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Um vídeo MUITO melhor do pouso do 747 da Virgin em Gatwick hoje.

Hoje todos (os interessados) acompanharam o desfecho do pouso do 747 da Virgin Atlantic, que teve um problema na perna direita do trem de pouso durante a decolagem de Londres com destino a Las Vegas.

Foto via Jeff Paiva

Foto via Jeff Paiva

O que se viu ao final foi o resultado de treinamento, expertise, treinamento, engenharia e treinamento. Não foi nenhum milagre.

Os tripulantes fizeram tudo certo. O tempo decorrido nas órbitas próximas ao aeroporto foram consumidos tentando-se de diversas maneiras destravar a perna que ficou no meio do caminho, presa pela porta do alojamento. Comunicação constante com a manutenção. Coordenação com os comissários para uma possível evacuação. Planejamento. Lindo.

Pane: Existem válvulas hidráulicas de sequência que fazem a porta do alojamento se abrir, o trem iniciar o recolhimento e ao passar por determinado ponto, começar a se fecharem. Provavelmente uma destas válvulas falhou e a sequência foi pro brejo.

Como sabemos e pregamos, um acidente só ocorre se uma conjunção de fatores se alinharem. Nenhuma falha mecânica conhecida em um avião, por si só, causará um acidente.

O resultado de todo este estudo e projeto, é uma cabine inteira de pessoas que vão ter uma bela história para contar aos parentes. Alguns com traços de terror. Outros com bom humor. Assim é o ser humano.

Em relação ao vídeo, percebam o primeiro toque “violento” na pista. Não foi erro de pilotagem, foi a última tentativa de fazer a perna direita do trem descer para um pouso mais tranquilo. Um toque “duro” poderia fazer a perna destravar. Como não deu certo, é possível ver a tendência do avião querer sair do centro da pista (já que há muito mais atrito do lado esquerdo) e as correções do piloto no leme. A asa direita mais baixa (pela falta do trem) também é controlada pela deflexão total do ailerons. Belo.

Por isso a aviação é tão segura.

Update 1: Alguns comentários no Facebook questionam sobre a redundância. Vou contar um segredo: Quem projeta aviões comerciais, capaz de levar tantas vidas a bordo, não é ingênuo. Quando você pensar “e se fizessem isso?” ou já foi feito ou descartado por outros “n” motivos já pensados. Quer um exemplo?

Sabe o que é esta imagem retirada do Manual de Voo do 747-400? São os cálculos de distância de pouso para cada condição de pista para o caso de um pouso com um trem de pouso de asa recolhido.
Prestem muita atenção: O fabricante do avião, durante a fase de certificação, faz testes com TUDO que é possível falhar durante a vida operacional da célula, cria os procedimentos e “voilá”! Quando acontece a falha, já foi previsto pela engenharia como será o comportamento do avião, para cada nível de peso, para pista seca, com neve, com água, para altitudes diferentes, etc.

Sei que isto tira um pouco o romantismo de achar que as coisas acontecem “por mágica” quando dão certo mesmo em emergência, mas felizmente não é assim.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
  • R.F.

    Gênio esse piloto!

    • Lucas Pott

      Gênio não é. Somente fez o que ele aprendeu e praticou. Mesmo assim, ótimo trabalho da tripulação.

      • Thiago Pereira

        Desculpe amigo, não quero desmerecer sua opinião, mas o que esse homem fez vai além de treinamento e prática. Durante a história da humanidade muitas pessoas podiam ter “treinamento” e “prática”, mas, poucas delas conseguiram fazer coisas realmente extraordinárias. Por isso concordo com o R.F., Acho que merecem um pouco mais do que “ótimo trabalho da tripulação”.

        • Fabio Malvar

          Pois é. Quando alguém faz algo bem feito foi apenas obrigação dela, quando faz mal feito foi incompetente. Parece quando a gente é pequeno e a mãe diz que vc não fez nada mais nada menos que a obrigação quando passamos de ano. Não é bem assim não.
          Concordo com sua opinião Thiago. Toda a equipe envolvida foi fodastica e ponto!

