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VASP, 80 anos

Quando duas destacadas senhoras da sociedade paulista derramaram champagne sobre a fuselagem dos dois Gal Monospar, PP-SPA e PP-SPB no Campo de Marte em 04 de Novembro de 1933, uma história de pioneirismo, desenvolvimento e qualidade se iniciava no estado de São Paulo. Este momento narrado acima é a fundação da VASP – Viação Aérea São Paulo. A empresa expandiu rapidamente e em 1936 já receberia sua terceira aeronave, um De Havilland Dragon Rapide, PP-SPC. A empresa voava seguindo as linhas férreas para balizar suas rotas, servindo Ribeirão Preto, Uberaba, São José do Rio Preto e logo chegaria a Goiânia. A partir de 1936 com a chegada dos Junkers JU52/3m a VASP iniciava a ligação Rio – São Paulo, a famosa ponte aérea. É nesta fase que a empresa se depara com um grande problema: as chuvas que inundavam o Campo de Marte, era só olhar para o Pico do Jaraguá e se este não fosse visto, não havia operação. A VASP partiu para a construção do seu próprio aeroporto, o CAMPO DA VASP, sendo esta uma condição sine-qua-non para continuidade de suas atividades. Sem recursos financeiros busca apoio do estado que por sua vez com Armando Salles de Oliveira opta por estatizar a VASP. Com recursos do Governo Paulista a empresa conclui o Campo da VASP (Aeroporto de Congonhas) e expande sua frota de Junkers JU52.

PP-SPE Arquivo FLAP Internacional

PP-SPE Arquivo FLAP Internacional

A Segunda Guerra domina os anos 40 e a VASP tem dificuldades de voar, pois seus trimotores Alemães sofrem com a falta de peças, mas a empresa se organiza em prol de fabricar as peças de seus aviões, iniciando uma história de excelência técnica que duraria até o final da empresa. Em 1944, a VASP operava da seguinte forma que transcrevo de um folheto promocional da época:

“Ôntem o viajar de avião era sonho irrealizavel. Hoje o avião é uma necessidade da vida moderna. A “VASP” dispõe de aeronaves modernas, rápidas e seguras, que proporcionam ao passageiro o máximo de conforto e regularidade!

DE SÃO PAULO AO RIO DE JANEIRO EM 100 MINUTOS (4 viagens diárias e duas aos DOMINGOS)

DE SÃO PAULO A GOIÂNIA E ESCALAS EM 5 HORAS (1 viagem semanal às segunda feiras, com regresso no dia seguinte)

SÃO PAULO – RIO – MINAS – GOIAZ, irmandados num ideal de progresso, pela “VASP”

 Viaje nas asas e dê asas à sua correspondência! Toda carta é urgente! Utilize o “Serviço Postal Aéreo Rápido” da VASP.”

Assim era o relato acima da publicidade da flag carrier Paulista. A empresa tinha agências em São Paulo à Rua Libero Badaró, 82 e no Rio à Rua México, 116A. Frisava que nestas agências “Para qualquer informação consulte os nossos agentes acima referidos e será atendido prontamente e com a maior satisfação. O Agente da VASP é um colaborador da companhia e um amigo do público. O AVIÃO É O VEÍCULO DA ATUALIDADE.

A empresa voava para o Rio com saídas de Congonhas de Segunda-Feira a Sábado com decolagens as 06:55 / 09:30 / 12:30 / 15:00 e decolagens do Rio no mesmo horário, as chegadas se davam as 08:40 / 11:15 / 14:15 e 16:45. Aos domingos se reduzia a saídas as 07:30 e 10:00 de ambas cidades com pouso em ambas cidades as 09:15 e 11:45. A passagem SAMPA-RIO ou inverso custava 270 Cruzeiros!

Já para Goiânia o voo efetuava os seguintes trechos na segunda-feira CGH 10:00 11:20 Ribeirão Preto 11:25 11:50 Franca 11:55 12:20 Uberaba 13:00 13:30 Uberlândia 13:45 13:55 Araguari 14:05 14:20 Catalão 14:25 14:40 Ipameri 14:50 15:30 Anápolis 15:40 16:00 em Goiânia. O retorno acontecia nas terças com destino a São Paulo saindo de Goiânia 06:30 06:50 Anápolis 07:00 07:40 Ipameri 07:50 08:05 Catalão 08:10 08:25 Araguari 08:40 08:50 Uberlândia 09:05 09:35 Uberaba 10:15 10:40 Franca 10:45 11:10 Ribeirão Preto 11:15 12:35 Congonhas.

