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Um mês não muito bom para o Boeing 787

Boeing 787 em corte. Foto retirada de http://bit.ly/13wuD1H

A princípio, com tanta aparição nos noticiários, pode parecer que o Boeing 787 está infestado de problemas graves que afetam a segurança de voo, mas isto não é verdade, vamos a um exemplo:

Em Março de 1996, menos de 1 ano após a entrada em serviço, a United Airlines falava à imprensa da época que a confiabilidade do Boeing 777 era um grande desapontamento. Eu entrei na United exatamente em 1996 e participei de vários projetos e modificações para corrigir problemas que apareceram no início da operação, tanto em software quanto em hardware. Hoje, 17 anos depois, o Boeing 777 é o jato mais confiável do mundo.

A razão de problemas do 787 é a mesma que havia no 777 quando este era inovador.

É muito comum os primeiro lotes de jatos novos apresentarem problemas no início da operação (aliás, os primeiros da linha de produção são mais baratos) e os “launch costumers” (as empresas que recebem as primeiras unidades) ajudam muito o fabricante a “amaciar” o modelo.

O maior problema do Dreamliner foi na verdade o incêndio que ocorreu na última segunda feira, em que há suspeita de que a bateria do APU sofreu “overheat” e entrou em ignição. A investigação ainda está em processo, mas é bem provável que este seja um problema com o componente em si (a bateria) e não a aeronave. Incêndio e avião são duas palavras que não combinam bem, e a partir deste incidente, qualquer problema no Dreamliner vai aparecer na primeira página, mesmo que sejam problemas sem nenhuma relação com o fogo, como o caso da ANA (Air Nippon Airways), que cancelou um voo por causa de uma mensagem de problema nos freios.

Alguns dos problemas persistentes são falha da própria Boeing, não do projeto em si, mas de erros na manufatura, como é o caso de um vazamento de combustível que requer inspeções até que seja solucionado (os modelos que estão saindo da fábrica agora não mais possuem o problema).

O 787 possui um sistema elétrico que usa milhares de quilômetros de fios e um complexo circuito digital de milhares de linhas de código que substituem pesados equipamentos antes usados na aviação. Até os famosos Circuit Brakers (disjuntores, uma espécie de fusível elétrico), presentes em todos os aviões do mundo, não existem no cockpit do Dreamliner – a interrupção da energia em caso de curto-circuito é feita por software. Sendo tão moderno e inovador, é sim de se esperar que ocorram problemas durante a operação, cancelamentos de voo, atrasos, mas obviamente que não apareça nenhum problema de fogo novamente.

Nenhuma das falhas apresentados até agora são características de projeto, e a cada falha, mais lições são aprendidas pela engenharia e mais a aeronave vai se aperfeiçoando. Todos os analistas entrevistados por jornais como The Wall Street Journal, L.A. Times, New York Times, são unânimes em dizer que a a Boeing tem o Know-how e o incentivo necessário para ajustar os problemas elétricos do Dreamliner rapidamente.

As ações da Boeing subiram 3,6% hoje, eliminando as perdas do início da semana após os problemas detectados, o que sugere que os investidores estão confiantes em uma solução de curto prazo.

A aviação, ao contrário da política no Brasil, se torna cada vez melhor graças às lições aprendidas com as falhas. O transporte aéreo nunca esteve tão seguro. De acordo com estatísticas da IATA, um passageiro teria que voar 5.3 milhões de vezes antes de se envolver em um acidente!

Vários problemas ainda ocorrerão com o Dreamliner, a imprensa vai deitar e rolar, mas felizmente nenhum deles se transformará em um acidente.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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