        • Lucas Pott

          Tudo bem, concordo no que se diz respeito a poucas pessoas conseguirem realizar atos extraordinários. Por exemplo o caso do Air Trasat, no qual os pilotos tiveram em mãos o maior “planador” de todos os tempos, e mesmo sem potência tiveram êxito pois mantiveram o CRM todo tempo da crise. Contudo neste caso da Virgin ele apenas perdeu uma perna do trem. Respeito sua opinião, mas se der uma breve olhada no youtube verá que houveram outros casos que não havia trem de pouso, e mesmo assim o pouso foi seguro. Por isso afirmo com ajuda do mestre Lito: “O que se viu ao final foi o resultado de treinamento, expertise, treinamento, engenharia e treinamento. Não foi nenhum milagre.”. Por isso a aviação é segura, pois tudo é pensado, planejado, estudado, documentado treinado.
          Quando há um acidente as investigações ao contrário que muitas pessoas pensam não é para descobrir o culpado, mas sim evitar que tenha alguma chance de acontecer novamente, e caso aconteça já se tenha uma solução.
          Forte abraço

        • R.F.

          Exatamente isso. T.J. , mas como o Lucas disse ele fez o que aprendeu e praticou, mas o que eu quis dizer é que ele soube fazer isso com o avião sob controle, mas duvido que 100% dos pilotos de Boeing 747 conseguiriam fazer isso da maneira correta.

    • Paulo Sérgio

      Genial a redundância criada pelos engenheiro e, técnicas desenvolvidas para treinamento de pilotos competentes.

  • Herik

    Nesse caso o pouso é feito com o mínimo de combustível ou haveria a possibilidade de esvaziamento dos tanques somente da asa do lado dos trens de pouso defeituosos? Fiquei especulando se a asa esquerda estaria com bastante combustível para garantir um contrapeso ao lado defeituoso. Se a pergunta for muito primária, me desculpe. Não entendo nada de aviação. Abraço.

    • Welington Pablo Santos Freitas

      Boa pergunta, voltei no vídeo e, do ângulo filmado, acredito a asa esq ter balançado mais tbm.

    • Lucas

      Voar com combustível em uma das asas somente não é permitido pelo fabricante, pois a estrutura da aeronave poderia sofrer um grande stress podendo se romper durante o pouso ou até mesmo durante o vôo!!! Essa condição é chamada de “unbalance”.

  • francisco greche junior

    Belo pouso! Realmente depois de ler a explicação dá pra notar nitidamente o “tranco” contra a pista como tentativa de soltar a perna.

  • Ana Sacchelli

    Minha filha e o marido estavam vindo hoje de Berlim para Londres ( pouso no Gatwick), e nem sabiam que esse era o motivo do atraso na saída do voo deles de lá!! Parabéns , pelas explicações sempre fáceis de acompanhar!!

  • Vinícius Cabrini

    Reparei que os slats abriram totalmente apos a paragem total do aviao … Alguem poderia me explicar o porque? Obrigado!

    • Rafael Peres

      Parece que os slats do 747-400 se fecham no pouso, provavelmente para matar alguma sustentação residual e otimizar a frenagem…. Quanto à reabertura ainda persiste a dúvida… rsrsrsrsr

      • Faz mais de 20 anos que fiz o curso do 747-40 e como faz o mesmo tempo que não trabalho com ele, não lembro disso, mas vou dar uma revisada nos manuais para recordar o motivo (que aparenta ser para evitar detritos jogados pelos reversores).

    • Relampio

      Se não me engano, os slats do 747 são sincronizados com o acionamento dos reversos. Quando o piloto dá reverso, os slats recolhem, voltando ao normal ao final do acionamento dos reversos. Posso estar enganado, pelo menos é o que tenho observado!

      • Correto.

        • R.F.

          Nunca percebi isso, mas também, só viajei em 4 747 e em todos eles sentei nas últimas poltronas! rsrs…

    • Direto do manual de manutenção do 747-400.

    • Vinícius Cabrini

      Obrigado pessoal … Sempre reparei nisso, mas nao sabia o motivo !

  • Welington Pablo Santos Freitas

    Disciplina de raciocínio. Fundamentalmente CRM.

  • Na falta dos Thunderbirds…

  • Cesar Machado

    Também achei muito interessante a distância percorrida entre o pouso inicial e a paragem total, diria que talvez uns 500 ou 600 metros talvez… o que para uma ave desse tamanho é impressionante… Ainda bem que era uma “emergência” kkkkkkkk…

    • Olhei o aeroporto pelo Google Maps, medindo a distância entre o ponto onde ele parece tocar o solo pela primeira vez e onde ele parece parar, e deu 1,5Km (a pista tem aproximadamente 2,5Km). Sem contar o fato de que os veículos de socorro não parecem estar muito devagar e demoram um bom tempinho até chegar.