Arquivo FLAP Internacional

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A companhia adentrou os anos 50 voando DC3, SCANDIA (operou todos fabricados no mundo), iniciou a década de 60 com os Vickers Viscount. Nota-se então uma grande fidelidade da VASP aos fabricantes Europeus (Exceto DC3). Mas a companhia precisava se equiparar à concorrência, chegou a encomendar Fokker 27, DC9 e Dart Herald sem êxito em nenhuma destas investidas. Eis que em 1967 chegam à frota um par de britânicos BAC 1-11, com os quais a VASP inaugurou a Era do Jato Mas foi a partir de uma encomenda de 4 Boeing 727-200 que a VASP se transformou em um operador Boeing, no entanto a investida do Governador Abreu Sodré acabou sendo foi em um quarteto de Boeing 737-200, matriculados PP-SMA, SMB, SMC, SMD, os três primeiros fariam história na empresa e no mundo. Com os Boeings a VASP começou a desenhar uma rede que se imortalizaria como a melhor forma de ligação entre São Paulo e o Nordeste Brasileiro. Os anos 70 marcaram a operação dos brasileiros Embraer 110 Bandeirante e dos Japoneses NAMC YS-11. Em 1977 mais uma inovação, Boeing 727-200, chamado pela empresa de Super 200, as oficinas da VASP em Congonhas serviam até a Força Aérea Brasileira, para quem a VASP cedeu 2 Boeing 737-200 da fila da fábrica.

Os anos 80 entraram com a chegada dos Airbus A300, primeiros wide-bodies da VASP, introduzidos em Novembro de 1982, com 240 assentos, sendo 26 na primeira classe e 214 na econômica, lançaram um novo padrão nas rotas domésticas, aviões comuns no exterior sendo utilizados em voos domésticos. Os A300 operaram rotas como CGH-GIG-REC-FOR-THE-SLZ-BEL-MAO / MAO-BSB-CGH / CGH-GIG-SSA-REC, entre outras. Quando da chegada dos A300, o ano de 1983 que marcava o 50° aniversário da empresa foi mais do que especial. Em 1985 a VASP mudou radicalmente sua aparência, adotou um V estilizado na cauda com a sensação de um pássaro em voo, listras em 2 tons de azul sob a soleira da porta ao longo da fuselagem e o VASP escrito em uma nova aparência, o primeiro avião a receber esta roupa foi o PP-SME. Em 1986 a VASP escreveu mais uma página de pioneirismo ao adotar o Boeing 737-300 PP-SNS na frota. Estes aviões quando lançados na empresa sempre abriam rotas de prestígio no Norte-Nordeste. Mas a VASP sofria a pressão de ser privatizada, pois era um fardo ao estado de São Paulo, até que em 1990 foi privatizada.

Arquivo FLAP Internacional

Arquivo FLAP Internacional

Durante a época privatizada dobrou de tamanho e encolheu ao tamanho inicial em 2 anos, 1992 foi um ano negro na história da empresa, com mais de 30 aviões retomados pelos proprietários, vários 737-300, 737-200, DC8-70F foram estacionados em Campinas. Chegou a operar uma rede de rotas internacionais de bom tamanho com uma frota de MD11, trazidos novos de fábrica, assim como adquiriu empresas na Bolívia, Equador e Argentina, mas este capítulo é inócuo, pois só traz más lembranças, foi nesta época ao adentrar o ano 2000 que a excelência técnica de seus mecânicos, pilotos e demais envolvidos com a operação mostrou o seu valor, pois lembram daqueles 737-200 chegados em 1969? Estavam ainda voando!

Em 2004 a empresa reduziu-se ao mínimo, com a parada dos A300 (SNL desde 2001, SNN em C-Check, SNM com um motor avariado em Julho de 2004), com a parada de 8 Boeing 737-200 sem falar alguns aviões canibalizados em nome da manutenção do restante da frota, a empresa reduziu sua rede de rotas, mostrou ao público através de uma greve que a situação não andava bem. A Companhia fragilizada e debilitada lutava pela sobrevivência, A VASP entrou Dezembro de 2004 com as seguintes aeronaves 737-300 PP-SFJ/SFN/SOU e os 737-200 PP-SMG/SMH/SMP/SMU/SMZ/SNA/SNB/SPF/SPG/SPH/SPI mas nem todos 737-200 voavam. A operação cargueira seguia usando o PP-SMW 737-200F e o par de 727-200 PP-SFC/SFG. O quadro de horários era o abaixo, todos os voos diários – Atenção horário de BSB.

