Você viu a reportagem no Fantástico sobre tráfego aéreo e ficou com medo? Leia isso então.


Leiam a íntegra da nota oficial emitida pela FAB sobre a reportagem sensacionalista do Fantástico (e também com muitos erros nos termos técnicos, que bombaram no twitter no @avioesemusicas) aqui neste link

Apesar de saber de várias deficiências que ainda temos quando se trata do setor aéreo, concordo 1000% com a nota da FAB, pois a reportagem apelou para o sensacionalismo ao invés de focar nos fatos.
Por estas e outras razões é que nós devemos ter um senso muito crítico ao receber as informações passadas pela mídia (televisiva, via rádio e escrita), pois as informações podem servir a um outro fim que não a verdade. Isto serve para a política também, há muita [des]informação sobre o que acontece e muitas vezes o que parece ser um “escândalo” pode na verdade ser outra coisa. Aprendam a questionar sempre as informações.

Vou colocar os trechos principais da nota da FAB aqui no AeM, a íntegra está no site da FAB.

“O Comando da Aeronáutica repudia veementemente o teor da reportagem do jornalista Valmir Salaro, levada ao ar no Fantástico deste domingo, sete de agosto, e no Bom Dia Brasil desta segunda-feira, oito de agosto.

A matéria em questão parte de princípios incorretos e de denúncias infundadas para passar à população brasileira a falsa impressão de que voar no Brasil não é seguro. A reportagem contradiz os princípios editoriais da própria Rede Globo ao apresentar argumentos com falta de Correção e falta de Isenção, itens considerados pela própria emissora como sendo atributos da informação de qualidade.

O jornalista embarcou em uma aeronave de pequeno porte (aviação geral), que tem características como nível de voo, rota, classificação e regras de controle aéreo diferentes dos voos comerciais. A matéria trata os voos sob condições visuais e instrumentos como se obedecessem as mesmas regras de controle de tráfego aéreo, levando o espectador a uma percepção errada.

O piloto demonstra espanto ao avistar outras aeronaves sobre o Rio de Janeiro e São Paulo, dando um tom sensacionalista a uma situação perfeitamente normal e controlada que ocorre sobre qualquer grande cidade do mundo. Nesse sentido, causa estranheza que a reportagem tenha mostrado a proximidade dos aviões como algo perigoso para os passageiros no Brasil. As próprias imagens revelam níveis de voo diferenciados, além de rotas distintas.

Além disto, o piloto que opta por regras de voo visual, só terá seu voo autorizado se estiver em condições de observar as demais aeronaves em sua rota, de acordo com as regras de tráfego aéreo que deveriam ser de seu pleno conhecimento. Mesmo assim, o piloto receberá, ainda, avisos sobre outros voos em áreas próximas.

Foi exatamente o que ocorreu durante a reportagem, que mostra o contato constante dos controladores de tráfego aéreo com o piloto. Desde a decolagem foram passadas informações detalhadas sobre os demais tráfegos aéreos na região, sem que houvesse qualquer perigo para as aeronaves envolvidas.

A respeito da dificuldade demonstrada em conseguir contato com o serviço meteorológico, é interessante lembrar que há várias frequências disponíveis para contato com o Serviço de Informações Meteorológicas para Aeronaves em Voo (VOLMET), que está disponível 24 horas por dia em todo o país. Além destas, há frequências de ATIS (Serviço Automático de Informação em Terminal) que fornecem continuamente, por meio de mensagem gravada e constantemente atualizada, entre outros dados, as condições meteorológicas reinantes em determinada Área Terminal, bem como em seus aeroportos. Como, aliás, é o caso da Terminal de Belo Horizonte, incluindo os aeroportos da Pampulha e de Confins.

Ressalte-se que, a despeito da operação de tais serviços, todos os pilotos têm a obrigação de obter informações meteorológicas antes do voo pessoalmente nas Salas de Informações Aeronáuticas dos aeroportos, por telefone ou até pela internet.

Ao realizar o voo sem, possivelmente, ter acessado previamente informações meteorológicas, o piloto expôs a equipe de reportagem a uma situação de risco desnecessário. Tratou-se, obviamente, de mais um traço sensacionalista e sem conteúdo informativo.

A respeito do momento da reportagem em que o controle do espaço aéreo diz que não tem visualização da aeronave, cabe esclarecer que o voo realizado pela equipe do Fantástico ocorreu à baixa altitude, em regras de voos visuais, uma situação diferente dos voos comerciais regulares.

Na faixa de altitude utilizada por aeronaves como das empresas TAM e GOL, extensamente mostradas durante a reportagem, há cobertura radar sobre todo o território brasileiro. Para isso, existem hoje 170 radares de controle do espaço aéreo no país. Como dito acima, é feita uma confusão entre perfis de voos completamente diferentes. Dessa forma, o telespectador do Fantástico ficou privado de ter acesso a informações que certamente contribuem para a melhor apresentação dos fatos.

