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Um marco na vida de qualquer piloto – Parte 1

Amante da aviação desde que eu era apenas um embrião, sempre sonhei em voar, porém a vida me levou por outro caminho e só agora com 31 anos, estou tendo a oportunidade de finalmente tirar o meu brevê de piloto de avião. Acredito que muitos como eu tem esse sonho e por isso resolvi compartilhar um momento muito importante na minha vida, o meu primeiro voo solo que realizei dia 2 de novembro desse ano.

O texto está dividido em três partes, onde publicarei uma por dia. Procurei detalhar o máximo possível como foi esse dia, espero que vocês curtam.

Parte 1: Navegando pela primeira vez

Acordei as 5:30 da manhã, pois tinha dois voos agendados, um as 8:30 e outro as 14:30. Como é preciso se apresentar 1 hora antes, saí de São Paulo às 6:30 rumo a Jundiaí. Como era feriado, a viagem foi tranquila e em 50 minutos eu havia chegado no aeroporto.

Chegando lá o instrutor escalado era o Coelho. O voo seria uma navegação pra Campinas (SBKP) no Cessna 152 prefixo PR-EJV, que é feita para apresentar ao aluno a rota e aeroporto alternativa caso não seja possível pousar em Jundiaí em um voo solo. Fui fazer a inspeção externa onde aproveitei para pedir o abastecimento, depois o planejamento da navegação e briefing da missão.

A rota previa seguirmos para Morumgaba pelo Portão 3 passando por Itatiba, após proa direto para Campinas e na volta viríamos por Itupeva. Fizemos cálculos de peso e balanceamento e por causa dos tanques cheios, estávamos no limite do envelope de voo do C152. Imprimimos os METARs, TAF, cartas ADC e PDC. Checamos o NOTAM de SBKP para ver se havia algo de relevante e saí para levar a notificação à sala AIS.

Como precisamos fazer todo esse planejamento detalhado, o voo deu uma atrasada. Embarcamos, checklist executada e após autorização do GRD, acionei o motor às 9:31. Seguimos no taxi para o ponto de espera da pista 18, que fica exatamente no extremo oposto do aeroporto. Aproveitei o taxi para fazer o briefing de decolagem:

“Vamos fazer uma decolagem normal da pista 18, flaps up. Vamos rodar a aeronave com 60kt e acelerar para 70Kt até 400Ft. Após o After Take-off Checklist, continuamos subindo com 70kt. Após 500Ft, curva a esquerda cumprindo o circuito de tráfego padrão para então livrar o circuito na perna do vento da pista 18 para o setor Whiskey. Mínimos operacionais não atingidos, instrumentos do motor fora do arco verde, objetos na pista ou perda do eixo, abortamos a decolagem. Pane após a VR com pista em frente pousamos em frente. Após a VR sem pista em frente, abaixo de 500ft, pousaremos em frente ou no máximo 45° à esquerda ou à direita. Acima de 500ft, avaliaremos o retorno para a pista e, se possível, curvar contra o vento. Em caso de pane real, os comandos estão com o instrutor e a fonia e checklist comigo.”

Chegando no PE, havia um Cirrus já aguardando. Parei um pouco antes, troquei pra frequência da torre (118.75), executei os cheques de motor e alinhei bem na barra do ponto que espera, pois o Cirrus já havia sido autorizado a decolar.

Fui liberado alinhar e manter, onde já aproveitei pra fazer o Cleared For Takeoff Checklist, que é apenas landing lights ON, transponder em modo C e fazer um cross-check na bússola.

As 09:44 a torre nos autorizou a decolar. Iniciei a corrida, tudo normal, mínimos atingidos, instrumentos do motor no arco verde e airspeed alive. A 55kt aliviei o manche e com 60kt iniciei a rolagem suave.

