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Volovelismo? Diabéisso? Voo a vela, voar como os pássaros

Ainda vou encontrar um pessoal que pratica o voo a vela lá em Bebedouro e aproveito e visito o museu que tem o Scandia da Vasp (acho que é o único modelo remanescente no mundo).
Contribuiu com o texto o colega Gabriel Marcassa.

O Volovelismo ou a prática do Vôo a Vela é a forma mais antiga, silenciosa e harmoniosa que o homem já descobriu de voar.

O Vôo a Vela, hoje, é um esporte que pode ser praticado por pessoas de diversas faixas etárias e que tem como objetivo maior voar pelo prazer de voar.

Em sua forma individual, o volovelista ou o piloto de planador, pode, aproveitando apenas a energia que a natureza oferece, permanecer durante horas em vôo, navegando por distâncias que cobrem centenas de quilômetros, competindo consigo mesmo e procurando superar desafios estabelecidos para sua própria realização pessoal.

Já em sua forma coletiva esse mesmo piloto pode participar de competições que procuram estabelecer quem é o piloto mais eficiente, regular e que melhor aproveita as condições meteorológicas do dia no cumprimento de uma prova.

O equipamento

Assim como em todo esporte, o equipamento adequado é fundamental para sua prática e, no caso do Vôo a Vela, utiliza-se o planador.
O planador é uma aeronave como qualquer outra, exceto por um pequeno detalhe: é um avião que não possui motores!!!
Ele é projetado especialmente para planar e tira o máximo proveito da aerodinâmica para tornar seu vôo o mais eficiente possível.
O tamanho, a forma, o preço, o projeto, variam muito mas, de qualquer forma, você não precisa comprar um para aprender a voar ou praticar o Vôo a Vela com regularidade. Na realidade, basta se associar a um aeroclube e usufruir dos equipamentos a ele pertencentes.

Aprenda a voar

-Como um planador voa?
Se um planador não possui motor, então, como é que ele voa? A resposta é simples: planando.
Um planador tem uma feliz propriedade que é a de voar na horizontal, às custas de uma pequena razão de afundamento. Complicado?!?! Não!
Todo avião tem essa propriedade, contudo, apenas os planadores tentam levá-la ao máximo possível. Em outras palavras: à medida que um planador avança, ele perde um pouco de altura, ao contrário de um avião que compensa essa perda com a energia fornecida pelo motor.
Em um planador essa perda de altura é pequena, se comparada com o avanço. Digamos, tecnicamente, que um planador tenha uma razão de planeio de 30:1. Isso significa que para cada 30 metros de avanço perde-se 1 metro na altura, ou seja, se estamos a 1.000 m de altura e voamos com a máxima razão de planeio todo o tempo, percorremos 30 km de distância.
Existem planadores com razão de planeio que chegam a 60:1, ou a até mais.

-Como um planador decola?
A questão agora é como se consegue essa altura inicial.
Bem, na natureza não existem milagres, ou você já tem essa altura, como por exemplo, no topo de uma colina, ou você vai precisar de uma ajuda.
Existem algumas formas de se ganhar a altura inicial no vôo com planadores. No Brasil o mais comum é o reboque do planador por um avião que, logicamente, possua motor.
Esse avião rebocador é especificado exatamente para essa tarefa. Através de um cabo de ligação, com uma extremidade engatada na cauda do avião e a outra no nariz do planador, o avião rebocador decola ambos: ele próprio e o planador de carona. Em uma altura pré-estabelecida, por volta dos 600 metros/2.000 pés, o planador libera o cabo e inicia seu vôo em liberdade.

Como navegar?
A partir do desligamento do avião rebocador é que as coisas começam a ficar boas. É agora que a habilidade do piloto do planador entra em ação.
Na natureza existem energias que, no cotidiano, não percebemos de forma direta. A atmosfera terrestre é um sistema dinâmico e em constante alteração. Podemos encontrar ao longo de suas camadas vários fenômenos que possibilitam a permanência do planador em vôo. São eles, basicamente: as térmicas, as ascensões de colinas e as ondas – todos esses fenômenos resultam do deslocamento de massas de ar (existem outros, mas muito específicos para serem listados aqui).
As térmicas são o deslocamento da massa de ar no sentido vertical. É como o vento, só que para cima, e não na horizontal, como normalmente o sentimos. É nessa massa de ar que o planador encontra sua sustentação para ganhar altura. Parece irreal, um objeto que pode pesar centenas de quilos ser arremessado para cima apenas por uma corrente de ar. Acontece que nessa corrente existem centenas de toneladas de ar sendo deslocadas. Em outras palavras: o planador não passa de uma folhinha de papel sendo levada para cima, mas de uma forma controlada.
As outras duas formas são mais incomuns no Brasil, mas também podemos encontrá-las. As ascensões de colina e as ondas, ambas estão relacionadas com o vento e os acidentes geográficos de uma região. Para as ascensões de colina, o que se precisa é de um forte vento soprando colina acima. Nessa condição aparece uma componente vertical do vento que o planador pode utilizar para se manter em vôo.

As ondas são, de forma bastante simplificada, uma ocorrência tal qual as colinas, mas em dimensões muito maiores. São necessárias verdadeiras cadeias de montanhas para gerar um sistema de ondas. Nesses sistemas realizam-se os vôos mais altos de planadores, tão altos que os pilotos, obrigatoriamente, tem de utilizar oxigênio para se manterem conscientes.
Assim, finalmente, podemos entender como os planadores podem percorrer distâncias sem o uso de um motor. Uma vez que o planador ganha altura após o desligamento do avião rebocador, ele pode trocá-la por distância e novamente, lá à frente, procurar uma outra térmica, ou colina, ou onda, e ganhar mais altura e continuar seguindo.
Quanto mais eficiente é o piloto na leitura da atmosfera à frente, mais rápido é seu vôo e até mais distante é sua navegação. No Brasil existem pilotos que já quebraram a barreira dos 1.000 quilômetros de navegação.

Fonte:
ABVV – Associação Brasileira de Vôo a Vela
www.planadores.org.br

E sabe como é feito um planador? Olha este vídeo então.

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Sobre o Autor

Graduado em Manutenção de Aeronaves, com muito bom senso :) 30 anos de aviação comercial (e contando), de Lockheed Electra à Boeing 787. Tentando simplificar a complexidade da aviação.
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