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Volta ao mundo de trike #aventura

Há algum tempo eu acompanho pelo facebook um casal alemão que está dando a volta ao mundo de trike. Ou melhor, eles estão dando uma volta pelo mundo de trike, pois partiram dos Estados Unidos, estão passando pela América do Sul, passarão pela África, Sul da Ásia e terminarão na Austrália.

Legal esse lance de volta ao mundo, mas o que é um trike?

O trike é uma aeronave ultraleve pendular. Pendular? Sim, pois ela é comandada através do deslocamento do centro de gravidade da asa por um movimento pendular. O carrinho do trike está acoplado a uma asa delta (que é bem diferente das asas de voo livre, pois reforçada para suportar o peso do trike e a maior velocidade de cruzeiro) e o piloto desloca o centro de gravidade da asa para frente e para os lados através da barra de comando. O princípio é exatamente o mesmo de uma asa delta de voo livre, mas ao invés da massa a ser deslocada consistir apenas no piloto (como no voo livre), há no trike um carrinho com motor.

Eu já fiz algumas horas de instrução em um trike e posso afirmar que voar em uma aeronave dessa é muito legal. Liberdade, adrenalina, paz, todos esses sentimentos (ainda que contraditórios) se encaixam bem na descrição de um voo de trike.

Mas não posso deixar de citar o nó que dá no cérebro de quem já é piloto de avião (meu caso), pois os comandos do trike são invertidos quando comparados aos de uma aeronave convencional: empurre a barra de comando pra frente e o trike subirá, leve a barra de comando para à direita e o trike irá para a esquerda… deu pra imaginar né? Mas nosso cérebro é esperto, depois de levar muita bronca do instrutor ele aprende.

Eu em uma das minhas primeiras aulas de instrução, sobre a praia do Recreio/RJ

Instrução sobre a praia do Recreio/RJ

Pois bem, o casal que motivou este post, Andreas e Doreen, resolveu dar uma volta pelo mundo em uma máquina dessas. Eles partiram da Flórida/EUA em 21 de julho de 2012, passaram pelo Caribe, desceram a América do Sul pela costa oeste até o Chile e cruzaram a Cordilheira dos Andes (!), decolando de Puerto Montt no Chile e pousando em Bariloche na Argentina.

Cruzando a Cordilheira dos Andes em 12 de abril de 2014

Cruzando a Cordilheira dos Andes em 12 de abril de 2014

Após isso, voltaram a navegar para o norte, ingressaram no Brasil por Foz do Iguaçu, passaram por São Paulo e, neste momento, estão no Rio de Janeiro. Cansou? Eles ainda vão subir novamente as Américas, passar pela Europa, cruzar a África de norte a sul, o sul asiático e terminarão a viagem em Sydney, Austrália. Ufa.

Chegando no Brasil por Foz do Iguaçu

Chegando ao Brasil por Foz do Iguaçu

Eu tive a oportunidade de conhecê-los no Clube de Aeronáutica, local em que eles estão baseados no Rio de Janeiro. Andreas e Doreen são um casal incrível, pessoas simples, alegres, que amam o voo, a aventura e a vida. E estão aproveitando tudo isso da melhor forma possível. Como não poderia deixar de ser, fiz algumas perguntas a eles para publicar aqui no AeM. Vamos lá:

– Como surgiu a ideia de viajar ao redor do mundo em um Trike?

“Nós nos conhecemos em novembro de 2010 durante uma expedição incrível na Amazônia, em que eu, Andreas, era o guia turístico e a Doreen uma participante do passeio. Desde esse momento nos apaixonamos profundamente e passamos a partilhar todo o tipo de aventuras, boa comida, bom vinho e o fascínio de voar em uma aeronave aberta ao redor do globo.

Bem, especificamente falando da viagem, a ideia surgiu no inverno de 2011/2012, quando estávamos sentados em um sofá vermelho no nosso apartamento em Berlim, bebendo uma taça de vinho e pensando onde poderíamos passar as nossas próximas férias. O diálogo foi mais ou menos assim:

Andreas: Ei, por que não compramos um pequeno trike, um reboque e um trailer nos EUA e vamos passar os próximos cinco a oito anos de nossas férias por lá, voando em torno de São Francisco, Flórida, Grand Canyon, etc.

Doreen: Ótima ideia! Mas por que não voamos também para Belize, onde você viveu por alguns anos? Não é tão longe assim.

Andreas: Tudo bem, não vejo problemas, então esqueça o trailer, vamos ver se a gente consegue uns três meses de férias.

Doreen: Meu chefe vai concordar, não há problema! Hum, mas você também morou na Colômbia, Venezuela, Equador e em algumas ilhas do Caribe. Nós temos que voar por lá também!

Andreas: Ok, então temos que dizer ao seu chefe que você precisa de um ano fora! E depois disso nós voltaremos para a Alemanha.

Doreen: Pensando bem, também seria ótimo voar sobre as savanas da África e ver os elefantes de perto… você não acha?

Andreas: Sim, mas já que é assim vamos fazer as coisas direito. Peça demissão e vamos viajar por três ou quatro anos até a Austrália, incluindo também a Ásia!

Dorren: Excelente! Vamos abrir mais uma garrafa de vinho?

Andreas: Claro! Cheers!”