 

VP4190 B737-200 GIG 07:50 09:50 SSA 10:25 11:55 NAT 12:20 13:20 FOR
VP4191 B737-200 FOR 14:45 15:45 NAT 16:30 18:00 SSA 18:55 21:00 GIG
VP4198 B737-200 FOR 15:10 16:20 THE 16:45 17:35 SLZ 18:00 19:00 BEL 19:30 21:30 MAO
VP4199 B737-200 MAO 07:50 09:50 BEL 10:20 11:20 SLZ 11:50 12:40 THE 13:05 14:20 FOR
VP4250 B737-200 BSB 08:00 09:50 SSA 10:25 11:05 AJU 11:30 12:25 REC
VP4251 B737-200 REC 16:25 17:15 AJU 17:40 18:25 SSA 19:00 20:55 BSB
VP4260 B737-200 IGU 15:35 17:10 GRU 18:00 19:00 GIG
VP4261 B737-200 GRU 11:40 12:40 GRU 13:20 14:50 IGU
VP4264 B737-300 GRU 07:50 10:00 SSA 10:40 11:30 MCZ 11:55 12:30 REC 13:00 14:10 FOR
VP4265 B737-300 FOR 14:50 16:00 REC 16:40 17:15 MCZ 17:40 18:30 SSA 19:00 21:10 GRU
VP4280 B737-200 GIG 19:30 21:10 BSB 21:40 00:10 SLZ
VP4281 B737-200 SLZ 04:00 04:50 THE 05:20 07:28 BSB 08:15 10:00 GIG

PONTE AÉREA – todos os voos com 737-300


VP4003 SEG À SEX SDU 07:15 08:05 CGH
VP4004 SEG À SEX CGH 08:30 09:20 SDU
VP4030 SEG À SEX CGH 19:56 20:46 SDU
VP4031 SEG À SEX SDU 18:44 19:29 CGH
VP4009 SÁBADOS   SDU 09:00 09:45 CGH
VP4010 SÁBADOS   CGH 10:15 11:05 SDU
VP4028 DOMINGOS  CGH 19:30 20:15 SDU
VP4029 DOMINGOS  SDU 18:10 19:01 CGH
VP4034 DOMINGOS  CGH 22:10 23:00 SDU
VP4035 DOMINGOS  SDU 20:49 21:37 CGH

 

Para girar esta triste malha a empresa utilizava seis aviões: Dois 737-300 e quatro 737-200 os quais citamos acima os “disponíveis”, realizando promoções no check-in, como uma lotação fica em um ponto de ônibus querendo completar a VASP não resistiu mais, virou o ano cambaleante, adentrou Janeiro de 2005 sob forte vigilância do DAC, até que em 27 de Janeiro, após pouso do PP-SFN realizando o voo 4265, procedente de Fortaleza – Recife – Maceió e Salvador, teve sua licença cassada pelo DAC para se reorganizar, o que não aconteceu. Neste 4 de Novembro de 2013, 80 anos depois da sua criação a VASP já não existe há oito anos, muitos escombros estão por aí em Aeroportos em forma de equipamentos de solo, terminais e até aeronaves – recentemente leiloadas. Aviões históricos como o PP-SNM primeiro A300 a pousar em diversas cidades do Nordeste, na verdade primeiro widebody em Teresina por exemplo, PP-SMA, primeiro 737-200 da América Latina, foram leiloados e não sabemos qual será o seu fim. Não deixaria a data passar em branco e ao longo deste “festivo mês” irei escrever sobre algumas experiências minhas com a VASP em forma a homenagear o legado de 80 anos desta empresa.

Em meu imaginário fica como término deste artigo, se estivesse operando, qual seria a frota da VASP hoje? Boeing 737-300 cansados e alguns 737-700 usados trazidos para modernizar? O foco continuaria sendo SP – Nordeste? Teria sobrevivido mais se os oito 737-200 não tivessem parado? Se não tivesse sido privatizada como estaria a VASP hoje? E se o Rolim não tivesse desistido do leilão? Seria a VASP hoje a TAM?

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Sobre o Autor

Alexandre Conrado, pesquisador de aviação e profissional no segmento desde 2001
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