      • Eles têm que esperar a confirmação de que os motores foram desligados para poder se aproximarem.

  • Lucas Timm

    Cara, o 747 é lindo mesmo sem uma perna.

  • Sensacional… não tem como não ficar impressionado com a seriedade e profissionalismo que a aviação comercial chegou…. e o mais legal é isso q vc falou: “Quando vc pensa em uma coisa, os engenheiros já pensaram e analisaram ela e muitassss outras coisas”

  • Gustavo

    Lembrei do vídeo abaixo, feito no caso com o 747-200F.
    https://www.youtube.com/watch?v=rI98W26QUzk

  • Felipe Andrade

    Um ângulo um pouco mais alinhado com o centro da pista, e com fonia da torre: https://www.youtube.com/watch?v=ZqDP-FMgTy8

    • lvcivs

      Bom vídeo!!

      Dá pra perceber o avião caranguejando na final!

      O vento: EGKK 291550Z 31006KT CAVOK 04/01 Q1040

      A pista era a 26L, portanto, o vento estava vindo da direita (esquerda dos vídeos) e ele justamente com o nariz aproando o vento.

      Me corrijam se estiver errado: Quando está no chão, o avião tende a virar para o vento, devido à área lateral do leme, não? Vejo claramente esse movimento no vídeo em 1:08 até 1:15, quando já é corrigido o desvio.

  • mar2cos

    e no site do g1 tem essa pérola;
    Problema no trem de pouso faz avião retornar a aeroporto de Londres
    Boeing 747 da Virgin Atlantic iria para Las Vegas, nos Estados Unidos.
    Pouso de emergência ocorreu mesmo com defeito; veja vídeo.

    poxa, se não tivesse defeito não seria pouso de emergencia.

    • Matheus PS

      E como se o avião nunca fosse pousar, já que tinha um “defeito”…

    • Rafael Rodrigues

      Bacana. Expandindo a lógica do G1, o PP-VLU não se acidentou.

  • Guilherme Almeida

    acompanhei por quase duas horas esse vôo no flight radar e no plane finder e fiquei extremamente aliviado quando finalmente tudo terminou bem.
    a situação foi resolvida com extrema paciência e profissionalismo

  • Eduardo C. Duque

    Concordo que a aviação é o modo de transporte mais seguro do mundo. Admiro muito o cuidado das pessoas com cada detalhe da segurança. Tenho mais medo de sair com meu carro daqui da empresa (levando-se em conta o nível de barbeiragem dos outros) do que pegar um voo em Guarulhos.
    Mas essa “crença” do Lito na ciência beira ao ceticismo.
    Neste caso, para ter ocorrido o problema, uma série de desventuras aconteceram.
    E se tais causalidades tivessem continuado fora da aeronave e alheias ao piloto? Problemas na pista, um pássaro no lugar errado, uma rajada de vento não percebida, enfim, incontáveis fatores que poderiam ter afetado dramaticamente o resultado final da empreitada.
    Não acho que o fato de dizer que algo foi medido e calculado tirem o deslumbramento dos pequenos milagres que testemunhamos todos os dias.

    Isto seria muito mesquinho da nossa parte.

    • Fabio Malvar

      Pois é, meu caro. Pelo que acompanho aqui há um tempinho eu concordo. Tem muitos ateus por aqui (e outros muitos quase lá).

      • Rafael Rodrigues

        É feio ser ateu?

        • Fabio Malvar

          Onde tá escrito isso aí no meu comentário?

    • Rafael Rodrigues

      Aí, amigo, nesse caso talvez tivéssemos um acidente. Um acidente é a junção de diversos “azares” menores.

      Numa boa, isso não foi “pequeno milagre”. Isso foi o trabalho do cara que estava pilotando. Eu trabalho, você trabalha e nenhum de nós fica mais “perto de Deus” quando faz o serviço bem feito.

      Cuidado com o “Deus das lacunas”. Muitos são tentados a colocar na conta de Deus aquilo que não compreendem.

  • Guilherme

    Joselito já saiu algum boletim interno do cenipa sobre as causas do acidente do Cesna do Campos ? Abs

    • Gustavo Pilati

      Ainda não.

  • Matheus PS

    No vídeo parece que os spoilers não levantaram… Foi para não acabar de vez com a sustentação e manter a asa levantada?

