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Uma mulher extraordinária: a aviadora Bessie Coleman

Estava eu surfando a Web aleatoriamente atrás de coisas de aviação quando me deparei com algo que me deixou emocionado e com os olhos todos molhados – tanto que achei que tinha que compartilhar com vocês. Em pleno século XXI, a gente ainda vibra quando vê uma mulher pilotando um avião, quando estatisticamente elas deveriam ser metade dos pilotos. Agora, que tal se além de mulher, ela for negra, de origem paupérrima e em 1921? Pois existiu uma mulher assim, e o nome dela era Elizabeth Coleman, mais conhecida pelo apelido de “Bessie”.

 

Bessie Coleman

 

Bessie nasceu em 26 de janeiro de 1892, na zona rural de Atlanta – não a metrópole da Geórgia, mas uma minúscula cidadezinha homônima no Texas, na divisa com o Arkansas. Se bem que apesar de pequena, a Atlanta texana parece ter tradição em mulheres que rompem barreiras e preconceitos, porque 80 anos depois, também morou lá a Ellen DeGeneres, quando adolescente. Bessie era a décima de treze filhos de um casal de trabalhadores rurais. Como era comum no Sul, Bessie começou a trabalhar desde menina pequena, colhendo algodão nas fazendas da região. Mas ela teve a sorte de ter uma daquelas mães que enxergam longe e determinadas, apesar de toda a pobreza, a darem um futuro melhor aos seus filhos. Dona Susan Coleman não queria nem ouvir falar em filhos fora da escola. Assim, Bessie caminhava mais de seis quilômetros todo dia até uma escola rural de só uma sala e totalmente negra, naqueles tempos de segregação. E além de estudar e trabalhar na lavoura, Bessie ainda ajudava a mãe em casa, que uma família de quinze pessoas (ou catorze, pois o pai abandonou a família quando Bessie tinha nove anos) não é brincadeira. Bota vida dura nisso!

Mas Bessie não reclamava, e para orgulho da mãe, adorava ler e gostava muito de Matemática. Aos dezoito anos, Bessie juntou todas as suas economias e foi para uma universidade agrícola no Oklahoma. Esse estado tinha um pouco menos racismo do que o Texas e essa tinha sido justamente a razão alegada pelo pai de Bessie quando saiu de casa: ele também era parte índio e naquela época o Oklahoma era cheio de reservas indígenas, onde ele esperava ter melhores oportunidades. Não que se tenha sabido mais dele depois disso. Mas até no Oklahoma as universidades eram segregadas e a escola de Bessie era só para negros. Também não oferecia nenhum curso mais técnico – a ênfase na agricultura era bem típica da mentalidade de negros “saberem o seu lugar”. Bessie estava insatisfeita e de qualquer modo, suas economias logo acabaram e ela teve que interromper o curso, depois de apenas um semestre. Voltou para casa no Texas, mas ainda não se conformava.

Finalmente, em 1915, aos 23 anos de idade, não querendo apodrecer em vida na sua cidadezinha sem perspectivas, Bessie seguiu o mesmo caminho de tantos negros do Sul e rumou para o norte: foi procurar emprego em Chicago, onde já estavam dois dos seus irmãos. Sabem quando tudo conspira para levar a pessoa para um caminho? Pois é, isso às vezes acontece das maneiras mais estranhas. O que mudou o rumo da vida de Bessie foi trabalhar como manicure numa barbearia… Acontece que essa barbearia era frequentada por pilotos da então nascente Força Aérea, de volta da I Guerra Mundial, que contavam suas experiências (sabem como é, barbeiro é meio psicanalista…). E o bicho da aviação mordeu Bessie. Ela queria fazer o mesmo que aqueles homens da barbearia. Mas nenhuma escola de pilotagem americana daquela época aceitaria uma mulher ou um negro – imaginem então Bessie, que era as duas coisas! Impossível… Melhor “saber o seu lugar” e continuar aparando as unhas dos brancos, ainda feliz em ganhar uma moedinha de gorjeta de vez em quando, né?

Outra mulher na mesma situação talvez pensasse isso mesmo – e sabe-se lá quantas não tiveram que sufocar seus sonhos por causa do preconceito e de uma ordem social injusta. Mas Bessie não era uma mulher qualquer. Era daquelas que não sabiam que certas coisas supostamente eram impossíveis. Já que as escolas de pilotagem não a aceitavam, ela tentou convencer alguns pilotos negros a ensiná-la – havia alguns, treinados por causa da guerra, quando há outras prioridades e se fazem certas concessões. Mas o machismo não deixou e todos se recusaram.