No último trecho de voo da reportagem, o órgão de controle determinou a espera para pouso no Aeroporto Santos-Dumont. O que foi retratado na matéria como algo absurdo, na realidade seguiu rigorosamente as normas em vigor para garantir a segurança e fluidez do tráfego aéreo. Os voos de linhas regulares, na maioria das vezes regidos por regras de voo por instrumentos, gozam de precedência sobre os não regulares, visando a minimizar quaisquer problemas de fluxo que possam afetar a grande massa de usuários.

A reportagem também errou ao mostrar que Traffic Collision Avoidance System (TCAS) é acionado somente em caso de acidente iminente. O fato do TCAS emitir um aviso não significa uma quase-colisão, e sim que uma aeronave invadiu a “bolha de segurança” de outra. Essa bolha é uma área que mede 8 km na horizontal (raio) e 300 metros na vertical (raio).

Cabe ressaltar ainda que a invasão da bolha de segurança não significa sequer uma rota de colisão, pois as aeronaves podem estar em rumos paralelos ou divergentes, ou ainda com separação de altitude, em ambiente tridimensional.

A situação pode ser corrigida pelo controle do espaço aéreo ou por sistemas de segurança instalados nos aviões, como o TCAS. Nem toda ocorrência, portanto, consiste em risco à operação. O TCAS, por exemplo, pode emitir avisos indesejados, pois o equipamento lê as trajetórias das aeronaves, mas não tem conhecimento das restrições impostas pelo controlador.

Todas as ocorrências, no entanto, dão início a uma investigação para apurar os seus fatores contribuintes e geram recomendações de segurança para todos os envolvidos, sejam controladores, pessoal técnico ou tripulantes. É esse o caso dos 24 relatórios citados na reportagem. A existência desses documentos não significa a ocorrência de 24 incidentes de tráfego aéreo, e sim uma consequência direta da cultura operacional de registrar todas as situações diferentes da normalidade com foco na busca da segurança.

A investigação tem como objetivo manter um elevado nível de atenção e melhorar os procedimentos de tráfego aéreo no Brasil, pois é política do Comando da Aeronáutica buscar ao máximo a segurança de todos os passageiros e tripulantes que voam sobre o país. Incidentes e acidentes não são aceitáveis em nenhum número, em qualquer escala.

Sobre a questão dos controladores de tráfego aéreo, ao contrário da informação veiculada, o Brasil tem atualmente mais de 4.100 controladores em atividade, entre civis e militares. No total, são mais de 6.900 profissionais envolvidos diretamente no tráfego aéreo, entre controladores e especialistas em comunicação, operação de estações, meteorologia e informações aeronáuticas.

Para garantir a segurança do controle do espaço aéreo no futuro, o Comando da Aeronáutica investe na formação de controladores de tráfego aéreo. A Escola de Especialistas de Aeronáutica forma anualmente 300 profissionais da área. Todos seguem depois para o Centro de Simulação do Instituto de Controle do Espaço Aéreo (ICEA), inaugurado em 2007 em São José dos Campos (SP). Com sistemas de última geração e tecnologia 100% nacional, o ICEA ampliou de 160 para 512 controladores-alunos por ano, triplicando a capacidade de formação e reciclagem.

Vale salientar que a ascensão operacional dos profissionais de controle de tráfego aéreo ocorre por meio de um conselho do qual fazem parte, dentre outros, os supervisores mais experientes de cada órgão de controle de tráfego aéreo. Desse modo, nenhum controlador de tráfego aéreo exerce atividades para as quais não esteja plenamente capacitado.

[...]

Por fim, o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica ressalta que voar no país é seguro, que as ferramentas de prevenção do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro estão em perfeito funcionamento e que todas as ações implementadas seguem em concordância com o volume de tráfego aéreo e com as normas internacionais de segurança. No entanto, este Centro reitera que a questão da segurança do tráfego aéreo no país exige um tratamento responsável, sem emoção e desvinculado de interesses particulares, pessoais ou políticos.