– Qual é o objetivo real da aventura? Estão em busca de um recorde mundial?

“Queremos apenas desfrutar, voar e descobrir novas culturas, conhecer pessoas fantásticas e ver paisagens espetaculares.”

Visual do Atacama a 11.200ft

Visual do Atacama a 11.200ft

Sobrevoando o Cristo Redentor

Sobrevoando o Cristo Redentor

Voo sobre uma camada de nuvens em Belize.

Voo sobre uma camada de nuvens em Belize.

– A Doreen tinha um bom emprego na Alemanha. Ela reagiu bem à ideia? Ela aceitou de imediato?

Bem, como você já sabe agora, a ideia foi mais dela do que minha. :)

 O modelo do seu trike é de cockpit totalmente aberto. Sei que há alguns modelos de trike que possuem carenagem, fornecendo alguma proteção contra o vento, tornando a viagem mais confortável. Por que você fez essa escolha, que aparentemente é a menos confortável para viagens longas?

Há alguns modelos de trike tecnicamente muito mais avançados, mais rápidos e com um para-brisa muito mais confortável do que o trike da DTA, que foi o que eu escolhi. Mas ainda assim eu não me arrependo da escolha, pois eu gosto de trikes completamente abertos, sem toda aquela fibra de carbono ao redor. Eu preciso do vento no meu rosto! Além disso, o trike DTA Voyageur é muito resistente, especialmente para pousos em pistas não pavimentadas ou mesmo em locais não programados, como praias, desertos. Também tenho que citar a capacidade do DTA de levar todo o peso da nossa bagagem.

– Vocês cruzaram a Cordilheira dos Andes em um Trike! Como foi esse momento especial?

Cruzar montanhas tão altas não é apenas excitante, mas também muito perigoso, por conta do clima adverso e dos ventos muito fortes. Nós tivemos que esperar por sete semanas para ter certeza de que o clima estava perfeito. Nós decolamos de Puerto Montt no Chile no dia 12 de abril e seguimos a 9,000 pés para o lado Argentino da Patagônia, onde pousamos em Bariloche. Chegamos a enfrentar temperatura de até -8 ° C.

– Houve algum problema mecânico no trike? Ou algum problema com o clima?

Enfrentamos mau tempo com nuvens baixas e ventos fortes em Belize e no Chile, quase que diariamente. Por duas vezes tivemos que pousar em uma praia de areia muito macia no Equador e, no Chile, pousamos no meio do deserto. Não tivemos qualquer problema mecânico.

Pouso não programado no deserto do Atacama para fugir do mau tempo.

Pouso não programado no deserto do Atacama para fugir do mau tempo.

Outro pouso não programado por conta do mau tempo, dessa vez na praia.

Outro pouso não programado por conta do mau tempo, dessa vez na praia.

Enfrentando o mau tempo

Enfrentando o mau tempo

– Qual é a autonomia de combustível do trike?

Temos um tanque principal de 76 litros, que nos dá uma autonomia de cerca de 450 km. Além disso, possuímos dois tanques extras que nos garantem mais 350km de autonomia. Mas, geralmente, nós voamos por apenas 2/3 horas, pela manhã, para quando chegarmos ao destino termos tempo para abastecer, comprar alguma comida e arrumar um local para passar a noite.

– Vocês estão agora no Rio de Janeiro. Quais cidades no Brasil vocês ainda vão visitar?

Chegaremos em Brasília em meados de agosto. De lá vamos voar até o rio Araguaia, seguindo-o até as dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, navegando após para Belém. Deveremos sair do Brasil no final de setembro. Nosso próximo destino será a Guiana Francesa.

– Como vocês financiam essa viagem? Há patrocinadores, vocês aceitam doações?

Bem, isso é uma pergunta que todos nos fazem! E, posso dizer desde já, isto era ou ainda é o maior desafio que enfrentamos! A Doreen possuía algum dinheiro guardado, um apartamento com móveis e utensílios domésticos que já foram vendidos. Não há mais nada nessa conta. De toda forma, esse dinheiro só conseguiu nos sustentar durante o primeiro ano da viagem. Então, eu continuo trabalhando algumas horas por dia via internet para a empresa que eu trabalhava antes da viagem, fazendo marketing para expedições na selva. Também obtemos dinheiro vendendo nossos livros e filmes, que correspondem a uma grande parte do nosso financiamento. Aqui todo mundo pode ajudar, e muito :) Além disso, as pessoas também podem ajudar com uma pequena doação, ou mesmo colocando o seu nome em nossa asa! Todos os detalhes podem ser encontrados em nosso site: www.trike-globetrotter.com

– Quando vocês planejam alcançar Sydney, Austrália?

Acho que em meados de 2018.

 – E o que vocês vão fazer depois de chegar lá? Voar de volta de Trike para a Alemanha? :)

Pretendemos percorrer o mundo por dois anos fazendo algumas palestras, com a esperança de obter algum dinheiro para nossos bolsos vazios. Depois disso, não temos planos. :) Mas, honestamente, você sabe o que você vai fazer em cinco anos? :)

Eu, Doreen e Andreas

Eu, Doreen e Andreas no Clube de Aeronáutica/RJ

 

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Sobre o Autor

Piloto de aeronaves leves por paixão. Adora voar e bater um bom papo de hangar.
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