quanto em The Köln Concert.

O disco foi fruto de uma convergência de fatores que conjuravam um total desastre. Jarrett estava com uma crise de dor na coluna que o impedia de dormir direito havia vários dias. (Muito falaram sobre a mística da foto da capa, mas ele estava era com dores, mesmo!) Seu braço direito também doía e quando ele não estava tocando, ficava com o braço suspenso numa tipoia. Ele estava no meio de uma tournée europeia exaustiva e contratempos fizeram com que ele tivesse que viajar mais de seis horas desde a Suíça, onde tinha dado seu concerto anterior, até Colônia no velho Fusquinha de Manfred Eicher, dono da ECM (a gravadora estava começando e ele estava endividado e com todo o seu capital empatado nela, sem grana para uma Mercedes).

Jarrett chegou a Colônia na tarde do dia do concerto, num estado obviamente miserável, para descobrir que a organizadora tinha 17 anos e que a desorganização fizera com que trocassem o piano específico que ele exigira por outro, da mesma marca, mas muito velho, usado só para ensaios na Ópera, em péssimo estado, desafinado e com teclas e pedais falhando, e não havia tempo de arranjar outro. Gastaram horas para tentar afiná-lo e deixá-lo em condições mínimas de ser tocado, mas não adiantou muita coisa. Jarrett quase foi embora — ele é famoso por ser capaz de dar aulas de estrelismo a João Gilberto, por ter ataques de prima-dona e por ir embora de concertos pisando duro e xingando palavrões atrozes só porque alguém tossiu na plateia. Mas apelaram para os compromissos assumidos e para a quantidade de gente que seria prejudicada e ele acabou concordando em ficar e fazer o concerto.

O concerto também tinha sido marcado para as 23:30, um horário nada usual, mas foi o que deu para encaixar no calendário da Ópera de Colônia, que já relutara muito em permitir um concerto de jazz ali, mas cedera por causa do prestígio de Jarrett, já enorme aos 29 anos que ele então tinha — o mesmo prestígio que fez com que a lotação se esgotasse mesmo com esse horário tão tarde. Ainda haveria uma apresentação de ópera antes. Tradução: Jarrett, já doente, cansado e sem dormir, estaria à beira do colapso naquela hora, o pessoal de apoio da Ópera estaria também exausto e doido para ir para casa, e a própria plateia não estaria com muita paciência, tarde da noite de uma sexta-feira, depois de uma semana inteira de trabalho e possivelmente já com algumas cervejas na cabeça. Mesmo assim, ainda seria uma plateia extremamente exigente, acostumada só com o que há de melhor (afinal, Beethoven nasceu em Bonn, a meros 30 km dali). Qualquer deslize causaria uma vaia fenomenal e um vexame. Em resumo: as condições não poderiam ser piores!

Ópera de Colônia

A Ópera de Colônia, na Alemanha, local do lendário concerto, em 24 de janeiro de 1975

Felizmente para a plateia e o mundo, foi só Jarrett se sentar ao piano para ele entrar em seu ambiente natural e tirar leite de tantas pedras. Já começou irônico: com atenção, pode-se perceber umas risadinhas na plateia logo no início, pois ele começou improvisando em cima do toque da campainha que avisava o início do concerto na Ópera de Colônia. As próprias limitações do piano capenga que ele tinha em mãos (dá para perceber como algumas notas soam estridentes e reverberam) guiaram o curso da sua execução.

No fim das contas, não teríamos a obra-prima absoluta que temos se não fosse aquele piano horroroso. Se fosse um concerto de música clássica, teria sido mesmo uma catástrofe. Mas era jazz, era improvisação e era Keith Jarrett. Ele foi obrigado a tatear mais, explorar mais. Como as teclas da esquerda eram as piores, ele teve que criar efeitos mirabolantes para tocar os graves. E em seu processo de composição, dava em becos sem saída, voltava, tentava outra coisa, até acertar e ir em frente. E quando ele acertava, desembestava e acabava soltando vários dos seus famosos “orgasmos” (ele costuma soltar gemidos indecentes quando toca, tanto que quando comprei o disco em CD, disse para um amigo que também é fã do disco que tinha comprado algo especial, e arrematei, imitando: “oooohhh!” — ele soube na hora do que eu estava falando).

Depois de ouvir o disco algumas vezes, você acompanha a cabeça de Jarrett criando e executando tudo aquilo. É justamente isso que torna The Köln Concert tão especial. Você participa da obra, entende o que se passava na cabeça do artista enquanto ele criava e faz essa jornada junto com ele. Nenhum outro disco que eu conheça, nem mesmo outros de Keith Jarrett, permite isso de forma tão espontânea, tão visceral e tão intensa.

Não li o livro de Elsdon, mas a matéria do Estadão conta que o livro critica a ECM por ter trabalhado a gravação do concerto no estúdio (algo banal na música pop, mas anátema para alguns em se tratando de jazz) e também “denuncia” que a chamada “Parte IIc” do concerto não é improvisada e sim um tema antigo que Jarrett compusera quando estudante. Duas bobagens. Primeiro, se há alguém que sabe o que faz nessa área, esse alguém é Manfred Eicher. O “som ECM” é lendário justamente por causa disso, do toque pessoal e muito característico que Eicher dá na pós-produção, mas ele sempre faz isso com o máximo de respeito pela obra do artista e também é famoso por ser minimalista e mexer o mínimo possível. Então, se “o som do piano, originalmente ruim, foi melhorado”, como diz Elsdon, melhor para nós!

Quanto à “Parte IIc”, ela não faz parte do concerto propriamente dito, é só um encore, uma espécie de “canja” ao final. E para isso, Jarrett sempre costuma tocar peças previamente compostas, mesmo (inclusive até standards). Nenhuma das duas coisas tira o mérito deste disco único, excepcional e absolutamente brilhante. E o longo silêncio entre o último acorde da “Parte IIb” (o verdadeiro final do concerto) e o primeiro aplauso, denunciando o completo estupor da plateia, totalmente chocada e apalermada com o que acabara de ouvir, é totalmente real e mostra o impacto que foi aquilo.

Você pode ouvir The Köln Concert nas fontes usuais: YouTube, Sonora, Last.fm etc. Mas definitivamente aconselho a compra do CD. Nem é para baixar os MP3 num torrent, este é obrigatório ter em CD, mesmo! E ouça, muitas vezes, pois é preciso ouvi-lo muitas vezes para começar a penetrar em seus segredos. Mergulhe de cabeça. Deixe-se levar sem resistência e sem medo pelos 66 mágicos minutos de descoberta. Viaje com Jarrett, acompanhe a jornada dele, comungue com ele. Vale a pena. E quando você estiver ouvindo música deitado, sem saber se deve ir dormir, largue uma vez a Madonna (ou, Deus tal não permita, o pagode), lembre-se de mim e da minha dica e submeta-se a essa experiência. Eu também estarei pensando em você, leitor do AeM, quando ouvir novamente o disco, imaginando se terei lhe proporcionado essa coisa boa, pois só desejo e procuro oferecer o melhor aqui. Aproveite!

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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