Brasília, 9 de agosto de 2011.
Brigadeiro-do-Ar Marcelo Kanitz Damasceno
Chefe do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica”

Tags: ,

Sobre o Autor

Um técnico com bom senso :) 28 anos de aviação comercial, de Lockheed Electra a Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
Política de moderação de comentários: A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários. O Aviões e Músicas possui moderadores de comentários e se reserva o direito de apagar quaisquer comentários que sejam ofensivos ou que não contribuam para uma discussão saudável. Pontos de vista divergentes são muito bem aceitos e incentivados, desde que se mantenha o mínimo de civilidade. Este é um espaço para discutirmos aviação :)
  • Leandro Braga

    Modéstia parte…. eu q sou leigo no assunto… ainda na sala.. domingo… durante a reportagem do Fantástico(Fantástico?onde?)…… cometei com minha mãe q a matéria era SENSACIONALISTA!!!  Rídiculo a parte em q o piloto chama a atenção para outros aviões ao redor… ainda comentei com minha mãe q akilo era normal… o q foi confirmado pela nota da FAB. Quando o piloto diz ” olha lá um Boeing 747 decolando de GRU” …. ah váááá…
    O mané reclamando a demora para pousar no santos dumont…. como diz a nota…. o q é mais importante??? um “teco teco”(sem ofensas.. expressão de leigo) ou um avião a jato queimando combústivel($$$) cheio de passageiros???? Vai te lascá Globo!

  • Pedro Golino

    Exceto a parte do trabalho dos controladores que não conheço a rotina e por tanto não posso avaliar, eu concordo com TUDO que foi colocado pela FAB em relação à reportagem do Fantástico em relação ao voo e ao preparo para o voo.

    A parte dos controladores eu não tenho conhecimento do trabalho deles para avaliar, então deixo com quem conhece.
    Numa boa, o cara fazer sensacionalismo com espera para autorização de trafego, liberação de taxi, decolagem, órbita, volume de tráfego nos corredores…ah, façam o favor né!!!Ah, acabei citando uma coisa que os leigos não sabem, os corredores REA e REH, além dos procedimentos SID e STAR.Eu já disso isso aqui antes e repito, REPÓRTER METIDO A ENTENDER DE AVIAÇÃO é um saco, sem noção!

    • Sergio Bopp

      Eu parei de assistir quando o reporter falou: “nível 370, 3.700 pés”.

  • http://www.facebook.com/people/Micael-Rocha/100001068271319 Micael Rocha

    Triste mesmo foi ver um cara com a formação e a história do comandante Jorge Barros da NvTec elamear seu currículum sendo usado (mesmo ciente disso) com reportagens tão tendenciosas assim.

    Tudo bem que a ideia dele deva ter sido de mostrar que o governo tem que agir pela melhoria da infra-estrutura aérea, mas que o faça mostrando a verdade, em todos os ângulos.

  • Daniel Martins

    Eu assisti a matéria e achei um tanto dramática de fato mas estou de acordo com a nota da FAB, acredito sim que o sistema aéreo do Brasil possa estar defasado e em falta de recursos e estrutura em alguns setores como aeroportos(mais evidente até agora), falta de controladores e até falta de manutenção de aeronaves de pequenas empresas, isso por causa da falta de fiscalização que não fica em cima talvez…

    Além disso não podemos esquecer, as vezes quem tá EM CIMA não consegue ver o que tá em BAIXO, tapa os olhos, só se mechem quando a agua bate na bunda sabe… então em quem acreditar?

    Eu estou acreditando na seriedade e responsabilidade da FAB e do Brigadeiro para com suas obrigações com a nação.

    Sem mais.

    (Obs: Hoje, só vôo de Boeing, não me façam voar de mais nada… )

  • http://www.facebook.com/people/Ricardo-Iki-de-Rezende/100000718862182 Ricardo Iki de Rezende

    Lito,
    Infelizmente a mídia tem bastante desses fatos… basta conhecer um pouco sobre o assunto que eles vão falar, e você já aponta muitas bobagens e erros absurdos.

    Mas essa história de tráfego aéreo e aviões ums pertos dos outros me lembrou um video que fiz no aeroporto de La Guardia em NY. Enquanto o avião que eu estava esperava para decolar eu filmava os pousos e decolagens pela janela e me espantei de ver (e gravar) que o intervalo de uma decolagem e o pouso de outro avião, na mesma pista, não passou de 20 segundos. Para um leigo como eu fiquei bastante assustado. O que não ocorreu ao ver as filmagens do Fantastico, onde os aviões estavam ou aparentavam estar bastante afastados ums dos outros…

    Talvez seja interessante informar que naquele dia o aeroporto de La Guardia operava com apenas uma das pistas. A outra por algum motivo estava parada.

    Postei o video no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=yqeGshGYe-k

    • Anônimo

      Cara, as regras americanas são beeeeeeem diferentes… é injusto comparar a nossa realidade com a deles.