Até que um negro ilustre e influente, outro desbravador, Robert Abbott, fundador do Chicago Defender, o primeiro grande jornal americano feito por e para negros e que foi importantíssimo na formação da consciência civil de todo um povo (o slogan impresso no alto de todas as edições já dava o recado: “O preconceito racial americano precisa ser destruído”), deu a ideia de que já que não davam espaço para ela nos EUA, ela deveria ir para o exterior. Ela sabia que na França já havia mulheres aviadoras. E resolveu ir para lá, com o apoio de Abbott e de Jesse Binga, outro pioneiro: o primeiro banqueiro negro dos EUA (isto foi uma afronta tão grande ao sistema que quando mais tarde veio a Grande Depressão e o banco de Binga, como tantos outros, faliu, deram um jeito de fazer uma revanche e neutralizar tamanha subversão da “ordem natural das coisas”, botando-o na cadeia por dez anos por suposta “malversação de fundos” – leia-se: recusou-se a salvar o banco executando hipotecas de negros e instituições sociais negras; quando Binga saiu da cadeia, virou faxineiro e morreu na pobreza).

Bessie se preparou bem, fazendo um curso intensivo de francês na Berlitz (que felizmente a aceitou), e em novembro de 1920 partiu para Paris. Os aviões da época não eram nenhum 787 todo sofisticado e em julho de 1921, Bessie já recebeu sua licença. Bessie foi a primeira mulher negra a ter uma licença de piloto, e nada menos que uma licença da Federação Aeronáutica Internacional. Ela ficou mais uns meses na França aperfeiçoando sua técnica com pilotos franceses de talento e voltou para os EUA, onde teve uma recepção triunfal por parte da imprensa. Mas passado o entusiasmo inicial, veio a realidade. Ainda não havia aviação comercial naquela época, e não havia muitas maneiras de se ganhar dinheiro com isso. O que Bessie podia fazer era virar pilota de shows aéreos de acrobacias. Mas para isso, ela sentia que precisava aperfeiçoar ainda mais sua técnica. E nem como celebridade ela conseguiu que lhe ensinassem (talvez isso tenha até atrapalhado).

 

A licença de piloto de Bessie Coleman
A licença de pilota de Bessie Coleman

O jeito foi, mais uma vez, voltar para a Europa. Lá ela mais uma vez teve aulas com instrutores franceses, mas principalmente ganhou um padrinho importante, que já era seu fã: ninguém menos que o holandês Anton Fokker, fundador da fábrica de aviões que todos conhecemos e que era uma potência naqueles anos. Fokker levou-a para sua fábrica da Alemanha e destacou seu melhor piloto de provas para treiná-la. Depois de alguns meses na Europa, Bessie voltou para os EUA e seus amigos Abbott e Binga logo a colocaram em dois airshows, um em Nova York, outro em Chicago, em setembro de 1922, onde ela deu literalmente um show de acrobacias que deixou o público boquiaberto. Foi o início de uma curta, mas bem-sucedida carreira como pilota de acrobacias. Ela era conhecida como “Queen Bess” e muito admirada, inclusive pelos brancos. Essa carreira quase foi interrompida em fevereiro de 1923, quando seu avião entrou em stall e caiu durante um show em Los Angeles, mas Bessie apenas quebrou uma perna, recuperou-se logo e não demorou a voar de novo. Mas seu sonho mesmo era criar uma escola de aviação para negros.

Em 1924, Bessie quase virou estrela de cinema, pois foi convidada a estrelar um filme voltado para o mercado negro. Ela aceitou entusiasmada, achando que seria ótima publicidade para seus shows e ao mesmo tempo daria dinheiro para ela fundar sua escola. Mas mudou de ideia e pulou fora quando soube que logo na cena inicial, ela teria que aparecer vestida em trapos, andando com uma bengala e carregando um fardo nas costas. Ela se recusou a alimentar estereótipos negativos em relação aos negros ou a mostrá-los como pessoas fracas, limitadas e incapazes.

Infelizmente, Bessie não viveu para realizar seu sonho da escola de aviação para negros. Em 30 de abril de 1926, Bessie estava se preparando para uma apresentação em Jacksonville, na Flórida, e saiu num voo de testes com um avião Curtiss JN-4 que tinha acabado de comprar com as economias do que ganhara nos airshows. Bessie decidiu não usar cinto de segurança porque pretendia dar um salto de paraquedas no show do dia seguinte e queria examinar o terreno por sobre a borda do cockpit. Em um determinado momento, ela deu um mergulho com o avião, como parte dos testes e ensaios, mas em vez de subir, o avião girou sobre si mesmo, atirando Bessie no chão a 150 metros de altura. Logicamente, ela morreu na hora, aos 34 anos de idade. Seu mecânico e agente William Wills estava no avião e não conseguiu retomar o controle da aeronave, que caiu logo em seguida, se incendiando e matando-o também. Mais tarde descobriram que uma chave inglesa tinha deslizado e ficado presa na transmissão, emperrando-a.