  • Alexsander Melo

    Muito bom quando tudo dá certo e o final é feliz. A primeira vez que vi o vídeo achei que a asa direita iria tocar a pista… loucura. Imagino a tensão dos passageiros durante esse episódio heim… talvez algumas poltronas vão precisar de higienização depois dessa. Parabéns à tripulação, á equipe de terra que coordenou e geriu a crise e também ao A&M pela matéria esclarecedora e fácil de entender, até pra quem não manja muito de aviação, assim como eu ;)

    • Andre

      Eu também estava contando com uma asa tocando a pista. Palmas para o projeto do avião que permite um pouso seguro mesmo nesta condição.

  • 850 CSI e31

    Acho o 747 muito belo, o 777 é o meu predileto, Lito, aproveitando o tema deste post e sabendo que existe um lugar específico no blog para perguntas, me perdoe! tenho uma pergunta que pode parecer idiota, sou totalmente leigo no assunto, gostaria de saber se um 747 destes consegue voar só com um motor funcionando? Obrigado!

    • Gomba

      Olha, um 747 voa até sem motor nenhum funcionando. Não deve chegar muito longe, mas com uma razão de planeio de cerca de 17:1, se perder os 4 motores em velocidade de cruzeiro em FL380 ele ainda, teoricamente, tem condições de voar por mais ou menos uns 200km até chegar no chão. Distância suficiente pra achar algum lugar pra pousar.

      Completamente vazio ele voa bem com um sim motor só. Com passageiros e carga já fica mais complicado, mas se planando ele ainda pode voar aquilo tudo, tendo um motor empurrando ele pra frente, ele voa o suficiente pros pilotos acharem um aerodromo.

      Esse tipo de situação (um 747 com um motor só funcionando) foi calculado como sendo alto tão raro mas tão raro que sequer é treinado em simulador pelos pilotos (que treinam procedimentos com a perda de 1 e de 2 motores). Não tenho acesso aos manuais do avião pra saber se existe procedimento pra tal situação, mas acredito que sim.

      Na década de 80 teve um episódio com um 747 da United em um vôo pro Japão que na hora do abastecimento fizeram algum tipo de confusão e o Engenheiro de Vôo percebeu, no meio da rota que eles não teriam combustivel suficiente pra chegar até NRT. Como retornar seria loucura, o comandante optou por continuar o vôo e ir desligando os motores gragativamente. A aproximação foi feita com apenas 2 motores e o ultimo deles apagou pouco antes de chegar na pista. O pouso e o taxi final foi com o #2 e a APU ligadas.

      E teve um parecido não me lembro quando que um 747 engoliu cinzas vulcânicas e voou sem motores por pelo menos 15 minutos até que eles conseguiram ligar um deles pra controlar a ‘queda’ e depois um segundo motor, que fez com que o vôo continuasse. No final eles conseguiram pousar com 3 motores.

      • 850 CSI e31

        Obrigado pela resposta, meus parabéns pelo conhecimento e pela disponibilidade em dividi lo!

  • Vinícius

    Lito, por falar em pouso, acho que aprendi a pousar um avião em segurança: http://m.gizmodo.uol.com.br/pousar-aviao/

  • fabriciobatera

    Lito, uma pergunta. No caso desse pouso específico, é feito algum check para verificar se houve stress nos pontos de união da asa com a fuselagem, pelo fato de a asa direita ter ficado “sobrecarregada” pela falta do apoio do trem de pouso? Obrigado, abraços!

    • Sim, existem inspeções condicionais para esse tipo de ocorrência, também descritas nos manuais de manutenção. Abs

  • edinhofragelli

    treinamento, competência aliados à engenharia que premedita essas falhas.
    seria ótimo se pudessemos ouvir a tripulação na cabine na hora da crise e assim poderiamos ver a calma e sensatez dos pilotos treinados pra isso
    belo texto Lito.

  • Incrível! :-D

  • Cesar Machado

    Fato curioso; este avião, agora operado por Virgin Atlantics com matricula G-VROM, foi até 29 de Março de 2012 (desde 5 de NOv. 2009) operado por Aerosur (RIP) com matricula CP-2603 e com o nome Super Torisimo. Pois este servidor teve o prazer de voar nele por duas vezes, a primeira delas em Fevereiro de 2010 numa visita à terra onde mataram o Che Guevara, e dessa forma realizar o sonho de menino de voar num JUMBO… quase 5 anos mais tarde e já com o novo dono acontece isto… e só posso ver pelas gravações do youtube…

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