  • http://www.facebook.com/people/Padu-Moraes/100001661861414 Padu Moraes

    Pior mesmo foi no fantástico, que eles disseram:   “O Boeing estava no Nível 370 cerca de tres mil e setessentos metros de altitude, e depois ele desceu para o nível 360. uma diferênça de 1000 metros.     :S     Depois que ouvi isso eu desliguei a tv e fui dormir.  PS: Todos q estavam assistindo a reportagem aqui no alojamento da EJ fizeram o mesmo.  kkkkkkkkkk

    • Marcos Farias

      Nessa hora que deram esses valores errados, foi a prova cabal que eles não entendem nada de aviação. Até o tal de Jorge Barros rasgou seu brevê com esta reportagem ridícula.

  • Luizin2004

    Creio que a intenção da REDE GLOBO foi justamente dramatizar, para os desinformados que passam a voar a cada dia no país de avião, passem a ter medo.Deve ser uma das METAS PRA COPA DO MUNDO, diminuir o numero de passageiros para evitar super lotação dos aeroportos.

    Lamentável.

  • carlos roberto

    A REDE GLOBO SE ACHA A DONA DA VERDADE, NAO SO NESTA REPORTAGEM DO FANTASTICO MAS EM TUDO QUE ELA NOS REPORTA E RECHEADO DE MENTIRAS ABSURDAS FELIMENTE APESAR DE SERMOS MINORIA NAO SOMOS MASSA DE MANOBRA POBRE POVO BRASILEIRO QUE SE DEIXA ALIENAR POR ESTA MIDIA NOJENTA

    • Athos Sales

       … e que por isto mesmo presta “serviços”, mostrando “o quão é perigosa é a internet…”
      Realmente… a internet possui conteúdo livre, já a tv… (ou a Goebbels…)
      E a legião de “fâs” da mídia não para por aí: Perguntem a qualquer setor aonde se lida com informações técnicas a quantidade de asneiras que mostram ao público sabe-se lá com qual intenção.
      E é o cúmulo do cinismo o que a tal “linha editorial” deles diz. Acredita só quem quer.

  • Zzzzzzzz

    esse merda com uma bosta de um monomotor vuando visual fazer uma reportagem dessa que isso !!!!!!! esse tal de jorge barros um pilotinho de fim de semana famoso domingueiro ex milico que nunca aprendeu vua na FAB fica falando merda q não sabe, você vai se ver ainda otario (jorge barros)

  • Durval

    Lito, você deve lembrar que começamos nosso “idílio” com um comentário meu sobre quem pretensamente sabe algo sobre aviação e ficou parecendo que eu me referia a você,NÃO ACREDITO EM COICIDÊNCIAS, a GLOBO não é doida, existe algum interesse excuso para uma reportágem tão mal (e mau) feita, tendenciosa, algo do tipo: Por que em tal govêrno tal emprêsa cresceu tanto? e tal emprêsa é tão denunciada??? como diria a Maga Patalogiika…Yo no creo em brujas…pero que lás hay lás hay…

  • Marcelo

    Foi muita bobagem para uma matéria só. Como sempre, quando um programa jornalístico de variedades faz uma matéria realcionada à aviação, só sai asneira. E com a colaboração de um piloto que fez questão de pisar na própria habilitação, só para aparecer na Globo. Deturpou tudo, só para falar o que o repórter queira ouvir. E, se o repórter e o piloto têm tanta convicção no que disseram, certamente eles nunca mais voarão no Brasil. Tomara que sim. Não farão a menor falta.

  • Demerson Polli

    Isto tudo sem contar as confusões com pés = metros. Na reportagem foi dito umas 2 ou 3 vezes que o nível 370 é 3700 pés e que está a mil metros do nível 380. Erro de quem nem sequer se preocupou em saber o que são os tais níveis e que 1 pé é aproximadamente 30cm.

    Bola fora.

  • Pingback: Direito de resposta da Força Aérea no Fantástico de hoje 14/08/2011 – Íntegra « Aviões e Músicas

  • Pingback: Anônimo

  • Marcelo Kitamura

    Manter a batata quente pra vender materia!! Foi na epoca do apagao aereo no Brasil…lamentavel culpar e desdenhar profissionais que cuidam tao bem do nosso espaco aereo. Aprendemos desde o inicio das responsabilidades de cada profissional do setor. Ninguem eh habilitado a entrar no ramo sem saber das normas de seguranca. Isso aqui nao eh transito de automoveis, cheios de motoristas irresponsaveis e sem habilitacao (no papel e na pratica), nem mecanicos fundo de quintal(!!!!). Tive a honra de estudar no aeroclube de SP para aprender muitas coisas, principalmente seguranca. Quanto aos controladores, tive a oportunidade de visitar a terminal SP, em congonhas, com o querido prof. Marcelino (na epoca responsavel do turno)e fiquei muito tranquilo com os profissionais em acao, muito bem orquestrada e organizada. E viva a nossa aviacao….Globo?? To fora!!!!!

Topo