Rapidinho atingimos 3800ft onde executei o After Takeoff Checklist, que consiste em landing lights OFF, flaps up, e engine instruments checked. A 3900ft iniciei curva à esquerda na proa para livrarmos o circuito mantendo a subida até 4500ft. Durante a subida, o instrutor me pediu para manter a carta REA em mãos e ir acompanhando e identificando os marcos. A visibilidade horizontal era de aproximadamente uns 8000m.

Nivelamos e chegamos no primeiro deles, a cidade de Itatiba com 1 minuto de atraso, portanto estávamos com vento de proa. Continuamos rumo a Morumgaba, quando chamamos o APP SP, avisando que tínhamos intenções de seguir pra SBKP para toque-e-arremetida com retorno para Jundiaí por Itupeva. Até então não sabíamos se ele iria autorizar ou nos mandar fazer pouso completo, pois lá eles geralmente não permitem voo de treinamento para não complicar o tráfego dos voos comerciais. Então o APP SP liberou o TGL, nos mandou seguir na proa direta para Campinas, reportar passando Louveira, e nos pagou um código de transponder.

Durante todo o percurso o instrutor ia me perguntando os nomes das cidades que estavam a volta para saber se eu estava orientado. Ao passar Louveira, o APP SP nos pediu para seguir em direção à final da 15 de SBKP, porém passando e coordenando com Amarais.

Fizemos a rota estipulada pelo APP, e fui tentando sempre bater com a carta para saber onde estávamos. Acredite, no ar é bem mais difícil que no Flight Simulator localizar os marcos, e as vezes mesmo com boa visibilidade é difícil até de achar uma pista como a de Amarais que tem 1200m. Após procurar bastante avistei Amarais a minha esquerda, e seguimos coordenando até ingressarmos no rumo de Viracopos.

Quando avistamos SBKP ainda relativamente longe, chamamos a torre de Viracopos, reportando na longa final da 15 para TGL. A torre nos pediu para reportar ingressando na final normal.

Chegando mais próximo dá pra se ter uma idéia do tamanho daquela pista, que tem 3200m de extensão, quase 3 vezes a de Jundiaí que tem 1100m. Então alinhei com reta final da 15, aquela pistona com PAPI e tudo, a torre nos autorizou o TGL.

Fizemos o toque as 10:18, bem tranquilo pois com tudo aquilo de pista dava pra fazer uns 3 TGLs e depois decolei novamente. Antes de terminar a pista eu já estava alto o suficiente pra ter feito o After Takeoff Checklist e saída de tráfego.

Seguimos então na proa do Través de Itupeva, sob o controle do APP SP. Chegando lá aproei Helói Chaves, um condomínio de prédios que não é um fixo homologado, mas usamos para nos orientar chegando em SBJD pelo setor Wiskey (oeste). Lá já podemos chamar a torre de Jundiaí, que nos pediu para reportar para o cruzamento do aeródromo e ingressar na perna do vento pra pista 18.

Fiquei atento e visual com um planador que estava sobrevoando o aeroporto, já para ingressar na curva base e pousar. Não é que quase para cruzar um aeroporto o instrutor dá um puxão no manche e fala:

“Nossa, você viu? Estava sem coordenar!”

Olhei pela minha janela à esquerda e vi um rebocador puxando um planador passarem logo abaixo de nós bem na transversal, a menos de 500ft abaixo. Continuei o voo cruzando o aeroporto e ingressando na perna do vento. Pousamos as 10:40 e livramos pela última, que fica praticamente onde é o hangar.

Cortei o motor, fiz o cheque de abandono e depois o debriefing, o qual falamos sobre diversos pontos do voo. Terminamos tudo já era quase meio dia e resolvi sair já para comer alguma coisa, pois teria que me apresentar 13:30 para o próximo voo.

(Continua…)

Acompanhe a parte 2 em: O susto

Por: Felipe Bachian

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Espaço dedicado aos textos dos leitores do AeM que colaboram com artigos de aviação.
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