E ainda deram o nome do George Bush pai ao aeroporto internacional de Houston? Deveria se chamar Bessie Coleman Intercontinental, com toda a justiça! Sabem, gente como Bessie me dá a impressão de ter sido escolhida a dedo por Aquele lá em cima (e olhem que nem sou religioso) para vir a este mundo só para dar exemplo, dar força e coragem para quem está aqui. Uma vez vi a Whoopi Goldberg falando numa entrevista que resolveu ser atriz por causa de Jornada nas Estrelas (razão pela qual ela adorou participar da Nova Geração, anos depois), e mais especificamente por causa da tenente Uhura, interpretada pela Nichelle Nichols. Ela disse que quando viu uma mulher negra numa série importante de TV mostrada como uma engenheira de comunicações e não como empregada doméstica, percebeu que era possível ser uma atriz negra interpretando papéis dignos. Pois bem, duvido que houvesse uma Uhura sem Bessie Coleman. Sabe-se lá quantos negros, quantas mulheres e quantos sonhadores de todas as raças ela inspirou. E se não deu nome (ainda) a nenhum grande aeroporto internacional, recebeu muitas merecidas homenagens, desde livros e selos comemorativos até o nome de uma rua em Frankfurt.

Termino a postagem com duas recomendações para os cinéfilos, de filmes que entram no clima de Bessie, do que ela teve que enfrentar e vencer. Não, A Cor Púrpura não é um deles – é lindo, sim, mas todo mundo já viu. São joias um pouco mais raras. A primeira delas é Adivinhe Quem Vem para Jantar (Guess Who’s Coming to Dinner), de Stanley Kramer (1967), que eu considero um filme absolutamente perfeito na história, no roteiro, nas interpretações (Sidney Poitier, Katharine Hepburn e Spencer Tracy – precisa dizer mais?), na concepção, no clima, na execução, tudo. O filme tem pelo menos meia dúzia de cenas absolutamente memoráveis, mas destaco o brilhante diálogo do médico vivido por Poitier com seu pai, que não aceitava seu noivado com uma moça branca, em que ele diz tudo que muitos filhos têm entalado na garganta e adorariam dizer, e o comportamento da empregada, também negra mas indignada porque o médico, como negro, “não conhecia o seu lugar”.

A segunda dica é Por Volta da Meia-Noite (Round Midnight), de Bertrand Tavernier (1986), que certamente está na lista dos filmes mais bonitos que já vi na vida. Só a trilha sonora de Herbie Hancock já vai deixar vocês flutuando nas nuvens (lógico que ganhou o Oscar e mais um monte de prêmios): só para começar, o protagonista é interpretado por Dexter Gordon, um dos maiores saxofonistas de todos os tempos, que surpreende como ótimo ator. Mas também aparecem como figurantes um certo John McLaughlin, um certo Wayne Shorter, um certo Wynton Marsalis… e o melhor: tocando! Mas não se enganem: não é um musical. O filme mostra como a mesma Paris que serviu de refúgio para Bessie Coleman poder realizar seu sonho também continuou tendo esse papel por muito tempo, até para os próprios músicos negros americanos, discriminados em seu próprio país. Principalmente, é o mais belo retrato de uma amizade leal, dedicada e incondicional que já vi na vida – quando quero dizer a alguém o que significa ser amigo para mim, mando ver esse filme.

Os dois filmes dão uma ideia do quanto já avançamos, mas também do quanto ainda precisamos avançar para podermos viver num mundo onde as pessoas só sejam julgadas pelo seu caráter e pelo seu talento, nunca por coisas tão desimportantes quanto raça, cor da pele, origem, classe social, sexo, orientação sexual, religião, beleza física, idade e todas essas coisinhas que inventamos só para nos fazerem crer que somos melhores que os outros e para nos fazerem ter mais do que os outros. É muito bom que venha ao mundo de vez em quando uma Bessie Coleman para nos lembrar que nada disso é importante.

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Sobre o Autor

Mineirim de BH exilado em Sampa, ex-informata, atual tradutor técnico, apaixonado por aviões desde o primeiro voo. Adora tititi de aeroporto, cheiro de querosene, barulho de turbina em decolagem. Sabe diferenciar um 737NG de um A320 passando pelo som dos motores. Frustração: não voou no Concorde (mas o viu pousar uma vez).
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